1984 de George Orwell a caminho da Broadway

A peça baseada na obra distópica chega aos EUA com Trump na Casa Branca e numa altura em que as vendas do livro voltaram ao topo.

A peça chegou aos palcos londrinos em 2013
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A peça chegou aos palcos londrinos em 2013 DR

O espectáculo de teatro 1984, baseado no clássico distópico de George Orwell, está a caminho dos Estados Unidos. A produção, que estreou em Londres em 2013, vai apostar agora no público norte-americano e a estreia na Broadway, em Nova Iorque, deverá acontecer já em Junho.

A adaptação da obra foi originalmente conduzida por Robert Icke e Duncan Macmillan e esteve nomeada para um prémio Olivier. A sua chegada a Nova Iorque, ao Hudson Theatre, anunciada para 22 de Junho, marca o arranque da época 2017/2018, detalha a Rolling Stone. O elenco ainda não é conhecido, mas deverá ser revelado brevemente.

A versão que pisará o palco da Broadway será produzida por Sonia Friedman (que trabalhou no Harry Potter e a Criança Amaldiçoada) e Scott Rudin (um dos produtores de Haverá Sangue e Este País Não é Para Velhos)

O clássico que inspirou a peça, editado em 1949, voltou ao topo de vendas depois de membros da Administração Trump (e o próprio Presidente) terem adoptado um discurso que invoca “factos alternativos” e dá como falsas todas as informações que fragilizem a sua imagem.

A semana passada, Kellyanne Conway, conselheira de Trump e a impulsionadora da agora repetida expressão "factos alternativos", invocou um atentado terrorista que nunca aconteceu para justificar o decreto presidencial que proíbe a entrada nos EUA de cidadãos de sete países de maioria muçulmana. A mais recente aconteceu esta segunda-feira, quando Donald Trump declarou que “todas as sondagens negativas são falsas”. 

A oscilação nas vendas não é matéria de análise que deva ser isolada da actualidade e este não é um fenómeno exclusivamente relacionado com a chegada de Trump à Casa Branca. A última vez que as vendas de 1984 subiram foi em 2013, quando, através das revelações do dissidente Edward Snowden, foram conhecidos programas de vigilância maciça e ilegais de agências de serviços secretos norte-americanas.

Na obra 1984, a sociedade vive em permanente vigilância e os factos históricos são distorcidos em defesa dos interesses do governo no poder, o chamado Grande Irmão. 

O pico de popularidade do livro é também acompanhado por algumas iniciativas, como é exemplo a de uma livraria em Los Angeles que ofereceu 50 cópias do livro sobre o universo autoritário orwelliano. A ideia partiu de um benfeitor anónimo que comprou as cinco dezenas de exemplares e pediu à livraria que os oferecesse a potenciais interessados, conta um jornal de São Francisco.

No cinema, o livro foi adaptado para o grande ecrã pelo menos duas vezes, uma delas em 1984. Protagonizado pelo actor John Hurt no papel de Winston Smith, o filme dos anos 80 esteve nomeado para um prémio BAFTA. A versão mais antiga data de 1956.

A chegada da peça 1984 à Broadway poderá ser polémica. No final de 2016, Mike Pence, vice-Presidente, que à data ainda não tinha assumido funções, foi assistir à peça Hamilton, mas acabou vaiado e ouviu do elenco o apelo ao respeito pela diversidade cultural e religiosa. Hamilton, que conta a história do “nascimento” dos Estados Unidos, foi criado por Lin-Manuel Miranda e contém um tom de crítica aos ainda actuais problemas de racismo e xenofobia, pela voz "um grupo diverso de homens e mulheres, de diferentes cores, credos e orientações".

Na altura, o momento foi duramente criticado pelo actual Presidente dos EUA, Donald Trump. O Presidente norte-americano acusou o elenco de ter sido "muito rude" para "um homem muito bom" e, desvalorizou o musical, vencedor de Pulitzer em Drama e onze prémios Tony. "Ouvi dizer que é altamente sobrevalorizado", concluiu Trump.