Ganhar depois dos 30 é cada vez menos fruto do acaso

Rafael Nadal, Roger Federer, Serena e Venus Williams confirmam que o ténis não é só para novos.

Nadal e Federer voltam aos grandes palcos
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Nadal e Federer voltam aos grandes palcos Reuters

É preciso recuar a 2008 e a Wimbledon para se recordar um fim-de-semana como este: Rafael Nadal, Roger Federer e as irmãs Williams vão discutir as finais de singulares de um torneio do Grand Slam. Segundo as casas de apostas, as probabilidades de os quatro chegarem ao derradeiro encontro eram de 1 para 5000. Mais de 18 anos depois, os campeões mais antigos acabaram por impor-se, física e mentalmente, e protagonizar um Open da Austrália revivalista, mas bem realista.

O envelhecimento dos quadros já era notório desde o início da década. Neste Open, dos 128 jogadores que formaram o quadro masculino, 46 já tinham 30 anos; no torneio feminino, havia 18 “trintonas” à partida. A crescente competitividade dos circuitos tem tido paralelo nas dificuldades dos teenagers em singrar nos circuitos. Longe vão os tempos dos jovens prodígio: Boris Becker ganhou em Wimbledon com 17 anos (1985), Stefan Edberg triunfou no Open da Austrália (1985) e Pete Sampras venceu o Open dos EUA (1990), ambos com 19 anos. Em termos de longevidade, a excepção foi Sampras, que ainda regressou, aos 31 anos, para conquistar o 14.º título do Grand Slam, no Open dos EUA, dois anos depois do último Wimbledon.

Mas o início desde século assistiu a uma grande evolução na preparação física dos tenistas, de maior especificidade e com destaque para as áreas de flexibilidade, recuperação e nutrição, que permitiram acompanhar o aumento de velocidade do jogo – derivado dos progressos das raquetas e, especialmente, das cordas – e também prevenir lesões. Ao longo da carreira, os jogadores foram acumulando um capital físico que lhes permite concorrer em resistência com a maior velocidade dos mais jovens. E também aprenderam a “ouvir” o corpo e a gerir o esforço, sendo essa melhoria mais notória nos Grand Slams, onde se joga à melhor de cinco sets.

No caso deste Open da Austrália, os finalistas masculinos têm em comum o facto de terem terminado cedo a época passada; Federer não competiu desde Julho, por causa do joelho; Nadal parou em Outubro, para recuperar totalmente do pulso. Essas férias mais prolongadas também ajudaram a que regressassem cheios de confiança e expectativas.

“A certa altura, chegamos a um limite e não se pode ir mais além. Eu e o Rafa dissemos: ‘Chega! Vamos voltar a 100% e disfrutar outra vez’. Desse ponto de vista, sem dúvida que a paragem de seis meses recompensou-me”, disse Federer, 35 anos, o mais velho finalista de um torneio do Grand Slam desde 1974.

Federer nunca tinha parado durante tanto tempo, mas também nunca se coibiu de desistir de um torneio, quando se sentiu mais fatigado, para chegar mais forte aos mais importantes – o último Open dos EUA foi o primeiro major a que faltou após 67 consecutivos.

Já Nadal, 30 anos, teve várias paragens forçadas e, entre 2006 e 2014, falhou quatro Grand Slams devido a lesões – em 2012, por exemplo, competiu em apenas 10 eventos. Em todos esses momentos, o espanhol só regressou quando estava a 100% fisicamente, o que, no seu caso, é fundamental para se sentir confiante e temido nos encontros mais longos. Em Melbourne, já venceu dois encontros em cinco sets (um de quatro horas, outro de cinco) e um de quatro (três horas).

A longevidade das irmãs Williams é ainda maior, mas as paragens nas carreiras, também ajudaram a evitar o desgaste mental do excesso de competição. E assim chegam ao 28.º duelo, cujo primeiro data de 21 de Janeiro de 1998, na segunda ronda do Open, precisamente na mesma Rod Laver Arena onde vão disputar a final.

Venus venceu, em dois sets, e Serena, então com 16 anos, aceitou bem a derrota. “O que é o amor tem a ver com isto? Ambas queremos ser número um e vai depender de qual de nós vai encarar isso mais seriamente”, avançou Serena, que agora lidera o “mana-a-mana” por 16-11 e 6-2 em finais do Grand Slam. Venus chegou a número um do ranking em Fevereiro de 2002; Serena, destronou-a cinco meses mais tarde.

Em 2006, Serena parou seis meses devido a uma lesão num joelho e caiu para fora do "top-100". Entre 2010 e 2011, esteve fora quase um ano por causa de uma lesão no pé e, em consequência, de um embolismo pulmonar, que chegou a colocar-lhe a vida em perigo. Em ambas as ocasiões, voltou mais forte.

Serena, 35 anos, já detém os recordes mais velha campeã de um Grand Slam e de líder do ranking, mas procura ainda ultrapassar Steffi Graf, com quem partilha a conquista de 22 títulos individuais do Grand Slam. O grande objectivo é ultrapassar Margaret Court, que venceu 24 majors.

Venus, 36 anos, é a mais velha finalista do Open australiano na Era Open e a mais velha em finais de majors desde 1994. Em 2011, foi-lhe diagnosticada a síndroma de Sjogren, uma doença que ataca o sistema imunitário, incurável e que provoca cansaço e dores nas articulações. Caiu para fora do "top-100", mas passado o período de adaptação aos condicionalismos do seu estado de saúde, voltou ao "top-10", em 2015. A presença na final de um Grand Slam, a primeira em oito anos, é já para Venus uma grande vitória.