Opinião

"A nação não pode estar na oposição”

Na sua necessidade de se apresentar como resposta à globalização, e no afã de mascarar que não tem afinal resposta nenhuma, o nacional-populismo vai dando ordem de soltura aos demónios.

A atual vaga de nacional-populismo começou na Hungria, em 2010, com a eleição de Viktor Orbán como primeiro-ministro. E por sua vez, a deriva ideológica de Orbán começou quando perdeu as eleições após uma primeira passagem pelo governo, oito anos antes, em 2002. No discurso que pronunciou na noite em que foi derrotado, Orbán exprimiu a sua rejeição desse facto através de uma teoria que ficou na mente dos húngaros: “talvez os nossos representantes passem a estar na oposição no Parlamento, mas nós, aqui nesta praça, não podemos estar e não estaremos na oposição, porque a nação não pode estar na oposição”.

Segundo Orbán, o seu partido era a nação e, por isso, mesmo que tivesse perdido e ficasse na oposição no parlamento, ele nunca estaria verdadeiramente na oposição. “No pior dos casos, pode acontecer que um governo esteja em oposição com o povo, se abandonar os objetivos da nação”, acrescentou. Nos anos seguintes, Orbán refinou a sua teoria da “democracia iliberal” e os nacional-populistas na Polónia, na França e até nos EUA e na Rússia foram seguindo com atenção os seus passos. Quando voltou ao poder, mudou a Constituição uma vintena de vezes, decapitou o poder judiciário, tomou conta do Tribunal Constitucional, controlou a imprensa e mudou as leis eleitorais. Houve alertas dados a tempo, em particular no Parlamento Europeu, mas os governos no Conselho Europeu não quiseram agir. Na semana passada, esses mesmos governos reuniram em Malta; mas antes de se encontrar com eles, Orbán reuniu com Putin em Budapeste.

Ontem, Donald Trump reagiu — no twitter, é claro — à decisão de um juiz que suspendeu as suas ordens de rechaçar refugiados e imigrantes nas fronteiras dos EUA. Os seus tuítes foram, como de costume, agressivos e hiperbólicos. Mas uma das expressões que usou lembrou-me imediatamente a frase de Orbán sobre como “a nação não pode estar na oposição”: foi quando se referiu ao juiz que tomou a decisão como um “assim-chamado juiz” ou “pseudo-juiz”. Pouco importa que o juiz em causa tenha sido nomeado por um Presidente republicano e aprovado no Senado por um voto unânime. Para Trump, se a decisão do juiz lhe foi contrária, é porque o juiz não é um verdadeiro juiz.

O mesmo caminho mental explica porque Trump não consegue aceitar que tenha tido menos votos do que Hillary Clinton. “A nação não pode estar na oposição”. Se Clinton teve três milhões de votos a mais do que Trump, é porque esses votos não podem ser votos verdadeiros de americanos verdadeiros. Para Trump, a solução é clara: mesmo sem provas, esses votos só podem ter sido depositados por imigrantes ilegais.

O nacional-populismo promete unir a nação. Na verdade, é incapaz de conceber a oposição. Quem se opuser ao nacional-populista vai ter de se habituar a isto, categoria por categoria: os jornalistas passam a “falsos jornalistas”, os juizes a “pseudo-juizes”, os políticos a“traidores”, os milhares nas ruas a “maus patriotas”. O nacional-populismo não aceitará nunca que a vontade geral seja uma vontade plural, aquém e além de fronteiras, e por isso tem de imaginar uma nação que no fundo nunca existiu. Tudo o que não fizer parte dessa imagem será negado.

Porque precisa o nacionalismo de ser tão vociferante nos dias que correm? A resposta é que, na verdade, ele nunca foi intelectualmente tão frágil. As identidades são hoje mais diversas, a cultura mais ampla, o mundo mais pequeno. A agressividade do nacional-populista destina-se hoje a mascarar a sua insegurança.

Para responder, ele aumentará a dose: excitará a sua base dizendo-lhes que só eles representam a nação e que é justo e bom que prossigam apenas o seu interesse egoísta e os outros que se lixem. O problema: este raciocínio, se serve para a nação de uns, também serve para a nação de outros, e em última análise serve também para o tribalismo racial, religioso e de classe. Na sua necessidade de se apresentar como resposta à globalização, e no afã de mascarar que não tem afinal resposta nenhuma, o nacional-populismo vai dando ordem de soltura aos demónios.