O caso dos gémeos Kelly: o que acontece ao corpo humano depois de um ano no espaço?

Dois gémeos foram separados: um ficou na Terra, o outro foi para o espaço durante um ano. O estudo pretende analisar os efeitos das viagens espaciais no ser humano e pode ser importante para avaliar o impacto de uma viagem a Marte.

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O astronauta Scott Kelly MAXIM ZMEYEV/Reuters

O astronauta Scott Kelly passou um ano no espaço, enquanto o seu irmão gémeo, Mark, ficou na Terra como variável de controlo. Os primeiros resultados deste estudo – chamado Estudo sobre Gémeos da NASA – revelaram que o corpo do astronauta Scott Kelly mudou subtilmente mas de forma que pode ser significativa. Scott Kelly regressou do espaço em Março do ano passado, depois de um ano a viver no espaço sideral. A NASA divulgou agora as primeiras conclusões do estudo, que permite aos investigadores estudar o impacto biomédico e fisiológico nos seres humanos de estadias espaciais de longa duração.

Mark e Scott Kelly são dois indivíduos geneticamente idênticos que estiveram em dois ambientes distintos. Mark também é astronauta – participou em quatro missões tripuladas – mas, agora, está reformado. A sua permanência na Terra permitiu que fosse usado para controlo médico, o que poderia permitir evidenciar possíveis alterações genéticas no irmão astronauta, provocadas pela sua estadia espacial. Dez equipas de investigação recolheram amostras biológicas dos dois gémeos antes, durante e depois da missão espacial de Scott. A partir destas amostras, os cientistas podem investigar como é que o corpo humano é afectado depois de longos períodos de tempo no espaço. No site da NASA é referido que estes estudos são preliminares e “estão longe de estarem concluídos”, sublinhando-se a importância de mais investigação.

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Os gémeos idênticos Scott e Mark Kelly NASA

Uma equipa, liderada por Susan Bailey, descobriu que os telómeros – as extremidades dos cromossomas – das células imunitárias de Scott Kelly aumentaram de tamanho durante o ano que passou no espaço. Os telómeros ajudam a proteger os cromossomas, ficando mais curtos ao longo da vida. Ainda assim, a NASA esclarece que este crescimento “pode estar associado ao aumento do exercício físico e à redução de ingestão de calorias durante a missão”. Quando regressou à Terra, a 2 de Março de 2016, os telómeros de Scott Kelly voltaram a diminuir de tamanho.

Outra equipa de investigação, coordenada por Scott Smith, revelou que se registou uma redução da formação óssea durante a segunda metade da missão de Scott. Uma outra equipa, ligada ao desempenho cognitivo, descobriu uma “ligeira redução da velocidade e exactidão” em Scott Kelly depois da missão. “Mas, de forma geral, os dados não indicam mudanças significativas no desempenho cognitivo durante o voo devido ao aumento da duração da missão de seis para 12 meses”, lê-se no comunicado da NASA.

A sequenciação do genoma dos dois irmãos permitiu descobrir que cada gémeo tinha “centenas de mutações únicas no seu genoma”, variantes que são definidas pelos cientistas como sendo normais. A agência espacial NASA pretende publicar um estudo com as conclusões de todas as equipas de investigação ainda em 2017.

Scott Kelly viveu a bordo da Estação Espacial Internacional durante 340 dias e tornou-se no norte-americano que mais tempo passou em órbita; Mikhail Kornienko, o astronauta russo da agência espacial Roscosmos, partilhou a missão com Kelly e passou o mesmo tempo no espaço.

Craig Kundrot, o cientista responsável pelo Programa de Investigação Humana da NASA considerou, numa entrevista que deu em 2015, existir um dilema clássico na comunidade científica: perceber quanto da nossa saúde e comportamento é provocado pelos genes e que parte é afectada pelo meio ambiente. Se encontrassem diferenças em Scott que não encontravam em Mark, era provável que se tratasse de algo provocado pela estadia no espaço, podendo estar relacionado com factores como a radiação, a quase ausência de gravidade ou o isolamento.

Os resultados deste estudo podem ser, segundo a NASA, importantes para avaliar o impacto que teria uma viagem até Marte no ser humano, por exemplo. Segundo a agência espacial norte-americana, uma viagem para chegar até Marte pode durar até oito meses. Segundo dados disponíveis no site, está a desenvolver-se tecnologia que permita um dia uma missão a Marte. Apesar de não haver nenhuma data em concreto, é referido que a NASA pretende que essa missão se realize na década de 2030.