Durante cinco anos, a arte foi a porta de entrada em 13 salas de aulas

O 10x10 foi, durante cinco anos, um projecto de investigação-acção que cruza as artes com a educação, para que esta se reinvente. Resultados? A apresentação pública acontece no sábado, a partir das 10h, na Fundação Calouste Gulbenkian.

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A apresentação do trabalho é no sábado, na Gulbenkian Paulo Pimenta

“Para que é isto serve para a minha vida?”: não é raro ouvir frase como esta dita por alunos do 5.º ou 12.º ano sobre matérias que aprendem na sala de aula. Maria de Assis Swinnerton, directora do programa educativo da Fundação Calouste Gulbenkian - Gulbenkian Descobrir, ouviu-a diversas vezes. Se todos os anos a queixa é a mesma, há forma de mudar? A equipa de Assis Swinnerton acredita que sim, razão pela qual criou, em 2012, o projecto 10x10 com a proposta de colocar professores e artistas a descobrir como se faz esta mudança.

Porquê em parceria com artistas? Antes de arrancar com o projecto, a equipa de Assis Swinnerton debruçou-se com olhar crítico sobre as escolas portuguesas: era necessário valorizar ferramentas que saíssem da rotina do modo de ensinar, aprender e comunicar – das aulas meramente expositivas, pouco adaptadas às características dos alunos, repetidas ano após ano, muitas sem espaço para reflexão. “A arte foi então uma porta de entrada para os alunos compreenderem melhor a matéria e os professores compreenderem melhor os alunos”, concluiu Assis Swinnerton.

Mas conseguiriam professores e artistas encontrar estratégias que, na sala de aula, trouxessem ganhos para professores e alunos? Ao fim de cinco edições, 20 artistas, 36 professores e 600 alunos, Maria de Assis Swinnerton acredita que sim. O projecto termina este ano, dando como concluídos cinco anos de investigação e acção directa em 13 escolas de 2.º e 3.º ciclos do ensino básico de todo o país, privadas e públicas.

Os professores foram convidados a apresentar uma candidatura. Os que o fizeram partilharam, durante três meses, a sala de aula com um artista. Ambos entraram em terreno desconhecido com a proposta de resolverem problemas. O principal — fomentar a motivação e o interesse dos alunos pela matéria — foi atingido, segundo o inquérito aos alunos apresentado no relatório do projecto.

Nestas aulas, não se aprendeu dança, nem cinema, nem música ou teatro: a arte foi o veículo de criação de exercícios de concentração, para trabalhar a memória e o relaxamento, o interesse e a motivação. Reforçar o sentido de grupo e favorecer a relação professor/aluno foram caminhos trabalhos para “dar outro significado à aprendizagem”.

Por isso, o projecto quis as disciplinas “duras”, nas palavras de Maria Assis Swinnerton, “aquelas que normalmente fogem à arte”: a matemática, as línguas, a físico-química e a biologia.

Mudanças para durar?

Juntos, professores, artistas e alunos, criaram uma série de “micropedagogias” — exercícios, rituais e técnicas pedagógicas e de comunicação na sala de aula — que apresentam no próximo sábado, a partir das 10h, na Fundação Calouste Gulbenkian. No dia 11 de Fevereiro exibem o trabalho em Loulé, no Auditório do Instituto Superior Dom Afonso III, e no dia 25, no Mosteiro de S. Bento da Vitória, no Porto.

A intenção é que tudo isto entre no sistema de ensino, não se ficando na gaveta como “mais um projecto artístico”. Para esse efeito, a fundação apresenta no sábado um livro com as propostas e os resultados alcançados nos cinco anos do projecto. Começou também este ano lectivo a pós-graduação em Práticas Artísticas e Processos Pedagógicos, na Escola Superior de Educadores de Infância Maria Ulrich.

Esta era, logo à partida, uma ambição acrescida. Ainda que a maioria dos professores tivesse revelado “vontade de arriscar e experimentar a mudança” e tivesse verificado uma “mudança efectiva no comportamento dos alunos, no seu interesse e envolvimento na aprendizagem”, lê-se no relatório, em alguns casos, o projecto caiu no vazio. “Muitos voltaram ao território conhecido." Outros encontraram uma série de pistas e fizeram mudanças, “mas não foi prego a fundo”. Houve ainda quem adoptasse uma nova forma de trabalhar “apoiada na discussão e solidificação de ideias”. Nas palavras de Assis Swinnerton: "É preciso coragem e capacidade. Sem isso não há confiança e não é possível ser-se contracorrente.”

A directora do Gulbenkian Descobrir espera que esta coragem contagie alguns colegas. Afinal o 10x10 quer ser exactamente isso: um projecto multiplicador, “que mesmo depois de terminado não acabe”.