La La Land – Melodia de Amor dança a caminho dos Óscares

Musical de Damien Chazelle obtém 14 nomeações e parte favorito para a cerimónia de 27 de Fevereiro. Moonlight, O Primeiro Encontro, Manchester by the Sea, O Herói de Hacksaw Ridge e Lion são os filmes mais nomeados.

<i>La La Land – Melodia de Amor</i>, o musical de Damien Chazelle
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La La Land – Melodia de Amor, o musical de Damien Chazelle dr

Os Óscares querem-se assim: com surpresas q.b., mas sem surpresas por aí além. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood anunciou ao princípio da tarde as nomeações para a cerimónia 2017 dos seus prémios, que serão entregues a 27 de Fevereiro, e à cabeça do pelotão surge o filme que todos esperavam ser o líder do ano: La La Land – Melodia de Amor, o musical nostálgico de Damien Chazelle que se estreia esta quinta-feira em Portugal, recebeu 14 nomeações em todas as categorias principais, incluindo melhor filme, melhor actor (Ryan Gosling), melhor actriz (Emma Stone) e melhor realização, e igualando os recordes de Titanic, de James Cameron, e de Eva, de Joseph L. Mankiewicz.

Seguem-se, com oito nomeações, Moonlight, de Barry Jenkins, e O Primeiro Encontro, de Denis Villeneuve, e, com seis, Manchester by the Sea, de Kenneth Lonergan, O Herói de Hacksaw Ridge, de Mel Gibson, e Lion – O Longo Caminho para Casa, de Garth Davis. Meryl Streep recebeu a sua 20.ª nomeação para um Óscar por Florence, Uma Diva Fora de Tom, partilhando a nomeação com Isabelle Huppert (Ela), Ruth Negga (Loving), Natalie Portman (Jackie) e Emma Stone. Para melhor actor foram nomeados Casey Affleck (Manchester by the Sea), Andrew Garfield (O Herói de Hacksaw Ridge), Ryan Gosling, Viggo Mortensen (Capitão Fantástico) e Denzel Washington (Vedações).

Este ano, há nove títulos (num máximo de dez) nomeados para melhor filme: Elementos Secretos, de Theodore Melfi (estreia a 2 de Fevereiro), Hell or High Water – Custe o que Custar, de David Mackenzie (já em exibição), O Herói de Hacksaw Ridge, La La Land, Lion, Manchester by the Sea, Moonlight, O Primeiro Encontro e Vedações, de Denzel Washington (estreia a 23 de Fevereiro).

É habitual, embora não seja obrigatório, que os prémios de Melhor Filme e Melhor Realizador sejam entregues ao mesmo filme; Denzel Washington, Garth Davis, Theodore Melfi e David Mackenzie não estão nomeados para melhor realizador, o que coloca os seus filmes em desvantagem.

Sem surpresas, dois filmes confirmaram o favoritismo dos últimos meses: Moonlight, o filme de Barry Jenkins sobre a entrada na idade adulta de um jovem negro (estreia a 2 de Fevereiro), recebeu oito nomeações; Manchester by the Sea, a história de um homem solitário forçado a regressar a casa pela morte do irmão (já em exibição), seis citações. É aqui, no entanto, que a narrativa 2017 começa a mostrar surpresas: O Primeiro Encontro, o drama de ficção científica de Denis Villeneuve, recebeu oito nomeações, entre as quais Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Argumento Adaptado –  a Academia não tem por hábito nomear ou premiar “filmes de género”.

Com seis nomeações, encontramos O Herói de Hacksaw Ridge, baseado na história real de um objector de consciência na Segunda Guerra Mundial, e Lion, sobre um jovem indiano adoptado por um casal australiano. As nomeações para o filme de Mel Gibson são uma espécie de “liberdade condicional” do purgatório a que as controvérsias que o rodearam haviam condenado aquele que foi um dos maiores astros de Hollywood nos anos 1990; a presença de Lion confirma que o distribuidor Harvey Weinstein, “rei” das nomeações para os Óscares nos anos 1990 e 2000, continua a ter trunfos na manga.

As cinco nomeações para Melhor Actor têm três nomes esperados: Casey Affleck, Ryan Gosling e Denzel Washington por Vedações, adaptação de uma peça de August Wilson da qual é também o realizador. Têm também uma grande surpresa –  Viggo Mortensen, pelo pouco visto Capitão Fantástico de Matt Ross – e uma pequena – Andrew Garfield, nomeado por O Herói de Hacksaw Ridge em vez de por Silêncio de Martin Scorsese. Este é, aliás, o grande derrotado destas nomeações, confirmando que a Academia parece só gostar do cineasta quando ele faz filmes “de estúdio”: apesar de ter recebido as melhores críticas de um filme de Scorsese em anos, Silêncio apenas foi nomeado para melhor fotografia.

Para Melhor Actriz, a par das aguardadas Natalie Portman (por Jackie, biografia de Jacqueline Kennedy que chega às salas no próximo dia 9 de Fevereiro) e Emma Stone (La La Land), três surpresas. A maior é Isabelle Huppert, por Ela, de Paul Verhoeven, pois é raro uma actriz ser nomeada por um filme que não é uma produção americana, mas as presenças de Ruth Negga (por Loving de Jeff Nichols) e, na sua 20.ª nomeação para os Óscares, de Meryl Streep (por Florence, uma Diva Fora de Tom, de Stephen Frears) eram vistas como improváveis. De fora, por exemplo, ficaram as actrizes de Elementos Secretos, sobre as matemáticas negras que trabalharam para o programa espacial americano nos anos 60 – só Octavia Spencer foi nomeada para Melhor Actriz Secundária, num filme que era um dos favoritos, mas se ficou apenas por três nomeações – ou Annette Bening, considerada favorita por Mulheres do Século XX, de Mike Mills – reduzido à citação para argumento original.

Ainda assim, este ano há um recorde de nomeações para actores negros, na sequência de todas as polémicas #OscarsSoWhite de 2016: Denzel Washington para melhor actor, Ruth Negga para melhor actriz, Mahershala Ali como melhor actor secundário (por Moonlight) e, na categoria de melhor actriz secundária, Viola Davis por Vedações, Naomie Harris por Moonlight e Octavia Spencer em Elementos Secretos. Este último, Moonlight e Vedações são filmes sobre a experiência negra nos EUA, mais do que compensando a ausência de O Nascimento de uma Nação, o controverso filme de Nate Parker sobre uma revolta negra histórica contra a escravatura revelado em Sundance 2016, posicionado desde o início para dominar os Óscares, mas que, na sequência de uma polémica envolvendo acusações de violação feitas ao realizador, literalmente morreu na praia e não recebeu uma única nomeação.

Também Loving, de Jeff Nichols, sobre a história verídica de um casal no Sul americano nos anos 60 que desafiou as leis sobre o casamento entre brancos e negros, se limitou à nomeação de Ruth Negga para melhor actriz. Este é o único dos filmes nomeados para as principais categorias a não ter estreia prevista para o nosso país. A experiência negra está igualmente presente nas nomeações para documentário: I Am Not Your Negro, de Raoul Peck, sobre o pioneiro escritor e pensador negro James Baldwin, O. J. Made in America, de Ezra Edelman, sobre a vida de O. J. Simpson, e 13th, de Ava du Vernay, sobre a desigualdade racial no sistema prisional americano. Pormenor importante é que estes dois últimos são produções televisivas – O. J., com quase oito horas de duração, foi feito para o canal ESPN, e 13th é uma produção da Netflix (estando, inclusive, disponível em Portugal para visionamento). Os outros documentários nomeados são Fogo no Mar, do italiano Gianfranco Rosi, sobre a crise dos refugiados, e Life, Animated, de Roger Ross Williams, sobre o modo como as animações da Disney ajudam um jovem autista a navegar o mundo.

Uma pequena surpresa é a presença de Hell or High Water – o western moderno do escocês David Mackenzie surge com quatro nomeações, incluindo melhor filme, melhor actor secundário (Jeff Bridges) e melhor argumento original. Outra é a ausência da Pixar nas nomeações de animação – as cinco longas nomeadas incluem duas produções da Disney, Moana e Zootrópolis, a co-produção do Studio Ghibli The Red Turtle, o filme francês Ma vie de courgette e a animação fotograma a fotograma Kubo e as Duas Cordas. O estúdio de John Lasseter surge apenas nomeado na categoria de curta-metragem por Piper, a curta que surgia em complemento de À Procura de Dory.

Os nomeados para melhor filme estrangeiro são O Vendedor, do iraniano Asghar Farhadi, Toni Erdmann, de Maren Ade (que chega às nossas salas a 16 de Fevereiro), o dinamarquês Land of Mine, de Martin Zandvliet, o sueco A Man Called Ove, de Hannes Holm, e o australiano Tanna, de Martin Butler e Bentley Dean.