O romantismo dos First Breath After Coma tem os pés bem assentes na terra

A música da banda leiriense é feita de divagação pós-rock e catarse de emoções por revelar. Passo a passo, estão a crescer de pequeno culto a banda seguida com fervor, cá dentro. Lá fora, a curiosidade é crescente, como o comprovou a passagem pelo Eurosonic.

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Como medir o sucesso de um concerto em terras estrangeiras? Sabendo que, meia hora depois de este ter terminado, o manager da banda já tinha fechado dois contratos, um para actuação no palco principal de um festival na Suiça, outro para tocar numa sala no Luxemburgo. Foi o que aconteceu aos leirienses First Breath After Coma no último Eurosonic, o festival holandês que é a maior montra de talento europeu, acolhendo 40 mil espectadores e cerca de cinco mil representantes da indústria musical de todo o mundo. Mostraram as canções de Drifter, o segundo álbum, sucessor da estreia The Misadventures of Anthony Knivet (2013), perante as centenas que lotavam o Huis de Breus e a resposta, como se percebe, foi imediata. “Ainda é muito cedo e sabemos que vão surgir mais propostas, mas temos que saber esperar”, diz o vocalista e guitarrista Roberto Caetano ao Ípsilon. Para já, portanto, missão cumprida.

Como medir, de uma forma menos prática, o sucesso de um concerto? Roberto Caetano lembra-se bem daquele rosto na primeira fila da sala em Groningen que foi a montra da sua banda no Eurosonic. Era o de uma sexagenária holandesa que, a início, Roberto julgava ter ido ali parar ao engano. A meio do concerto, quando a vê a lacrimejar, temeu que algo de errado se passasse. Nada de errado. “Ela chorava, mas com um sorriso na cara. No final veio ter connosco e abraçou-nos. Disse-nos que toda a emoção e paixão que estávamos a sentir em cima do palco passou para fora. Agradeceu-nos por ter sentido isso. Podia ter sido a única pessoa naquela sala a ser tocada daquela forma e já tinha valido a pena”.

Romantismo inabalável

Estas duas dimensões, a da resposta emocional à música, e a resposta pragmática dos agentes, cruzam-se e são indissociáveis no percurso dos First Breath After Coma. Com raízes no pós-rock (o nome da banda foi resgatado ao título de uma canção de 2003 dos Explosions In The Sky), mas aberta a outras expressões musicais (os metais atmosféricos dos Beirut, a melancolia intimista dos Sigur Rós, os coros catárticos dos Arcade Fire), a música dos First Breath After Coma vem conquistando, palco após palco, partilha online após partilha online, mais e mais admiradores. Quando deram os primeiros passos, o sonho era tocar no seu festival preferido, o de Paredes de Coura. Este ano lá estiveram, tocando ao final de tarde perante um público que, cenário pouco habitual àquela hora no palco secundário, lotava o espaço – quem lhes viu os concertos, esgotados ou muito bem compostos, das suas datas em salas país fora, não terá sido surpreendido.

Um mês depois, em Setembro, a plataforma Why Portugal?, dedicada à internacionalização da música portuguesa, integrava-os na pequena comitiva de bandas portuguesas presentes no festival Reeperbahn, em Hamburgo. Depois do festival, só tiveram tempo de regressar a casa para meter uma nova muda de roupa na mala e enfiarem-se na carrinha – do concerto em Hamburgo nasceu uma digressão alemã, com passagens por Espanha e França.

Nos First Breath After Coma conjuga-se, de forma exemplar, um romantismo inabalável e uma percepção aguda do que é o meio musical actual e de como agir nele. Um romantismo de pés bem assentes na terra, digamos. Concentram-se totalmente na sua música, que Roberto Caetano define como “uma constante procura para encontrar a nossa verdadeira identidade” – algo de íntimo, portanto, de si para si. Ao mesmo tempo, querem que essa procura seja algo que toque quem os ouve, que seja ouvida e partilhada o mais possível. Nesse sentido, é decisiva a união com a Omnichord Records, a mui activa editora independente leiriense em cujo catálogo, além dos First Breath After Coma, encontramos nomes como Nice Weather For Ducks, Twin Transistors, Les Crazy Coconuts ou André Barros (pianista que é um dos convidados em Drifter – outro é Noiserv). Segundo o vocalista, a editora é sintomática das mudanças que, desde há alguns anos, se sentem na cidade em que nasceu. “Leiria tem uma onda criativa desde sempre e uma enorme panóplia de estilos”, como se comprova, refere, pela diversidade do catálogo da Omnichord Records. “Muitas vezes os projectos não têm capacidade para se manterem durante tempo suficiente porque não há quem trabalhe aquilo que é necessário para além da parte criativa”. Ou seja, todas as questões burocráticas, relacionadas com promoção ou agenciamento. “Essa é a grande diferença entre a Leiria de há uns tempos e a de agora”.

Na Omnichord, fundada por Hugo Ferreira, também manager dos First Breath After Coma, a banda encontrou a estrutura que lhe permite pensar exclusivamente em compor e gravar música. “Até costumamos brincar com isso e dizer que fazemos o mais fácil. Só fazemos música e aparecemos para tocar música”. Não só, claro. Sendo uma editora independente que representa, inevitavelmente com recursos limitados, cerca de 15 bandas, cabe a estas organizarem-se para conseguirem aquilo que ambicionam e que a editora não pode providenciar. Foi o que fizeram os First Breath After Coma quando se lançaram no processo de gravação de Drifter. Os lucros das digressões tinham sido investidos no material que viram como imprescindível para chegar à nova música que pretendiam criar. Viraram-se então para o crowdfunding e foi através desse formato de angariação de fundos através de doadores online que reuniram (e ultrapassaram) o orçamento necessário à gravação do segundo álbum.

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Nos First Breath After Coma conjuga-se, de forma exemplar, um romantismo inabalável e uma percepção aguda do que é o meio musical actual e de como agir nele

A editora é independente e não há apoios institucionais, logo não chove propriamente dinheiro, aponta Roberto Caetano. Resta, portanto, as bandas tomarem a iniciativa. O crowdfunding, refere, é uma forma de o fazer. “As pessoas da Omnichord não estão a ganhar dinheiro nenhum com isto, nós também não, mas estamos a fazer as coisas acontecer. Esse é o bonito da situação”. Lançar as sementes para que algo frutifique mais tarde. Algo que, como mostra vida recente da banda dentro e fora de portas, como mostra a passagem pelo Eurosonic, já está a acontecer.

Gritar o que se cala cá dentro

Os First Breath After Coma existem enquanto tal há cinco anos, mas a sua história é mais antiga. Como tantas bandas, começaram por ser um grupo de adolescentes a divertirem-se com versões de outros. Mas eram “um bocado estranhos nesse circuito”, confessa Roberto. Tocavam excentricidades como Joy Division, Strokes ou Neil Young e as consequências fizeram-se sentir com estrondo. Certo dia, contratados para aguentar a noite depois de um concerto da cantora e actriz Anabela, acabaram expulsos de palco por não darem ao público o que o público queria ouvir. “Foi o ponto de viragem”. Recolheram à sala de ensaios, ouviram discos atrás de discos, pararam nos Explosions In The Sky, experimentaram e experimentaram mais e avançaram pós-rock dentro. Um ano depois do recolhimento, tinham definido um som e um rumo. Queriam o sentido de viagem, de divagação, que suscitam os planares pós-rock. Queriam explorar uma melancolia que não fosse porta de entrada em depressiva insularidade, mas uma sublimação desse sentimento em algo esperançoso. Queriam, como repetirá Roberto, utilizar a música como forma de se descobrirem, de comunicar aquilo que a timidez na vida de todos dias cala cá dentro. “Não somos pessoas de exteriorizar muito os sentimentos. Mas em cima de um palco ou na sala de ensaios, sentimos necessidade de cantar, de gritar, de expressar qualquer coisa. Algumas música só têm um berro e nada mais, mas mesmo nesses casos é a forma que encontramos de melhor pôr cá fora o que guardamos dentro de nós”.

O primeiro álbum, The Misadventures of Anthony Knivet, tinha como pano de fundo a incrível história de um corsário inglês que acabou cativo da Coroa portuguesa no Brasil. Escapou e viveu entre uma tribo índia antes de regressar a Inglaterra, onde escreveu o relato das suas aventuras. “Era a metáfora perfeita para explorarmos. Era o nosso primeiro álbum e, portanto, não sabíamos o que os índios, o mundo lá fora, ia pensar de nós. Éramos nós a pisar terreno inexplorado”. Com esse álbum, criaram um pequeno culto dentro de portas e chamaram a atenção de alguma imprensa especializada estrangeira. Três anos depois, em Maio de 2016, Roberto Caetano, Telmo Soares, Rui Gaspar, João Marques e Pedro Marques editaram Drifter. “Representa aquilo que sentimos ao criar música”, diz o vocalista da banda. “Um drifter [‘vagabundo; pessoa sem ocupação fixa’] é alguém que não está bem em lado nenhum e que vagueia por todo o lado em busca de si próprio”. Foi o que os First Breath After Coma encarnaram no segundo álbum.

Saíram à rua de gravador na mão e recolheram os sons mais diversos, do chilrear de pássaros à correnteza de cursos de água, de crianças em correria no recreio a pedras caindo com estrondo no chão. Descobriram a música electrónica do alemão David August em Berlim e começaram a dedicar tempo ao estudo e à investigação de como adaptar aquele tipo de linguagem musical às suas canções. Juntaram as duas coisas e, enquanto as vozes se uniam em harmonias épicas, enquanto as guitarras serenavam em dedilhados ou cresciam em turbilhão sónico, enquanto criavam os arranjos de metais e de teclados que pontuam a sua música, manipulavam electronicamente os sons registados na rua para criar novas camadas sonoras. “É isso que dá textura, que torna o álbum táctil. Tentamos que a música seja uma experiência mais completa. É isso que procuramos quando ouvimos música e é isso que queremos passar na nossa música”. Poucos minutos depois, Roberto dirá isto que transcrevemos: “Cada álbum é uma página na história da nossa viagem. Representa mais uma etapa que percorremos e que queremos mostrar. É a nossa descoberta contada a todos”. Passo a passo, românticos inveterados de pés bem assentes na terra, os First Breath After Coma estão a descobrir que há cada vez mais gente a querer ouvir a história que têm para contar. Cá dentro e lá fora.