Monstros marinhos invadem Matosinhos para alertarem para a contaminação dos oceanos

A exposição Mar de Plástico tem como finalidade consciencializar a população para a contaminação das águas do mar com plástico. Estima-se que, por ano, são despejados cerca de 8 milhões de toneladas de plástico nos oceanos. Parte desse plástico pode chegar às mesas de nossas casas.

A pairar sobre o espelho de água junto ao Centro de Monitorização e Interpretação Ambiental (CMIA) de Matosinhos há uma medusa gigante. Mais ao lado, na água, está uma tartaruga enrolada em redes de pesca e outro tipo de lixo marinho. Muito perto está também um cardume de peixes. São os “monstros marinhos”, como lhe chama o coordenador do gabinete de comunicação do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR), José Teixeira, também coordenador da campanha Ocean Action, projecto que deu origem à exposição Mar de Plástico e foi premiado, na última semana, na categoria Iniciativa de Mobilização dos Green Project Awards.

Por ano são despejados no mar 8 milhões de toneladas de plástico. Cerca de 70 por cento afunda, o que torna impossível a sua remoção. A flutuar há actualmente 270 mil toneladas do mesmo material. Desde 1950 estima-se que mais de 150 milhões de toneladas de lixo plástico tenham entrado nos oceanos, que representam 71% da superfície da Terra e 97% dos recursos hídricos do planeta. Estes dados são uma chamada de atenção preconizada pela exposição organizada pelo CIIMAR, patente no CMIA até 28 de Abril, que pretende alertar para a problemática da contaminação dos oceanos com materiais de plástico.

As esculturas, de grande dimensão, que estão no exterior do centro são  feitas com lixo plástico descartado. Realizadas por alunos da Escola Superior Artística do Porto (ESAP), que se associou ao projecto, são o “isco” para captar a atenção de quem passa, de forma a que a curiosidade os chame para o interior da exposição, como explica o coordenador. “Este é um problema sério, de grande dimensão e com consequências graves”, afirma. Por ser “desconhecido pela sociedade em geral” entende ser necessário encontrar formas apelativas para que um público mais alargado possa conhecer “uma realidade que afecta não só as espécies marinhas, mas toda a biodiversidade e com consequências para o ser humano”. 

Há um ciclo de contaminação que começa precisamente no ser humano e acaba no mesmo ponto onde começou. Toda o lixo que existe nos mares resulta da má gestão de resíduos sólidos associado a actividades humanas, sendo que 80 % deriva de actividades realizadas em terra, que é transportado pelos rios, esgotos ou pelo ar. Os outros 20% são atirados para o mar directamente a partir de embarcações. De acordo com a informação disponível na exposição, o plástico representa a maior fracção de todo esse lixo marinho: entre 70 a 95%. Segundo José Teixeira é a fracção mais preocupante. 

Grande parte deste plástico vai parar ao fundo do mar. O restante permanece a flutuar ou é arrastado para as praias. Na exposição há um supermercado de plástico que simula um real. Há escovas de dentes, bolas ou molas de roupa. Os produtos expostos (lixo) nas prateleiras foram recolhidos na praia. Estão embalados por categoria e etiquetados. Em cada etiqueta é possível ver o número de anos que demoram a desintegrar-se.

Alguns materiais em plástico podem demorar 600 anos até se degradarem na totalidade. No entanto, através da acção directa do sol e da movimentação das ondas divide-se em partículas menores, designadas por microplástico, que tem uma dimensão inferior a 5 milímetros. É aí que se torna ainda mais perigoso. O microplástico pode acumular até 1 milhão de vezes mais contaminantes do que a água. Devido à sua dimensão reduzida é muitas vezes ingerido pelo zooplâncton, moluscos ou espécies de pequenos peixes, que por sua vez são alimento para espécies maiores, aumentando a probabilidade de chegarem à mesa das casas dos consumidores de peixe. De resto, de acordo com dados da exposição, o oceano produz mais de 90 milhões de toneladas de produtos alimentares, sendo que Portugal é o país da União Europeia que mais os consume.

Das consequências que a ingestão de alimentos marinhos contaminados pode ter para a saúde humana são enumeradas na exposição doenças cardiovasculares, oncológicas, complicações renais e de fígado, infertilidade ou mesmo fadiga e depressão. É também referido que, por ano, morrem 100 mil tartarugas e aves marinhas que ingerem microplástico, confundindo-o com zooplâncton. De acordo com a informação de um estudo exposto num dos painéis da exposição, 92,5% das aves mortas tinham ingerido uma quantidade de plástico igual ou superior a 5% do seu peso corporal. 

Campanha em fim de financiamento

À luz desta realidade surge a exposição Mar de Plástico. José Teixeira, quando a idealizou, no âmbito da campanha Ocean Action, pretendia, acima de tudo, tornar esta realidade mais visível, mas também trabalhar possíveis soluções. Trabalho que já tinha sido iniciado há dois anos, quando a campanha arrancou.

A campanha financiada pela EEA Grants, agora em fim de financiamento e à procura de novos fundos para que se mantenha activa, surge na lógica de sensibilizar e informar o cidadão comum sobre o problema do lixo plástico. Para isso, desde o arranque foram estabelecidas parcerias com 6 escolas do Grande Porto, no sentido de chegar a um público ainda em idade de formação que mais facilmente se adapta a novos hábitos, como explica o responsável.  Para isso, foi criado um programa articulado com o plano curricular dos alunos que passa por uma componente mais teórica, com a realização de palestras, mas também com uma componente mais prática, com algumas actividades de laboratório, onde se procede à observação com recurso ao microscópio, de partículas de microplástico. Estas actividades são complementadas com algumas saídas de campo, com idas à praia para a recolha e limpeza do lixo marinho.

José Teixeira diz ser fundamental assumir que os alunos não são apenas espectadores e receptores de informação. Para que percebam a dimensão do problema, de forma a ganharem outra consciência, diz ser “essencial envolverem-se” para que “concluam que eles próprios podem fazer a diferença, nomeadamente, com a criação de novos hábitos”, sublinha.

Sem conseguir de forma exacta apresentar os resultados desta acção, acredita ter sido bem sucedida. Forma de o detectar é a mudança de consciência e de atitude a que diz ter assistido, por parte de alguns elementos, no final das actividades.  É por isso, que tem como objectivo dar continuidade a este projecto que começou, numa fase inicial, a trabalhar com escolas da área do Porto, mas que pretende ver chegar a outros estabelecimentos de ensino de todo o território nacional.

Esse objectivo prende-se com a vontade de alertar o maior número de pessoas para a questão da contaminação do oceano com plástico, com a finalidade de serem criados novos hábitos. José Teixeira diz não haver muito que se possa fazer relativamente à remoção do plástico dos oceanos, tendo em conta que a maior parte está no fundo do mar, onde “é quase impossível chegar”. Nesse sentido, a solução “passa pela prevenção”. Prevenção que diz ser possível “com a alteração de hábitos tão simples como a diminuição do uso do plástico ou colocando o lixo de plástico nos sítios próprios”.