Actores distinguem a diversidade nos prémios SAG e exigem-na a Trump na vida real

Cerimónia de prémios foi novo palco de discursos inflamados sobre a inclusão e a não-discriminação. Elencos de Elementos Secretos e Stranger Things juntam a vitória ao protesto.

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Janelle Monae e Taraji P. Henson Mike Blake/Reuters

A temporada de prémios está a pleno vapor e os sinais que emite para a noite dos Óscares estão a diversificar-se: não só La La Land – A melodia do amor continua a somar distinções como outros concorrentes, casos do elenco de Elementos Secretos e de Denzel Washington, tiveram destaque nos prémios do Screen Actors Guild. A diversidade esteve na cerimónia também no campo da realpolitik – do lado de fora da festa protestava-se nos aeroportos contra a restrição de entrada de muçulmanos nos EUA e os actores juntaram-se ao coro de indignados.

Os prémios do Screen Actors Guild, o sindicato que representa os actores que trabalham nos Estados Unidos, serviram para Hollywood mostrar mais uma vez que não apoia Donald Trump. Começou logo à porta, com Simon Helberg (A Teoria do Big Bang) e a mulher Jocelyn Towne a aproveitarem a passadeira vermelha para passar mensagens claras – “Refugees welcome”, escreveu o Howard Holowitz da série num pequeno cartaz, com a mulher a envergar directamente no peito as palavras “Let them in”. “Refugiados bem-vindos” e “deixem-nos entrar”. Ashton Kutcher falou no início da cerimónia e lembrou "todos os que estão nos aeroportos que pertencem à minha América. Vocês são parte da textura de quem somos. E amamo-vos e damo-vos as boas vindas".

Estes prémios, estes filmes e estes rostos de várias cores em palco foram “um passo em direcção à normalização da inclusão”, postula o IndieWire, depois de já em 2016 os SAG terem sido um palco particularmente diversificado em termos raciais em plena controvérsia #OscarsSoWhite. Este ano, apesar disso, foi outra a hashtag a pairar sobre toda a noite - #MuslimBan, um tema que também está pelas redes sociais em comentários a uma das primeiras medidas da administração Trump. #MuslimBan foi usada durante todo o dia dos prémios SAG por muitos manifestantes nos principais aeroportos dos EUA a demonstrar a sua solidariedade para com os homens, mulheres e crianças retidos nos aeroportos devido à suspensão de vistos, ou por políticos como o britânico Jeremy Corbyn criticando a medida. 

Depois disso, vieram os anúncios dos distinguidos, entrecortados por muitos discursos inflamados e/ou inspirados contra a exclusão. No cinema alguns dos principais galardões foram para Elementos Secretos (estreia-se esta quinta-feira em Portugal) – os prémios do Screen Actors Guild são particularmente relevantes para a temporada de prémios anual de cinema por serem o maior grupo de votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, que entrega os Óscares que monetizam carreiras e insuflam as receitas de bilheteira. O prémio de melhor elenco foi para o filme que revela a história das matemáticas afro-americanas que trabalharam para o programa espacial americano nos anos 1960.

Delas, só Octavia Spencer está nomeada para um Óscar, o de Melhor Actriz Secundária, ficando de fora Taraji P. Henson, Kirsten Dunst ou a cantora Janelle Monae. Henson agradeceu o prémio lembrando que “este filme é sobre união. Quando nos juntamos enquanto raça, humana, vencemos… o amor vence sempre”. Mas coube a outro dos seus co-protagonistas, Mahershala Ali, um dos discursos mais pessoais e emotivos do evento. Venceu o prémio para o qual se está a perfilar como favorito - Melhor Actor Secundário em Moonlight (estreia-se em Portugal a 9 de Fevereiro). “A minha mãe é pastora religiosa. Eu sou muçulmano. Há 17 anos, ela não deu pulos de felicidade quando lhe telefonei para lhe dizer que me tinha convertido. Mas agora digo-vos, pondo tudo o resto de lado, eu consigo vê-la e ela consegue ver-me. Amamo-nos. O amor cresceu”, partilhou Ali sobre a sua experiência pessoal, religiosa e familiar. Sobre o seu filme, sobre o crescimento de um jovem afro-americano mesclado com a sua sexualidade, lembrou como ele mostra em parte “o que acontece quando perseguimos pessoas”.

Emma Stone foi escolhida como Melhor Actriz pelos seus pares pelo seu papel em La La Land – A melodia do amor (o filme, por se centrar sobretudo num casal, não concorria ao prémio para elenco). Nem o seu co-protagonista Ryan Gosling nem o favorito Casey Affleck (Manchester by the sea) foram os eleitos para o prémio de Melhor Actor - Denzel Washington foi o distinguido da noite com o seu primeiro prémio da guilda por Fences, filme de que também é realizador nesta temporada. Washington está nomeado também para Melhor Actor nos Óscares e o seu filme é um dos nove na corrida para melhor do ano. Uma das pouquíssimas vozes a não aludir ao tema da actualidade do fim-de-semana, Viola Davis somou outra vitória para Fences, com o prémio de Melhor Actriz Secundária.

O mundo das artes também se debate com os efeitos da suspensão da entrada de cidadãos de países como o Irão, que tem O Vendedor nomeado para Melhor Filme Estrangeiro e que não contará com a sua actriz, por boicote da mesma, nem com o seu realizador, Asghar Farhadi, que também não quer estar no evento, para tristeza da Academia.

Na televisão, a noite foi particularmente favorável para o Netflix, que venceu com a série dramática com melhor elenco, o fenómeno Stranger Things, e com os melhores actores numa série dramática Claire Foy e John Lithgow por The Crown. Outro momento forte foi aquele em que o grupo de actores de Stranger Things  agradeceu o seu prémio. David Harbour, um eterno secundário que tomou o microfone ladeado por Matthew Modine e uma muito expressiva Winona Ryder (a Internet já se encarregou de cristalizar as suas reacções), resumiu de forma emotiva parte do sentimento da noite – os actores congratulam-se por viverem no seu ecossistema e por se expressarem contra aqueles que vão contra os “seus” valores.

“Abrigamos os esquisitos e os proscritos, aqueles que não têm lar. Iremos ultrapassar as mentiras. Vamos caçar monstros. E quando estamos em perda no meio da hipocrisia e da violência casual de certos indivíduos e certas instituições, vamos, como o xerife Jim Hopper [a sua personagem na série], esmurrar a cara de algumas pessoas quando tentarem destruir o que imaginámos para nós próprios e para os marginalizados”. 

Orange is the new black, também do serviço de streaming, arrematou o prémio de melhor elenco de comédia, Julia Louis-Dreyfuss e Sarah Paulson foram as vencedoras expectáveis na comédia e numa minisérie com Veep e O Caso de O.J., respectivamente, e Bryan Cranston foi o distinguido por interpretar o ex-Presidente Lyndon B. Johnson no telefilme All the Way, com William H. Macy a receber o reconhecimento da guilda pela sua comédia em Shameless – No limite.

Julia Louis-Dreyfus fora a primeira a subir ao palco para receber um prémio – ela é uma ex-Presidente incompetentemente ardilosa na ficção e puxou dos seus galões para decretar que “esta proibição [à entrada] dos imigrantes é uma mancha e é não-americana” –“o meu pai fugiu à perseguição religiosa na França ocupada pelos nazis. Sou uma patriota americana”. O outro Presidente ficcional da noite, Bryan Cranston, disse já nos bastidores, citado pelo Los Angeles Times, que é uma questão de “cidadania” falar sobre algo “que surge de uma forma que nos parece opressão”. Solene, elogiou que uma noite em que um “colectivo” falou sobre um tema premente é algo “vivo”. 

Sarah Paulson resumiu o espírito da cerimónia de forma directa. Pediu directamente por donativos para a ONG norte-americana American Civil Liberties Union (ACLU), que diz ter recebido 24 milhões de dólares no passado fim-de-semana na sequência da aplicação da proibição à imigração de muçulmanos. Justificou: “Nesta altura, o silêncio não é de ouro”.