A “geringonça” converge ou diverge?

O sucesso da “geringonça” não reside apenas na duração da legislatura, mas também, e sobretudo, na reforma e consolidação das áreas críticas que ameaçam o Estado social tal como o entendemos. Convém não esquecer.

A “gerigonça” precisa de “mais consistência” para evitar a trapalhada estapafúrdia (ou simulada) que envolveu a discussão em sede de concertação social da subida do salário mínimo e da descida da TSU. As declarações de Manuel Alegre no PÚBLICO deste domingo, ao sugerir que o partido do Governo e os seus aliados parlamentares necessitam de uma maior convergência, têm tudo para ser consensuais entre o bloco governativo. Até Passos Coelho, consolidado como líder da oposição no Parlamento e no próprio partido, após o chumbo da TSU, concordará com o ex-deputado socialista. Porém, a caixa de Pandora da concertação social continua por fechar e certamente que a palavra “convergência” não fará parte dos próximos episódios.

A UGT, desencantada com estes desenvolvimentos, não estará disponível para assinar uma adenda ao acordo caso a CGTP participe no debate sobre a redução do pagamento especial por conta (PEC). E o decreto-lei que transferiu a gestão da Carris para a Câmara de Lisboa arrisca-se a ser a nova TSU. O PCP entregou, na Assembleia, na última sexta-feira, um pedido de apreciação parlamentar, por discordar da “municipalização” do serviço público de transporte em Lisboa e o mais previsível é que a maioria que rejeitou a TSU se reúna para derrotar o Governo.

Mas nas declarações de Manuel Alegre há ainda um segundo recado ao Governo e aos seus aliados: é necessário transitar da fase de reposição de rendimentos, que marcou o início da legislatura, e de cumprimento do acordo entre os respectivos partidos, para uma nova etapa. Qual? Discutir as linhas mestras de temas que são bandeiras à esquerda e que são cruciais num Estado social: Educação, Saúde e Segurança Social. A “geringonça” tem algo a aprender com a esquerda plural à Jospin, na origem do Movimento de Intervenção e Cidadania (MIC) que apoiou Alegre na candidatura a Belém. O MIC está de regresso, sob a forma de associação, e disposto a ser o terapeuta familiar desta solução governativa.

Governar ou influenciar a governação é a arte de saber criar e gerir consensos, e de evitar que as segundas intenções dos partidos, as tácticas de sempre, sejam, afinal, as primeiras. O sucesso da “geringonça” não reside apenas na duração da legislatura, mas também, e sobretudo, na reforma e consolidação das áreas críticas que ameaçam o Estado social tal como o entendemos. Convém não esquecer. Veremos se isso convergirá ou divergirá a esquerda.

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