Opinião

Como perpetuar o recibo verde? A esquerda explica

José Soeiro pode passear-se pelo Parlamento sem fato nem gravata, mas escreve como um betinho da Foz.

O deputado José Soeiro escreveu há dias um texto no Expresso acusando-me de “intrujices descaradas” a propósito do meu artigo sobre o salário mínimo. O texto chama-se “Tavares e o patrão-padeiro”. O Tavares sou eu; o patrão-padeiro é o dono da Padaria Portuguesa, Nuno Carvalho. Antes de ir à substância da questão, permitam-me este ponto prévio: é extremamente curiosa – e muito sintomática – a forma como José Soeiro apelida Nuno Carvalho de “padeiro” e de “pasteleiro” ao longo do seu artigo. É o mesmo tique que leva a nossa esquerda a chamar com frequência “merceeiro” a Alexandre Soares dos Santos. Para quem é tão sensível ao uso da linguagem, isto só pode ser um lapso freudiano que esclarece a verdadeira natureza do Bloco e o seu real apreço pelos trabalhadores, utilizando invariavelmente o nome de profissões populares em sentido pejorativo, para gozar e desmerecer patrões. José Soeiro pode passear-se pelo Parlamento sem fato nem gravata, mas escreve como um betinho da Foz.

Esta diferença entre aquilo que se diz e aquilo que se faz, entre as políticas que se defendem à boca cheia e as suas reais consequências para a economia e para os mais desprotegidos, é o ponto central do meu texto. Soeiro escreve esta barbaridade: “João Miguel Tavares acha que pagar férias e segurança social é uma extravagância dispensável e uma maçada para as empresas.” E escreve-o não porque eu tenha dito alguma vez tal coisa, mas porque é preciso caricaturar a posição do adversário para não ter que defender com argumentos racionais as suas próprias posições. Até há pouco, ideias como a que está a ser implementada em Portugal, de subir o salário mínimo 25% em cinco anos, contra a opinião da quase totalidade dos economistas (“aumento do salário mínimo sem aumento da produtividade causa desemprego” deve ser uma das poucas máximas mais ou menos unânimes entre especialistas), depois de uma intervenção da troika, com o país no fio da navalha, e o desemprego jovem acima dos 26%, essas ideias, dizia eu, eram até há pouco exclusivas de uma extrema esquerda lunática que sabia protestar mas não queria governar. Agora que deixou de ser assim, importa sublinhar que este aumento tem duas consequências: dificulta a vida às empresas e, em nome da protecção dos trabalhadores no quadro, aumenta de forma dramática o fosso para os trabalhadores precários.

Quem está a recibo verde só ganha quando trabalha, não tem subsídio de férias nem de Natal, não tem subsídio de refeição, é taxado em 29,6% para a Segurança Social (contra 11% de um trabalhador no quadro) e se tiver um rendimento acima dos 10.000€ anuais ainda tem de reter 25% do IRS à cabeça. Acresce um pequeno detalhe: pode ser despedido a qualquer momento. Isto significa que quem ganha 1000 euros mensais a recibo verde está, sem qualquer protecção, a receber menos do que o salário mínimo. São estes – ainda mais do que os desempregados – os verdadeiros espoliados da economia portuguesa. Eugénio Rosa, para citar alguém que Soeiro é capaz de apreciar, fez simulações que indicavam que um trabalhador a recibo verde que ganhasse 1000 euros mensais tinha quase 44% do seu rendimento cortado. Isto é uma vergonha. Sim, eu sei que o Bloco diz que quer combater a precariedade. Mas só em teoria. Na prática, Soeiro e sus compañeros limitam-se a alimentar a escandalosa, e aparentemente eterna, dualidade do mercado laboral português: quem está no quadro tem tudo; quem está fora não tem nada.