“Tal como na casa de fados, vou centrar tudo na música e na palavra”

Uma antologia com inéditos: foi assim que Aldina Duarte pensou o seu novo espectáculo na Culturgest. Para ouvir fado a fado, palavra a palavra. Esta sexta-feira, às 21h30.

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Aldina Duarte: "Tudo está pensado para nos focarmos fado a fado" VITORINO CORAGEM

No ano da anunciada despedida de Miguel Lobo Antunes como programador da Culturgest (cargo que antes exercera no CCB), Aldina Duarte respondeu sem hesitar ao convite para voltar a actuar naquele palco. Pensou, e agora di-lo em voz alta: “Tenho de fazer um concerto especialíssimo, de tributo a esta sala e dedicado ao Miguel, que acreditou em mim desde o primeiro dia. Acho que ninguém gosta mais do meu fado do que ele; tanto, talvez haja alguns, mais é impossível.” Foi no Grande Auditório da Culturgest que Aldina fez o primeiro concerto da sua vida. “Estava bastante relutante, até porque não tinha como objectivo levar o meu fado para concertos e muito menos para salas grandes, mas o Miguel achou que a sala era perfeita para pôr o meu fado em concertos, e isso foi feito com a ajuda do Jorge Silva Melo, outra das pessoas que gosta tanto de me ouvir como o Miguel.” A partir daí, todos os seus discos tiveram estreia naquele palco. “Exceptuando Romance(s) que foi estreado no CCB, porque eu já não tinha como dizer-lhes que não.”

Quatro inéditos

Aldina chamou ao seu novo espectáculo Fado: a Música e as Palavras. E explica porquê. “É uma espécie de antologia, mas com inéditos, feita sobretudo com fados dos três letristas com quem tenho trabalhado sempre: a Manuela de Freitas, o João Monge e Maria do Rosário Pedreira.” Os dois últimos escreveram na íntegra álbuns para ela e agora assinam dois dos inéditos que ouviremos na Culturgest: A estação dos amantes, de João Monge; e Sem cal nem lei, de Maria do Rosário Pedreira, ambos com música de Armando Machado (1899-1974), o primeiro no Fado Santa Luzia, o segundo no Fado Súplica. Mas é de Manuela de Freitas o inédito mais antigo que Aldina cantará neste concerto, e chama-se Sorte com sentido: “Foi a primeira letra que alguém escreveu para mim, ainda antes mesmo do meu primeiro disco. Não coube em nenhum dos discos que gravei e a única vez que ficou registado foi num programa televisivo. Mas é um tema fabuloso e tem uma letra maravilhosa, que fala da minha relação com o fado. Tem mais ou menos estes versos: ‘Se é certo que fado é sina/ Com meus sonhos de menina/ Joguei meu fado na sorte/ Arrisquei muita cartada/ Fiz muita vaza cortada/ E apostei sempre mais forte.’ Depois, com uma repetição, muda: ‘Arrisquei muita cartada/ E subi tanto a parada/ Que fui parceira da morte.’” Manuela de Freitas tinha escrito esta letra inicialmente para Camané. “Mas ele não se sentiu confortável com a letra, e então ela transformou-a para uma mulher e deu-ma a mim”, diz Aldina.

“Criei três blocos essenciais, com Apenas o Amor, Crua, Mulheres ao Espelho, Contos de Fados e Romance(s): esta é a antologia. Mas na abertura do concerto e entre cada bloco estão fados que eu nunca gravei e que são doutros, nunca ninguém mos ouviu cantar a não ser na casa de fados. E são fados musicados, não são fados tradicionais. Ou seja: eu fui repescar o tal inédito da Manuela de Freitas, um fado da Lucília do Carmo que cantei no mesmo programa de TV onde cantei esse mas que nunca mais cantei, Não me conformo; canto o Não vou, que é também é da Lucília do Carmo mas que gravei no Mulheres ao Espelho; canto um fado da Fernanda Maria, o Loucura, loucura; e canto ainda um fado que é um tributo à Maria da Fé, a Porta maldita.”

Cenicamente nu

O espectáculo abre com outro inédito, Auto-retrato, que João Ferreira-Rosa primorosamente escreveu para Aldina, que ela nunca gravou mas já cantou em palco duas vezes: no São Luiz, na celebração dos seus 20 anos de carreira, em Março de 2014; e na Culturgest, a encerrar o concerto de 3 de Outubro de 2015. Ou seja: no antecessor deste. Começa assim o actual concerto no exacto ponto onde o anterior tinha acabado, o que é uma boa forma de retomar o fio do tempo. “O mais arriscado é que vou estrear os fados do João e da Rosário em palco, coisa que nunca fiz. Estreio-os sempre na casa de fados ou então no estúdio, que sempre dá para voltar atrás. Não sei como resultará, mas acho que devia fazê-lo na Culturgest. Porque sempre arrisquei tudo nesta sala.”

A par desta caminhada pelos fados, haverá um “bloco com a banda”, que corresponde ao “lado B” de Romance(s): “Vou cantar um tema desse disco com o João Cardoso, com o Pedro Vidal na guitarra eléctrica e com o Pedro Gonçalves na guitarra e na viola-baixo.” Isto liga com o bloco dos Romance(s) à guitarra e à viola, aqui com Paulo Parreira e Rogério Ferreira, respectivamente. “E daí parte-se para o final, que são os hits de cada disco.”

Não haverá efeitos cénicos especiais. “Tal como na casa de fados, vou centrar tudo na música e na palavra. A única coisa que haverá em palco é uma mesa com uma cadeira, símbolo do intimismo da casa. Quero este que seja o meu espectáculo mais nu, cenicamente, e onde tudo está pensado para nos focarmos fado a fado e com toda a concentração, não só no sentido mas também na musicalidade de cada palavra.”