Um grão das artes de Ângelo de Sousa à conquista da Europa

A Fundação Gulbenkian em Paris inaugura esta terça-feira a primeira exposição monográfica deste artista em França. Meia centena de obras a mostrar ao circuito internacional das artes a importância de um criador e experimentador obsessivo.

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Auto-retrato (2001) Ângelo de Sousa
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Slide de cavalete (1978-79) Ângelo de Sousa
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Slide de cavalete (1978-79) Ângelo de Sousa
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S/título (2001) Ângelo de Sousa
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Vista da exposição em Paris DR
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Vista da exposição em Paris DR
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Série Os umanistas Ângelo de Sousa
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Série Os umanistas Ângelo de Sousa
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Série Os umanistas Ângelo de Sousa
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Série Os umanistas Ângelo de Sousa
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Escultura em aço pintado (1965-66) Ângelo de Sousa
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Cartão de Ano Novo da Fundação Gulbenkian - Paris DR

A meio da semana passada, ultimavam-se os trabalhos de montagem da nova exposição da delegação da Gulbenkian em Paris, e no verso das telas podiam ler-se indicações expressas de Ângelo de Sousa (1938-2011) sobre o modo correcto da sua instalação. Só que, em algumas delas, o “boneco” tanto estava virado para cima como para baixo; e noutras ainda, a seta não corresponde ao sentido que o próprio artista lhes deu em mostras anteriores!…

Era assim Ângelo de Sousa, para quem o humor e a ironia eram parte integrante da sua arte, além do seu carácter aberto, em permanente busca e experimentação.

A Fundação Calouste Gulbenkian inaugura esta terça-feira na capital francesa aquela que é a primeira exposição individual neste país deste artista que é uma referência fundamental da arte portuguesa da segunda metade do século XX até à primeira década do novo milénio, mas que permanece desconhecido no resto do mundo. Tem por título Ângelo de Sousa. La couleur et le grain noir des choses [A cor e o grão negro das coisas], e como comissário Jacinto Lageira, português radicado na capital francesa desde criança, e que é professor de Estética na Universidade Paris 1 - Panthéon-Sorbonne, além de curador e crítico de arte.

“Esta é uma pequena apresentação, de cerca de meia centena de trabalhos, de uma obra gigantesca e que está cheia de peças fantásticas, não só do ponto de vista da invenção e da imaginação, e que pode verdadeiramente ser comparada com aquilo que na mesma época se ia fazendo nos outros países da Europa”, diz Jacinto Lageira, lamentando o seu desconhecimento nos circuitos internacionais da arte.

De facto, antes da presente chegada a Paris com esta mostra monográfica, só por escassas ocasiões Ângelo de Sousa teve trabalhos seus exibidos fora de Portugal – e foram sempre em colectivas de arte portuguesa –, desde que, em 1970, se apresentou com o grupo Os Quatro Vintes (com Armando Alves, Jorge Pinheiro e José Rodrigues), numa galeria também na capital francesa. E em 1975 foi distinguido com o Prémio Internacional da Bienal de São Paulo.

Paris pode ser agora um ponto de partida para o reconhecimento de um autor que “merece visibilidade internacional como artista” e não apenas enquanto “uma manifestação do meio artístico português”, diz ao PÚBLICO Miguel Magalhães, o recém-nomeado director da delegação francesa da Gulbenkian.

Anunciada na entrada da delegação da Gulbenkian – e também numa série de cartazes na estação de metro Concorde – com a reprodução de uma obra que parece uma secção do arco-íris e denota o persistente trabalho de pesquisa da cor por parte de Ângelo de Sousa, a exposição abre precisamente, ao cimo da escadaria de entrada, com um vídeo que reproduz a série Slides de cavalete (1977-79). “Representa pinturas que ele nunca fez, que projectou apenas num ecrã, representando formas geométricas e um aturado trabalho sobre a cor e a memória”, diz Jacinto Lageira na visita em que guiou o PÚBLICO pela exposição em final de montagem.

A sala maior do primeiro piso da delegação dá espaço às grandes telas, e as mais conhecidas, com que Ângelo expressa essa sua obsessão pela cor, com destaque para as pinturas amarelas pertencentes à Colecção Gulbenkian (as outras obras tendo origem nas colecção de Serralves e do filho do artista, Miguel Sousa). “Não é pintura abstracta no sentido mais literal do conceito”, explica o curador, fazendo notar que “Ângelo ultrapassa a dicotomia tradicional real-abstracto”. “Ele é formal, mas não é um formalista; presta sempre uma grande atenção à materialidade do quadro, da cor, do pigmento, do pincel”, acrescenta.

Mas antes das três salas centrais dominadas pelos grandes quadros, o visitante é convidado a “espreitar”, numa divisão mais pequena, uma primeira selecção de fotografia. É a série A mão, a cores (mas Ângelo cultivou-a também a preto-e-branco), que remonta aos anos 70, e que teve também desenvolvimentos em desenho, pintura e filme. “A mão como parte do corpo, como órgão, mas também como uma coisa no meio de outras coisas”, diz Lageira.

No seguimento do percurso de La couleur et le grain noir des choses, três vitrinas dão a ver um conjunto das pequenas esculturas em alumínio e em aço pintado – a expressão mais notória desta vertente do trabalho do artista sendo a escultura monumental associada à arquitectura de Eduardo Souto de Moura do edifício Burgo, no Porto –, mas também as famosas “orelhas” criadas a partir de embalagens de iogurte distorcidas por efeito do calor.

E a fotografia regressa na parte final da exposição, com a sucessão das séries Epifanias, O sensível e Os umanistas. “É o lado mais negro e inesperado do trabalho do Ângelo”, diz o curador perante as imagens chocantes das “epifanias”: uma sucessão de animais mortos e em decomposição. São “revelações” de um mundo imprevisto, em que as coisas e os fenómenos triviais do quotidiano são transformados em experiência estética. Uma démarche que Ângelo também estendeu à captação de imagens menos chocantes, mas igualmente, à partida, desprovidas de aura artística: uma parede, o chão da rua, uma corda de secar roupa, um cabelo…

E chegamos aos “umanistas” – “Gosto muito da ideia dele de escrever sem o ‘h’, à italiana, retirando aquela ideia naïf do ‘humanismo’, com aquele sentido sempre muito irónico que ele colocava na sua arte”, diz Lageira –, uma pequena selecção feita a partir de mais de um milhar de fotografias a preto-e-branco de cenas do quotidiano na cidade do Porto, muitas delas captadas a partir da própria janela do artista: uma mulher dentro de casa, duas crianças a brincar na rua, homens a trabalhar, pessoas na paragem do eléctrico com parte de uma inscrição sobre as suas cabeças: “Os serviços funcionam provisoriamente na rua…”.

“Não se trata de realismo ou de uma variante neo-realista da época”, escreve o comissário no roteiro que elaborou para o percurso da exposição. “É apenas porque nos interessa a humanidade do humano, num sentido quase antropológico – o que faz com que ele seja aquilo que é, do mesmo modo que as coisas são aquilo que são”, acrescenta. E Ângelo de Sousa estava lá para o registar, e reinventar.

A exposição Ângelo de Sousa. La couleur et le grain noir des choses, que é acompanhada por um catálogo com textos de vários críticos e historiadores de arte, vai ficar patente até 16 de Abril. O que poderá acontecer depois de Paris? “Nunca se sabe; espero que a exposição seja uma descoberta, e que as galerias, francesas e europeias, peguem depois na sua obra”, diz Jacinto Lageira.

Oito cadernos de fotografia

A operação Ângelo de Sousa em Paris vai prolongar-se, em Fevereiro, com a edição – e lançamento numa livraria da cidade, ainda a especificar – de uma parte da criação fotográfica do artista. Trata-se de uma caixa com oito cadernos de fotografia, com curadoria do professor e investigador Sérgio Mah, que documentam outros tantos capítulos, ou séries, que Ângelo foi desenvolvendo praticamente ao longo da sua vida, desde o final da década de 60 até à primeira década do ano 2000 – desde Os umanistas aos ensaios sobre a mão, dos auto-retratos aos Slides de cavalete, das janelas às procissões...

Miguel Sousa, filho e responsável pela gestão da herança artística de Ângelo, explica ao PÚBLICO que o seu pai, já perto do final da vida, tinha manifestado o desejo de “editar sete livros de fotografia dedicados apenas ao tema Os umanistas”, e que gostaria que essa edição “fosse comissariada por Sérgio Mah”. O projecto é agora concretizado, com o patrocínio da Gulbenkian, mas tanto Sérgio Mah como Miguel Sousa decidiram abrir o leque da selecção às várias séries que Ângelo foi realizando ao longo de décadas. A nova edição vem assim acrescentar-se ao catálogo da exposição Encontros com as formas. Fotografia e vídeos, realizada pela Fundação EDP no Porto em 2014, e já também com curadoria de Sérgio Mah. Será mais uma nova oportunidade para desvendar o património de uma criação torrencial, que é constituído por mais de 80 mil imagens.

O PÚBLICO viajou a convite da Fundação Calouste Gulbenkian - Delegação em França