Sistema político mais “plástico” tem evitado populismos em Portugal, diz Marcelo

Presidente concordou com a ideia de que algumas forças políticas, como o Bloco de Esquerda ou o PCP, tiveram capacidade de “enquadramento institucional” de movimentos de protesto que originaram forças populistas noutros países.

daniel rocha
Foto
daniel rocha

Marcelo Rebelo de Sousa voltou a ser mais professor do que Presidente num debate, na quinta-feira, em Lisboa, deixou uma “palavra de optimismo”, explicando que Portugal tem evitado o populismo por o sistema político ser "mais plástico”.

Marcelo quis deixar uma palavra de “optimismo, embora não irritante” sobre o tema do debate – O Populismo tem ideologia? –, em Lisboa, numa parceria da Fundação Francisco Manuel dos Santos e da RTP.

Para o Presidente da República e ex-comentador político, “uma das diferenças” entre Portugal e outros países europeias em que o populismo tem crescido nos últimos anos é que o sistema político português “tem uma plasticidade, uma capacidade de adaptação dos partidos, da realidade política e de algumas instituições para se ajustar".

“Vemos à nossa volta crises em sistemas de partidos em vários países da Europa do Sul, do Centro e menos na Europa do Norte e aqui tem havido plasticidade e capacidade de rejuvenescimento”, afirmou no debate transmitido pela RTP3, em que também participaram a investigadora da Universidade de York Mónica Brito Vieira e o professor universitário João Pereira Coutinho.

Se se perder essa “plasticidade do sistema” e se houver “uma incapacidade de acompanhar os novos tempos”, alertou, então o populismo também chegará a Portugal.

“Embora espere que não chegue nunca, jamais”, concluiu Marcelo, num debate em que João Pereira Coutinho resumiu numa frase uma solução para travar este fenómeno que tem atravessado a Europa e também os Estados Unidos, com a eleição de Donal Trump para presidente: “A única forma de vencer os populismos é ganhar nas urnas”.

Para Marcelo Rebelo de Sousa, há hoje sinais preocupantes na Europa e no Mundo que podem explicar o avanço dos populismos, dado que há “camadas da população” que estão a deixar de ser “deixadas para trás” do processo de desenvolvimento.

Ao contrário do que aconteceu no final da década de [19]70, quando estudou o fenómeno do Partido do Progresso, na Dinamarca, cujo líder se apresentou na televisão a dizer que não iria pagar impostos, hoje não existe o choque petrolífero, mas “o desconforto com a realidade” é o mesmo.

“Olhando para a realidade de hoje – já não temos o choque petrolífero – mas temos mais do que isso. Muitos dizem que temos uma revolução em vários domínios, tecnológicos, económicos e sociais, que deixa para trás camadas da população”, afirmou.

Para o Presidente, e em resposta a uma jovem da plateia, os jovens têm um papel a desempenhar, dado que têm maior “capacidade de antecipar” estes problemas.

A investigadora Mónica Brito Vieira disse que uma explicação possível para os populismos não terem expressão em Portugal é o facto de algumas forças políticas, como o Bloco de Esquerda ou o PCP, terem tido a capacidade de “enquadramento institucional” de movimentos de protesto que originaram forças populistas noutros países.

A ponto de terem “entrado no arco da governação”, apoiando o Governo PS de António Costa.

Cuidadoso, como confessou, por ser Presidente e estar a falar de partidos, Marcelo concordou com Mónica Brito Vieira e com João Pereira Coutinho quando estes disseram que também, à direita, os partidos tiveram a flexibilidade e capacidade de “absorver” descontentamento.

O Presidente juntou mais um argumento e deu o exemplo da “almofada” para “impedir radicalismos”, durante os anos da troika, que foi o apoio aos mais necessidados das instituições de solidariedade social e da própria Igreja.

Este debate mensal do programa Fronteiras XXI continua no próximo mês com um novo tema e estarão na plateia vários cidadãos para fazer perguntas aos convidados, depois de inscreverem a pergunta no “site” da Fundação Francisco Manuel dos Santos.