Análise

O tempo dos radicais

O centro-esquerda europeu sabe que só se poderá salvar no quadro europeu e não no quadro nacional. No médio prazo, ceder ao populismo e ao nacionalismo será a sua verdadeira condenação à morte.

1. Muito provavelmente a segunda volta das “primárias” socialistas em França confirmará a regra que hoje aflige as democracias ocidentais, segundo a qual o tempo está a favor dos outsiders e dos radicais. As circunstâncias variam de país para país e há, naturalmente, excepções, mas a França não será uma delas. O facto de Marine Le Pen se manter no topo das sondagens para as presidenciais de Abril confirma a regra. No centro-direita, a escolha de François Fillon conseguiu baralhar todas as sondagens. Não é que Fillon seja propriamente um outsider (foi um discreto primeiro-ministro de Sarkozy), mas o seu programa político acentuava algumas características muito pouco comuns: a referência ao neoliberalismo conservador de Thatcher e o apelo aos valores católicos da França profunda. Agora, Manuel Valls, ex-primeiro-ministro de François Hollande e o mais social-liberal dos sete candidatos às “primárias”, arrisca-se a ser derrotado por Benoît Hamon, da ala mais à esquerda, voltando a baralhar as contas das presidenciais.

O PS francês, com os seus velhos “elefantes” e os seus jovens turcos é uma boa imagem das dificuldades que o centro-esquerda atravessa hoje na Europa: dividido, desorientado, tentado pelo populismo. Hamon tem um programa que praticamente nenhum dos seus congéneres europeus se atreveria a apresentar (ver artigo neste destaque). Ninguém acredita que possa chegar à segunda volta das presidenciais. A sua escolha abre espaço a Emmanuel Macron, antigo ministro da Economia de Valls, que diz não ser de direita nem de esquerda, mas que vê a sorte persegui-lo: além de Hamon, o escândalo que está a envolver Fillon, o “candidato da honestidade”, abre-lhe ainda mais espaço (ver artigo neste destaque).

2. O centro-esquerda na Europa teve um enorme sucesso no tempo da “terceira via”, que soube ajustar-se bem à primeira fase da globalização, quando se pensava ainda que ela seria benéfica para o Ocidente. Pereceu quando a Grande Recessão trouxe à luz do dia as consequências negativas da globalização, aumentando a desigualdade e a exclusão e beneficiando as grandes economias em desenvolvimento, a começar pela China. O Labour britânico foi o precursor da viragem à esquerda, primeiro Ed Miliband; depois com Jeremy Corbyn, ainda mais à esquerda, que até à data ainda não conseguiu nem pacificar nem unificar o partido. Na Alemanha, o SPD passou os últimos anos a “resmungar” contra Gerhard Schroeder, que governou de 1998 a 2005, liderando uma coligação “vermelha-verde” tão reformista que Angela Merkel teve de fazer muito pouco para trazer de novo a economia alemã para níveis de competitividade que hoje lhe dão a sua força. Agora, Sigmar Gabriel, vice-chanceler da “grande coligação” liderada por Merkel, resolveu oferecer civilizadamente o lugar de candidato a chanceler a Martin Schulz, o anterior Presidente do Parlamento Europeu, que chega de Bruxelas ainda suficientemente “fresco” para se distanciar da cena política interna. Gabriel foi demasiado errático para reconquistar os eleitores do mais velho partido alemão, que iniciou o seu declínio desde o fim da Guerra Fria e da unificação da Alemanha, e que (apesar de Schroeder, que não pertencia ao mainstream do SPD) nunca mais conseguiu recuperar. Poderia tirar partido do desgaste inevitável da chanceler, que se candidata ao seu quarto mandato. O problema é que Gabriel não conseguiu fazer a diferença dentro do Governo. Percebe-se porquê. Merkel colocou o seu partido ao centro, eliminando os aspectos mais conservadores da CDU, abrindo as portas aos refugiados e, acima de tudo, liderando uma política europeia na qual os alemães se revêem: impor a austeridade aos mal comportados do euro, obrigando-os a levar a cabo as reformas necessárias para tornarem a sua economia mais competitiva (ou seja, mais alemã), mas deixando um lastro de sofrimento, de impotência e de desunião que ainda hoje tem os seus custos. Gabriel não se quis demarcar desta política porque ela era popular. Schulz fará diferente? Sabe-se o que ele defendia no Parlamento Europeu, por exemplo, mais solidariedade para com os países do Sul que não conseguem sair da armadilha da dívida. Chega a Berlim convicto de que é preciso salvar a Europa de si mesma (dos seus demónios, como refere, contra o populismo e o nacionalismo), mas sem uma posição clara sobre o que é preciso mudar para que as economias mais frágeis do Sul consigam crescer o suficiente para equilibrar as suas contas. Será difícil bater a chanceler, apesar de ser quase tão popular como ela. Poderia apostar numa coligação à esquerda “vermelha-vermelha-verde” (SPD, Die Linke e Verdes), mas a radicalização dos antigos comunistas e a moderação dos Verdes, que encaram como possível uma coligação com a CDU, o caminho não é fácil. De resto, a social-democracia não está de boa saúde. Matteo Renzi, um reformista, caiu, embora tencione voltar logo que haja eleições. Na Espanha, os socialistas ainda não sabem para onde vão, depois das sucessivas derrotas eleitorais e da emergência do Podemos. Como referia ontem o Monde, apenas em Portugal o PS parece estar de saúde razoável à frente de uma esquerda “plural”.

3. Michael Broening, da Fundação Ebert (SPD), escrevia na Foreign Affairs que o centro-esquerda europeu tem de encontrar alguma coisa de novo, se não quiser desaparecer. Faz as contas. Entre as razões do declínio, sublinha a verdadeira sangria de votos para os partidos populistas, sobretudo nos meios operários, vítimas da desindustrialização, e nos muitos empregos precários que aumentam em quase todas as sociedades europeias. “Perante esta ameaça de morte, estão agora a virar à esquerda nas questões socioeconómicas”. Dá o exemplo da Áustria, onde o primeiro-ministro social-democrata Christian Kern promete um New Deal, inspirado, diz o próprio, em Bernie Sanders: aumento do investimento público e do salário mínimo, fim dos impostos destinados a beneficiar os bancos e os super-ricos. O problema é que falta um capítulo a esta história, bastante menos agradável. Kern defendeu recentemente que os cidadãos europeus devem ser impedidos de ocupar empregos, sempre que haja austríacos nas mesmas condições. Visa em primeiro lugar os países de Leste, acusando-os de “exportarem os seus desempregados” para a Áustria. Já anunciou que vai reduzir de 35 mil para 17 mil o número máximo de concessão de asilo aos refugiados. Tenta conter a extrema-direita com a sua própria receita.

Qual é a saída? No fundo, o centro-esquerda europeu sabe que só se poderá salvar no quadro europeu e não no quadro nacional, ao qual se rende cada vez mais na vã tentativa de não perder eleições. No médio prazo, ceder ao populismo e ao nacionalismo será a sua verdadeira condenação à morte.