A vida de viver e o viver sem vida

Não deve haver também direitos para quem deseja, em paz, pôr termo a uma vida que deixou de ter dignidade de vida vivida?

O meu maior momento de pura felicidade foi o nascimento da minha filha, ela a chegar à vida. Relembro essa alegria, porque os outros momentos que mais me marcaram foram feitos da mais profunda tristeza: a morte do meu pai, a morte de amigos que me eram esteio, alicerce. Essas mortes foram brutais, pelo absolutamente inesperado — mas qualquer morte é, em princípio, brutal: o avesso de aqui estarmos, em “terrena companhia”, como uma vez escreveu uma grande poeta.

Mas de entre esses outros momentos, houve um em que a tristeza se cruzou com um sentimento que não sei nomear; e hesito entre revolta e incompreensão. Foi quando vi e senti pela primeira vez o que significava uma palavra que eu conhecia só teoricamente — pelos livros, por títulos de quadros, pela sua indevida inclusão em expressões usadas no quotidiano. Essa palavra era agonia. Na sua etimologia (agon), agonia significa luta; definida no dicionário como o estado que precede a morte, agonia significa luta contra a morte. Mas a definição di-la também como podendo ser tranquila.

Porém, isto é no dicionário, que lhe prevê essa dimensão possível de tranquilidade. Até então, talvez por nunca o ter sentido a partir da minha própria vida, eu nunca pensara em algo óbvio: que “agonia” e “agoniado” são palavras tangentes. E que ambos os estados são, mesmo nas indizíveis distâncias que os separam, de aflição. O que de pacífico nada tem.

Vi essa incomensurável aflição, a agonia atormentada, numa noite de Abril de 1996, em alguém que era para mim como uma mãe e agora morria numa cama de hospital. Morria, desfazendo-se, porque nada mais havia a fazer: o cancro invadira tudo e o que restava ali era um corpo num estado para lá do sofrimento puro, cheio de morfina — mas semi-consciente.

Este era o corpo de alguém agoniado da vida, arrancando tubos, pedindo-me para partir. Suplicando-me que a deixassem partir. A mim, que a amava. As enfermeiras disseram-me: “Não passa desta noite.” O médico, a quem eu transmiti o pedido, fazendo minhas as palavras pedidas por quem morria à minha frente, respondeu-me: “Minha senhora, a nossa função é a de prolongar a vida.” É honrada essa frase, é bela e digna — e escrevo isto sem a mais pequena réstia de ironia. Mas esse estado chamado vida arrastar-se-ia por mais 12 horas. Não passou, pois, da manhã do dia seguinte o ser humano que eu amava e que me havia sempre amado. Mas as horas que demorou até morrer, até se desligar da vida biológica, foram carregadas de uma agonia sem sentido. Pois que sentido pode haver em prolongar em vácuo o sofrimento?

O que eu via ali era um rosto de olhos fechados cheios de uma aflição sem limites, um rosto amado e pertencente a um corpo que já não respondia a nada e que antes fora tão capaz. Ainda hoje não compreendo por que razão não foi possível tornar aquela morte mais honrada. E ainda hoje me revolto, porque se havia palavra para definir a vida biográfica, a vida de viver da pessoa que ali estava, essa palavra era dignidade. Uma dignidade que lhe fora negada.

A discussão em torno da eutanásia e da morte assistida não é uma discussão fácil. Porque o tema gira em torno das duas linhas que nos demarcam no tempo e que de mais crítico, mais delicado, mais vulnerável e poderoso temos e partilhamos: a vida e, a seu lado, a morte. É este, pois, um tema de uma imensa complexidade.

Não sou médica, não sou jurista, sou somente cidadã. Como cidadã, reconheço o cuidado e a sensibilidade que este assunto merece. Mas também como cidadã, recuso-me a juntar a minha voz à voz daqueles que liminarmente condenam o desejo de alguém querer morrer condignamente, quando o sofrimento é extremo e o fim irreversível, ou a sua escolha de não prolongar artificialmente a vida biológica. Tal como o direito a uma vida de paz e digna, vida de viver, deveria ser um direito a todos comum, não deve haver também direitos para quem deseja, em paz, pôr termo a uma vida que deixou de ter dignidade de vida vivida? Não serão esses direitos parte daquilo a que chamamos liberdade? Poeta, subscritora da petição pública “Direito a morrer com dignidade”