Opinião

O que Guterres fará com 50 anos de ocupação israelita na era Trump

Em Junho passa meio século de violações flagrantes. Ao cuidado do secretário-geral das Nações Unidas.

1. O ano de 2017 é um ano redondo para uma guerra muito velha: faz meio século que Israel controla/povoa ilegalmente Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Leste. A Guerra dos Seis Dias, em Junho de 1967, foi uma vitória-relâmpago de Israel sobre os países árabes, mas a ocupação dos territórios palestinianos que se seguiu a essa vitória continua a ser uma guerra até hoje, com milhões de reféns, a cada geração mais prisioneiros. E se a ONU tem sido o pão, a saúde, a educação para a maioria deles, isso também significa, na prática, que mantém a ocupação oleada, e portanto ajuda a perpetuá-la. Nas resoluções da ONU, aprovadas por uma maioria de nações, Israel é o Estado que há meio século viola de forma crescente a lei internacional. Para minorar os danos, vai para meio século que a ONU tem a UNRWA, agência exclusivamente dedicada aos refugiados palestinianos, caso único. Este ano seria mais que tempo de questionar o que toneladas de papéis, dinheiro e ajuda da ONU fizeram contra a ocupação. Será mesmo um ano crucial por Trump ter entrado nesta guerra mal chegou à Casa Branca. António Guterres tem aqui uma missão histórica. E não começou bem.

2. Além de território ocupado, Jerusalém Leste foi posteriormente anexada por Israel, que declara toda a cidade sua capital eterna e indivisível. Esta anexação não é reconhecida pela lei internacional, e a grande maioria das nações tem, por isso, as embaixadas em Telavive. No coração da disputa por Jerusalém está um pedaço de cidade que para os judeus é o Monte do Templo (onde terá existido o templo original do Velho Testamento), e para os muçulmanos a Esplanadas das Mesquitas (onde Maomé terá ascendido). É um ponto incendiário, palco de confrontos constantes. Não por acaso, as escavações arqueológicas no local são uma das armas do Estado de Israel para certificar a pretensão judaica ao local, e controlar o acesso dos muçulmanos à Mesquita de Al Aqsa e à Cúpula do Rochedo. No Outono passado, a UNESCO emitiu uma resolução estabelecendo as raízes islâmicas de Al Aqsa, e criticando a “escalada agressiva” de Israel como “poder ocupante”, e o seu uso de “extremistas de direita”. Israel reagiu com fúria. E agora em Janeiro, na sua primeira entrevista à Rádio Pública de Israel como secretário-geral da ONU, Guterres mostrou-se no mínimo inábil: “É claro, como o sol é claro, que o Templo, demolido pelos Romanos, é um Templo judeu”, disse. Acrescentou depois: “Ninguém pode negar o facto de que hoje Jerusalém é sagrada para três religiões.” Estas declarações podem ser lidas como um certificado da antiguidade exclusivamente judaica do local, e claro que foram utilizadas dessa forma. A imprensa israelita replicou-as com abundância, descrevendo Guterres como “um amigo de Israel”, ouvindo dirigentes e ex-dirigentes confirmarem que Guterres sempre mostrou gostar de Israel. Em contraponto, claro, os palestinianos exigiam desculpas. De qualquer ponto de que se olhe, por convicção ou inabilidade, não foi um bom começo. Ao tornar-se secretário-geral da ONU, Guterres responde por estes 50 anos de ocupação e pelos próximos. É o responsável máximo pela gigantesca máquina de assistência aos refugiados palestinianos. E um momento como este, em que o Presidente dos EUA acirra abertamente (também) esta guerra, dá-lhe uma oportunidade única de provar a relevância da ONU, de cortar com a ideia de que as Nações Unidas são apenas um grande gestor do statu quo, de ser o pólo alternativo, inspirador, cortando com a hipocrisia ou a cobardia que prevaleceram neste meio século de diplomacia internacional no que respeita à ocupação israelita.

3. Tendo anunciado em campanha que passaria a sua embaixada de Telavive para Jerusalém, Trump prepara-se para cumprir a promessa, um gesto-bomba. Entretanto, nomeou como embaixador David Friedman, uma figura celebrada como amigo dos colonatos mais extremistas. E há poucos dias a Casa Branca declarou que “não acredita que a existência de colonatos constitua um impedimento para a paz”, embora “a construção de novos colonatos ou a expansão dos existentes para além das fronteiras actuais possa não ser um contributo para esse fim [a paz]”. Ou seja, ao contrário de Obama, a Administração Trump diz OK a todo o saque de terra destes 50 anos e a que os 600 mil colonos da Cisjordânia e Jerusalém Leste lá continuem. Admite, no máximo, que aumentar a ocupação “pode” não ajudar a paz. Mas quem se prepara para fazer um muro entre os EUA e o México tem muito o que aprender com os governos de Israel que construíram o muro de separação. Deverá mesmo usufruir da comprovada experiência profissional israelita.

4. De Putin a Netanyahu, é sabido que Trump não gosta de bananas. A direita em Israel (ou seja, grandíssima parte do que hoje é Israel) também não. Em Telavive há um cartaz a dizer “Trump: Make Israel Great Again”. A Al Jazeera escolheu-o para ilustrar um texto da académica palestiniana Yasmeen El Khoudary em que ela explica como a recente ordem de Trump para impedir a entrada de cidadãos de sete países muçulmanos tem um eco no que os palestinianos vivem há muito. “Cristãos, drusos ou muçulmanos, temos sido todos banidos, seja de voltar à nossa terra, seja de viajar nela, seja de a deixar, seja de voltar a ela. Tudo isto tem uma espantosa semelhança com as ordens de Trump, mas enquanto essas ordens indignaram gente, governos, comércio internacional e organizações pelo mundo, os contínuos bloqueios de Israel são recebidos com silêncio, cumplicidade, em alguns casos apoio.”

5. “Estamos a construir e vamos continuar a construir”, garantiu há dias Netanyahu. Começou o ano fiel ao seu pior: anunciando mais 2500 casas nos colonatos, incluindo os da linha dura, a que se somam centenas de novas casas em Jerusalém Leste. Os colonos tendem a ter famílias extensas, na sua missão de povoar “Judeia e Samaria”, como chamam à Cisjordânia, portanto estamos a falar de mais uns valentes milhares de novos ocupantes. A ONU apressou-se a declarar que se tratava de “uma violação flagrante”. Em Junho serão 50 anos de violações flagrantes. Ao cuidado do secretário-geral.