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Aborto e educação: dogma e engenharia social

Para os conservadores a temática "aborto" não deve ser banalizada, com o risco de passar a constituir prática corrente. E já aqui nos remetemos a um tabu, a um dogma, e a uma contradição

É, no mínimo, impressionante a forma como a possibilidade de se referir a temática do aborto no 2.º ciclo de escolaridade pode causar tamanha celeuma, ainda mais no cerne de um contexto social onde o aborto é tema corrente. A apreensão em causa advém sobretudo dos conservadores, para os quais a temática "aborto" não deve ser "normalizada", banalizada, com o risco de passar a constituir prática corrente. E já aqui nos remetemos a um tabu, a um dogma, e a uma contradição.

O tema do aborto, tal-qualmente a temática da "morte assistida", obriga-nos a distinguir pelo menos dois formatos de ética: a ética da vida vs. ética do "sofrer". Como sabemos, a primeira tem prevalecido nas sociedades, especialmente onde a cristandade possui maior pendor, e é ela que consigna o fulcro, o palco, cognitivo dos conservadores. Os "idealistas", os dogmáticos, são, assim, fiéis ao princípio da vida, e à sua necessária repercussão deôntica; para estes, é geralmente menos importante medir o peso dessa vida num "quantum" de sofrimento, o "princípio" vale "per si", em cada indivíduo, considerado na sua irredutível singularidade. Para os conservadores, a mera menção do tema do aborto (neste caso, nas escolas) pode ser encarada enquanto doutrinação, incentivo, e daqui sucede o fantasma da engenharia social (que curiosamente, constitui dominantemente o desiderato dos... idealistas).

Como se todo o processo educativo não compusesse, ele mesmo, um esforço de doutrinação, subjacente, para mais, a um critério darwinista e competitivo!... Toda a educação é condicionamento, por maior que seja o esforço de reverberação racional e humanista. Para mais, as crianças já levam consigo para as escolas certos códigos, referências familiares, e, de igual modo, uma projecção íntima relativamente ao "aborto". A escola poderá, no máximo, vir acrescer um contributo a uma sociedade, e família, necessariamente condicionadora. Obviamente, o modo como esse contributo é dado pode ser determinante, mas por maior que seja a isenção de quem "ensina", o tema acabará sempre por produzir um eco distinto em dissemelhantes idiossincrasias.

Numa sociedade, como a nossa, em que a vida é ordinariamente arrostada como dado adquirido, é provável que a variável "sofrimento" possua grande repercussão. Não podemos limitar-nos a negligenciar este factor. Devemos antecipá-lo ("eticamente") tanto no respeitante ao ser individual como a uma totalidade. A vida é muitas vezes sobrestimada relativamente ao "sofrer". O aborto pode representar um mecanismo de prevenção do "sofrer". E parece-me que a base de sustentação do aborto deve atender mais a esta forma "alternativa" de ética/moral do que ao simples princípio libertário do "faço o quiser com o meu ventre". Modos divergentes de moral podem e devem "confundir" as consciências já previamente aculturadas. A hesitação, a dúvida, é o veículo do pensamento. Como da mudança, e, portanto, da engenharia da transformação. Retenhamos, igualmente, essa consciência.

Este exercício de "liberdade" é possível graças à educação "libertária" e "qualificada" que nos foi dada. A mesma educação que pressupomos no direito de "abortarmos". A mesma educação que podíamos não ter recebido, caso tivéssemos "outros" irmãos entretanto malogrados. A mesma educação que me leva a ter determinada projecção da realidade. Os conservadores provêm geralmente de famílias onde existiam condições para criar diversos filhos com igual, basta, qualidade educativa. Portanto, a ideia de "abortar" é, mais uma vez, abortada logo pela raiz. E, no entanto, não é comum ver os conservadores aceitarem juntar-se aos "fracos" da sociedade, que podiam nem sequer existir se tivessem sido abortados, mas que até podem predominar, pois, caso tal não suceda, os primeiros não podem estacionar no topo da escala social. No seu cume, se mantêm os dogmáticos ditando a velha ordem social, apregoando o mal da "engenharia social" representada pelo aborto.

O aborto é "equalizador", revolucionário, não se quer uma utopia de "igualdade", mas uma onde todos permaneçam satisfeitos nas suas respectivas classes/castas sociais. O admirável mundo novo requer uma escola afecta ao valor da vida, uma constância na antiga doutrina, o repúdio da nova heresia. A escola não é para pensar, é para formar cidadãos produtivos. O pensamento magoa, o sofrimento que ele implica, este sim, é abortado logo à partida, ficando a restar a velha equação do "vive" ou "morre"; se todos forem felizes, o sofrimento é despedido da incógnita da vida, o pouco que restar junta-se à "ética da vida" para ser suprido pelo exercício de um dogma, de uma religião ou ideologia. Mas eis que, entre os cultos que figuram no topo da pirâmide social, o excesso de tempo, à mistura com alguma solidão, fornece a condição da perturbação do pensamento, alguns deles poderão vir a sofrer de um modo que supera as possibilidades de resolução do padre ou do médico, derivando, assim, algumas ideias pró-aborto vertidas pelo desejo de morte; se daqui resultar uma revolução no modo de pensar, quiçá os dogmáticos, os novos oprimidos, cheguem a desejar que os revolucionários nunca tivessem nascido. 

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