Opinião

Queriam nacionalismo? Aí o têm

Quem aplicar a maior parte das suas forças a enfraquecer a UE terá décadas para se arrepender mais tarde.

É bom, nestes tempos ruidosos, saber que há discussões que se podem encerrar. Será que Donald Trump se vai moderar na presidência dos EUA? Não. O seu discurso inaugural deixou claro como Trump não tem travão nem marcha-atrás, só acelerador e um ego movido a turbo.

Outra pergunta: qual deve ser a caracterização ideológica do seu movimento? Ouçamos um dos homens que lhe escreveram o discurso de tomada de posse, Steve Bannon: “tratou-se de uma indisfarçada declaração dos princípios básicos do seu movimento populista e nacionalista”.

Assunto resolvido. O nome certo para aquilo que Trump representa é: nacional-populismo. A metade "populista" desse termo é fácil de resumir. O populista é aquele que promove a ideia de que o povo tem apenas uma voz: a sua. O nacionalista acredita que a única forma política capaz de representar essa vontade geral é a da nação, e que o mundo só pode ser ordenado a partir de nações.

O nacionalismo não é, pois, patriotismo. E não é exclusivo da direita. Tal como há libertários e autoritários de esquerda e de direita, há também nacionalistas nas duas áreas políticas. Se você defendeu que “não pode haver democracia para lá do estado-nação” ou que “os cidadãos do mundo são cidadãos de lugar nenhum”, você andou a promover ideias nacionalistas. Se sim, parabéns. Você ganhou por agora. Seja de direita, de esquerda, ou nem-uma-coisa-nem-outra, você ajudou a preparar o terreno conceptual para a vitória do presidente do país mais poderoso do mundo. De brinde, talvez lhe saia a presidente da França.

Talvez você não se reveja nesta descrição porque — como seria de esperar — acredita que é por boas razões que identificou o povo com a nação e as elites com o cosmopolitismo. Que proclamou de algum palanque que “não devemos verter uma única lágrima pela União Europeia”, como nos anos 30 se disse da Sociedade das Nações. Que torceu pelo "Brexit" na esperança de que o Reino Unido alumiasse o caminho contra o neoliberalismo (mas aí já foi ingenuidade demais, ou não?).

Noutros países que não Portugal o processo já foi mais longe, mas vamos atalhar caminho. Não se combate o nacionalismo com semi-nacionalismo, ou com nacionalismo mitigado, ou sendo compreensivo para com as razões de queixa dos nacionalistas. Nos anos 20, as queixas de nacionalistas alemães e italianos eram de não ter espaço para viver sem colonizar os países vizinhos, ou da falta que lhes fazia um império, ou que os judeus (a que os estalinistas chamariam “cosmopolitas desenraízados”) eram um empecilho para o florescimento nacional. As razões de queixa dos nacionalistas de hoje, a começar por trumpistas e defensores do "Brexit", é que os imigrantes são um empecilho e os muçulmanos um horror, que os outros países não fazem as coisas como nós gostaríamos, que a UE é abominável e que não querem ter de obedecer a regras comuns para participar no mercado único ou no sistema internacional. A forma correta de responder não é dizer "sabem, eles até têm uma certa razão". A forma correta de responder é dizer-lhes: as vossas exigências são ilegítimas, inatendíveis e injustas, historicamente incultas e ignorantes, e não vos cederemos um milímetro de espaço ideológico. Continuaremos a afirmar o patriotismo dos direitos humanos, que não seria sequer pensável sem cosmopolitismo, e lutaremos para melhorar (e não enterrar) a UE, que apesar de tudo é a organização internacional onde a cidadania para lá do estado-nação se encontra mais desenvolvida.

Porque é aqui que bate o ponto. Que a alguém passe pela cabeça que, neste momento da história, o seu principal adversário é a União Europeia e o euro, enferma de uma irresponsabilidade apenas comparável à daqueles que nos anos 30 achavam que o problema estava mesmo na democracia burguesa e na Sociedade das Nações. A União Europeia — com a sua indispensável democratização e o seu reforço — é ainda o melhor exemplo de que se pode construir um espaço de cidadania contra os egoísmos destrutivos do nacionalismo. Quem aplicar a maior parte das suas forças a enfraquecer a UE terá décadas para se arrepender mais tarde. Melhor seria que se arrependesse já e arrepiasse caminho a tempo.