“Factos alternativos” de Trump aumentam as vendas de 1984

Obra de George Orwell atingiu liderança nas vendas da Amazon, mas não é o único clássico distópico a "ressuscitar".

A editora da versão inglesa programou uma nova edição de 75 mil cópias
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A editora da versão inglesa programou uma nova edição de 75 mil cópias FERNANDO VELUDO

O livro 1984, escrito por George Orwell e editado em 1949, foi o mais vendido na Amazon.com, nesta terça-feira à noite. As vendas aumentaram depois das declarações (consideradas “pouco factuais”) do Presidente norte-americano e de alguns membros da sua administração. Os “factos alternativos” invocados pela Administração Trump estão a reavivar a popularidade daquela obra.

No passado domingo, Kellyanne Conway, conselheira de Donald Trump, foi ao programa Meet The Press da NBC, reafirmar os números de Trump: estiveram um milhão de pessoas no Mall de Washington, ainda que as imagens dos media desmintam isso. Justificou-se, dizendo que a Casa Branca estava na posse de “factos alternativos”. O apresentador ripostou: “Factos alternativos não são factos. São falsidades”.   

A expressão “factos alternativos” gerou diversas reacções, sobretudo na Internet. No Twitter, os dicionários Merriam-Webster publicaram, no mesmo dia, a definição de “facto”: “informação apresentada como tendo realidade objectiva”.

Desde domingo, diferentes utilizadores usaram as redes sociais para citar passagens da obra de George Orwell, comparando-as com o que já aconteceu nos cinco dias de administração Trump.

No universo distópico de 1984, os factos são distorcidos e transformados em “novilíngua” (segundo a tradução de Ana Luísa Faria), um idioma fictício criado pelo “Ministério da Verdade” do sistema autoritário do universo orwelliano. As palavras da língua oficial do regime eram criadas a partir da junção e abreviação de várias palavras já existentes. O resultado eram significados de tal maneira reduzidos que conseguiam, efectivamente, limitar o pensamento crítico da população, que passava a confiar apenas nos dados oficiais.

Na passada terça-feira, o clássico distópico chegou ao número um do top de vendas da Amazon.com – o que obrigou a editora da versão inglesa, o grupo Penguin, a programar uma nova impressão de 75 mil cópias, de acordo com o DW

Michiko Kakutani, crítica literária do New York Times, recuperou, na sua conta do Twitter, um conjunto de citações que falam da acção do “Ministério da Verdade”.

“A razão mais importante para reajustar o passado é a necessidade de salvaguardar a infalibilidade do Partido. Não são apenas os discursos, as estatísticas e os registos de qualquer tipo que devem ser constantemente actualizados para mostrar que as previsões do Partido estão certas. Nenhuma mudança na doutrina ou no alinhamento político será admitida.”

Mas 1984 não foi o único clássico a chegar aos tops de vendas da Amazon, na última terça-feira. It Can’t Happen Here, de Sinclair Lewis, editado em 1935, sobre a eleição de um presidente autoritário, ocupou a 46.ª posição na lista dos mais vendidos. Admirável Mundo Novo, outra distopia, escrita por Aldous Huxley em 1932, ocupava o 71.º lugar. A obra As Origens do Totalitarismo, de Hannah Arendt, também estava a aumentar as suas vendas.

It Can’t Happen Here não está editado em português. 1984 e Admirável Mundo Novo foram editados pela Antígona; As Origens do Totalitarismo pela D. Quixote.

Notícia corrigida às 21h18: retirado o ano de escrita da obra