Torne-se perito

Não há memórias felizes na relação do Togo com a CAN

Ataque a tiro de que togoleses foram alvo, em 2010, deixou marcas profundas. Selecção voltou a não passar a fase de grupos

Kodjovi Obilalé esteve vários meses hospitalizado na África do Sul após o ataque
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Kodjovi Obilalé esteve vários meses hospitalizado na África do Sul após o ataque Reuters/SIPHIWE SIBEKO

A Taça das Nações Africanas (CAN) não é pródiga em memórias felizes para o Togo. Na edição que está a decorrer no Gabão, os togoleses somaram apenas um ponto e foram afastados logo na fase de grupos, tal como tinha acontecido em seis das sete participações anteriores. A única vez em que os “gaviões” superaram essa fase foi em 2013, mas a equipa cairia logo a seguir, nos quartos-de-final, perante o Burkina Faso.

Nem a experiência de Claude Le Roy ajudou o Togo a, pelo menos, repetir esse feito. O “feiticeiro branco”, como é conhecido o treinador de 68 anos que disputou no Gabão a fase final do torneio africano pela nona vez ao leme da sexta selecção distinta, lamentou após a eliminação as várias lesões que afectaram a equipa: “Não podemos chegar longe numa competição quando somos obrigados a utilizar três guarda-redes em três jogos.”

Mas a pior de todas as memórias que o Togo guarda da CAN remonta a 2010. Dias antes do início da competição que decorreu em Angola, a selecção togolesa foi alvo de um ataque: o autocarro no qual viajava foi alvejado por um grupo armado, no enclave de Cabinda. Um adjunto, o assessor de imprensa e o motorista tiveram morte imediata e vários elementos ficaram feridos, incluindo dois futebolistas. Serge Akakpo recuperou e pôde prosseguir com a carreira – representa actualmente o Trabzonspor e esteve na CAN 2017. O desfecho da história do outro baleado foi muito diferente.

Kodjovi Obilalé alinhava na altura no modesto Pontivy e a sua carreira acabou nesse dia 8 de Janeiro de 2010. Foi atingido por duas balas nas costas, uma das quais se fragmentou e lhe feriu o estômago. O guarda-redes, então com 25 anos, foi transportado para a África do Sul, onde ficou hospitalizado durante três meses. “No dia em que fui atingido soube imediatamente que tinha morrido para o futebol. Não tinha qualquer sensibilidade na perna direita. Quando acordei do coma chorei durante uma hora”, recordou Obilalé à revista francesa So Foot.

Foi o adeus às balizas e o início de um difícil processo de recuperação. “Durante meses, após o atentado, tive a sensação de ser um morto-vivo. Como se estivesse na berma da estrada e a humanidade inteira seguisse o seu caminho. A Federação togolesa esqueceu-me depressa demais”, escreveu Obilalé na autobiografia que lançou em 2015. A ajuda que teve serviu para pagar as despesas hospitalares. O ex-guarda-redes (que esteve na selecção togolesa que disputou o Mundial 2006) recuperou alguma mobilidade e hoje movimenta-se com o auxílio de muletas. Formou-se em educação especial e trabalha com jovens em risco numa associação em Lorient: “Aquilo que vivi dá-lhes coragem. E eles transmitem-me força, dão-me uma razão para me levantar de manhã.”

Planisférico é uma rubrica semanal sobre histórias de futebol e campeonatos periféricos

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