Para continuar a descobrir um tesouro chamado Bonga

É um dos músicos mais importantes da música angolana (e lusófona), nem sempre reconhecido por cá como tal. Mas isso está a mudar. Esta sexta-feira, na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, actuará com B Fachada, e o encontro dos dois, naquela associação artística, não é tão improvável quanto parece.

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Bonga está entusiasmado por tocar “num espaço mais íntimo, típico lisboeta e de muita juventude” MARTIM RAMOS (arquivo)

“Bonga tem uma obra muito extensa e nunca pode ser reduzido a uma imagem, a uma figura, a uma fase. Ao mesmo tempo, permanece fiel a si mesmo, é o seu próprio percussionista e nunca deixou a ligação aos seus instrumentos tradicionais. Vive fora de Angola há décadas sem nunca ter perdido a ligação à origem. O facto de ter conseguido ser emigrante e, ao mesmo tempo, agente cultural da terra-mãe, é um caso de estudo. Ou devia ser.” Quem o diz é B Fachada, 32 anos, que construiu na última década um percurso ímpar na música portuguesa, tanto pela forma como encontrou um espaço único, unicamente seu, para a palavra, como por fazer da canção matéria em aberto: o tradicional e a pop, uma braguesa e caixa de ritmos, piano clássico e ritmo afro-xula para dançar – a música de Bonga, obrigatoriamente, encontrou lugar na sua.

“Não imaginei que [B Fachada] fosse tão cúmplice. Percebi que é um seguidor que bebeu das fontes. Está aí com um ritmo que não é habitual, está a abrir uma nova fronteira, a aconchegar e a estreitar laços muito importantes. As fronteiras não estão fechadas e é preciso diminuir o preconceito que ainda possa existir nalgumas cabeças.” Di-lo Bonga Kuenda, 74 anos, músico maior da história da música angolana (e lusófona) e voz da consciência do país desde os tempos da luta pela independência, passando depois pelo sucesso popular da década de 1980 e chegando a este 2017 em que este Cavaleiro das Artes e Letras francesas continua a carregar o semba com Recados de Fora (é esse o título do seu álbum mais recente).

Bonga e B Fachada protagonizam esta sexta-feira à noite um encontro inesperado em local igualmente inesperado. Estarão juntos na Galeria Zé dos Bois, a associação cultural lisboeta que é desde há muito pólo fundamental, dinamizador, da vida musical e artística da cidade (o concerto está marcado para as 22h e a lotação está esgotada). O alinhamento diz que B Fachada actuará primeiro, cedendo depois o palco a Bonga e à sua mui afinada banda, mas podemos esperar surpresas. Palavra de Bonga. “Vai haver de certeza. Eu faço dos espectáculos uma festa e descubro sempre qualquer coisa inesperada para fazer. Mas, se disser agora, deixa de ser surpresa.”

Fachada é muito da casa, marcando presença regular na ZDB desde o início do seu percurso. Bonga? “O Angola 72 e o Angola 74 [os dois primeiros álbuns] são dois discos da minha vida, duas obras-primas, e ter o Bonga aqui é um desejo que tenho desde que comecei a trabalhar na ZDB há nove anos. Di-lo Sérgio Hydalgo, responsável pela programação musical do espaço. Para ele, este é um concerto com missão. “Quando o músico vivo mais importante dos PALOP a suceder a Cesária Évora reside em Portugal e tem todo um reconhecimento nos países francófonos que não tem aqui, isso significa que ainda há trabalho a fazer”, aponta. Para Hydalgo, o concerto será como cumprir “serviço público”. E olha em frente. “É impossível não pensar no efeito que poderá gerar na comunidade que nos rodeia. Vai ser interessante perceber como vai reagir o público do Fachada ao Bonga e como o público do Bonga reagirá ao Fachada.”

Perguntamos a B Fachada quando descobriu e se deixou fascinar pela música de Bonga e a primeira resposta é elucidativa: “Quando a descobri, não me lembro.” Elucidativa porque ilustra a relação que a maioria dos portugueses mantém com o músico nascido José Adelino Barceló de Carvalho em 1942, no Kipiri, província do Bengo. Bonga faz parte do nosso imaginário desde sempre, quer o víssemos na televisão, nos anos 1980 e 1990, quer lhe ouvíssemos Mariquinha ou Olhos molhados na rádio, quer o víssemos em reportagem fotográfica nas revistas. Víamo-lo mas não o conhecíamos verdadeiramente para além da deturpação caricatural. Claro que os portugueses de ascendência africana ou os angolanos, cabo-verdianos, são-tomenses ou guineenses da diáspora tinham dele uma visão mais completa, mais justa. Para eles, Bonga era o músico activista que erguera a voz contra o colonialismo nos supracitados Angola 72 e Angola 74, gravados na Holanda, onde se exilara – e que continuou, depois, a denunciar a tragédia da guerra civil e a contestar os abusos políticos numa Angola já independente. Bonga era o guardião da cultura tradicional que confortava quem estava longe da pátria (Raízes, assim se intitulava o seu terceiro álbum), era o da voz rouca e cheia que, dikanza na mão (chamamos-lhe por aqui reco-reco), dava vida plena ao semba. Era Bonga, o grande embaixador musical celebrado e respeitadíssimo em França, para onde partiu depois da vivência holandesa.

É esse Bonga, o da dimensão ímpar na história da música angolana (e lusófona, repetimos), que estará em palco esta sexta-feira à noite na ZDB. Foi esse que B Fachada, que o conhecia desde sempre, acabaria por descobrir. “Na fase de preparação do Há Festa na Moradia [2010] comprei vários discos e fiz um trabalho de pesquisa mais sério”, conta. Os reflexos desse reencontro com álbuns como Massemba 87, gravado em Moçambique, “a meio da sua carreira, com um som muito forte e canções muito fortes, e que abre uma porta para os fundadores Angola 72 e Angola 74, manifestar-se-ia em Criôlo (2012), o disco em que a música de Fachada acolheu decisivamente a africanidade. “Aí, consigo aproximar-me mais da minha ideia de africanização da música como forma de progredir de uma maneira eurocéptica, de costas para a cultura que nos é impingida e de frente para África”, explica. “Angola acaba por ter mais que ver connosco e  acabamos por perceber melhor as subtilezas sociais e políticas e as nuances. Tudo isso facilita uma aprendizagem mais profunda, uma ligação maior entre o ouvido e a música.”

Nos últimos anos, a percepção que temos de Bonga, do seu estatuto e do seu percurso, tem vindo a mudar. Recentemente, vimo-lo como um dos destaques da programação do último D’Bandada, na Baixa do Porto, festival dedicado à nova música popular urbana realizado em Setembro. Um mês depois, integrou a equipa Batida no Red Bull Music Academy Culture Clash, que pôs quatro combos musicais ao despique no Coliseu dos Recreios. Em Dezembro de 2016, quando editou Recados para Fora, o Tivoli, em Lisboa, lotou e transbordou para ouvir as novas canções de Bonga.

Sérgio Hydalgo sente que, nos últimos dez anos, “começou a fazer-se mais justiça” à obra de Bonga, mas que ainda não é suficiente. “Vive em Lisboa e não pensamos sobre o assunto, como se não fosse uma evidência. Nunca tocou num festival de Verão, no Alive, no Super Bock Super Rock, em Paredes de Coura ou no Primavera Sound. Nunca tocou no Músicas do Mundo de Sines. É hora de o seu valor ser reconhecido por todos, e principalmente pelos portugueses.” Hydalgo tem esperança de que o cruzamento de públicos no concerto desta sexta-feira possa proporcionar “outro tipo de concertos, noutro tipo de palcos”.

Bonga está entusiasmado por tocar “num espaço mais íntimo, típico lisboeta e de muita juventude”. Sente que “hoje, mais do que nunca”, entra “pela porta da frente e é reconhecido”. Continuará o mesmo de sempre, claro. Diz que Recados de Fora é uma continuação do seu disco de estreia, Angola 72. Aí, apontava o discurso contra a colonização portuguesa. Depois, “continuei a dizer coisas aos meus patrícios, ‘não foi para isso que nos tornámos independentes’, e esses recados continuam. Estão todos relacionados com a minha terra de origem, que não é só o dólar e os diamantes, que não tem de impressionar pelos grandes prédios e grandes hotéis, não é por aí”, acusa. “Os recados são para aconchego e assistência aos mais desfavorecidos.”

Elogia o “corajoso” Luaty Beirão, “um exemplo para todos os que ficam de boca fechada a assistir”, fala dessa juventude que “já não vive num gueto como antigamente”, como a juventude que observou à chegada a Portugal nos anos 1960, “acabrunhada” pelo regime do Estado Novo. Sente-se um cidadão do mundo, “com grande experiência aprendida com todos, com asiáticos, americanos ou europeus”. E diz: “Nós, africanos a residir na Europa e a desfrutar das democracias europeias, temos de assinalar quando há discrepâncias em relação ao que se passa em África e ripostar. Daí os recados do Bonga.” Ouçamo-los atentamente. São história viva, ainda a acontecer. Não podemos desperdiçá-lo.