Crítica Cinema

As mulheres do mar

Ama-San, de Cláudia Varejão, entra na intimidade de mulheres japonesas que se dedicam a uma tradição ancestral: o mergulho, à cata de preciosidades no fundo do mar.

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O mergulho, mais do que no fundo do mar, é naquela vila japonesa, cujo ar acabamos a respirar com toda a normalidade
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Vencedor da competição portuguesa na última edição do DocLisboa, Ama-San vem, no entanto, do outro lado do mundo. É um filme sobre mulheres japonesas - as “ama” - que se dedicam a uma tradição ancestral ainda presente em algumas povoações costeiras do Japão: o mergulho, à cata de preciosidades depositadas no fundo do mar, em especial as pérolas. Cláudia Varejão segue três dessas mulheres (a tradição implica que esta seja uma actividade feminina), de segmentos etários diferentes, entre a actividade profissional e os momentos corriqueiros do dia a dia, passados com a família ou dedicados ao lazer (por exemplo em sessões de karaoke, para citar outra “instituição” japonesa). O karaoke serve de exemplo de uma das coisas que Ama-San consegue muito bem: evitar filmar estas mulheres como vivendo numa espécie de “reserva” desligada do mundo e voltada para o atavismo da sua tradição profissional. Ao integrá-las na vida corrente, pelo que mostra ou pelo que escuta (sobretudo da mais nova das mulheres, aquela que ainda está menos compenetrada da carga simbólica da sua profissão), Ama-san abre uma janela para uma vista mais vasta, contendo uma hipótese de reflexão sobre a coexistência de tradições culturais ancestrais e modernidade, social e tecnológica (algo em que o Japão, tudo o indica, será um país pródigo).

Não deixa por isso de ser um filme atento aos rituais. Pensamos a dada altura naquela frase do protagonista do último Carax (Holy Motors), quando falava da “beleza do gesto”. Aqui, o “gesto”, e a perservação da sua “beleza”, são quase tudo, como se fosse essa auto-consciência a justificar que esta actividade continue a ser praticada assim, em moldes e métodos quase artesanais, em vez de se abrir para suportes tecnológicos que por certo tornariam tudo mais seguro, mais eficaz e mais simples. Mas, como em tantos outros elementos das tradições japonesas, a “forma” impera - Cláudia Varejão segue isso muito bem, filmando longamente os preparativos (que implicam a indumentária, o arranjo dos cabelos, o planeamento do mergulho propriamente dito), e de vez em quando oferecendo esse “presente” que são as muito belas imagens submarinas. Dar essa beleza é importante, porque ela não apenas complementa a do “gesto”, preenche-lhe o sentido.

Ao mesmo tempo, não reduz as suas personagens a “tipos” nem se esconde atrás de uma distância de documentário antropológico. O filme é também um processo de familiarização com aquelas pessoas específicas, uma entrada na sua intimidade e nos seus redutos domésticos. Discretamente, sem o transformar em piada ou em citação cinéfila, Cláudia Varejão encontra soluções semelhantes às de alguns célebres realizadores japoneses (como por exemplo Ozu) para filmar a peculiar organização do espaço das casas japonesas - a câmara numa posição que tem tanto de recolhimento não invasivo como de perspectiva idealmente reveladora, como se procurasse ver o mais possível mostrando-se (a ela própria) o menos possível. O que, finalmente, enxota qualquer hipótese de “exotismo” - a pouco e pouco, o mergulho, mais do que no fundo do mar, é naquela vila japonesa, cujo ar acabamos a respirar com toda a normalidade.