Perguntas e Respostas

Como actuar num cenário de contaminação radioactiva a partir de Almaraz

Como actuar num cenário de contaminação radioactiva a partir de Almaraz

LUSA/NUNO VEIGA
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LUSA/NUNO VEIGA

Como é que as autoridades nacionais se preparam para um cenário de eventual acidente na central de Almaraz?
A intervenção em emergências radiológicas ou nucleares está enquadrada pela Directiva Operacional Nº 3, que identifica todas as entidades que devem actuar no terreno, sob comando da Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC). O documento reparte responsabilidades de coordenação da acção no terreno entre a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), a Direcção-Geral de Saúde e o Instituto Superior Técnico. Elaborada para garantir uma “adequada, eficaz e expedita mobilização de meios e recursos” passíveis de responder às acções de protecção e socorro, a directiva foi elaborada em Outubro de 2010 e está desactualizada, nomeadamente porque remete para instâncias como os governos civis, entretanto extintos. Ao PÚBLICO o comandante nacional operacional da Protecção Civil, Rui Esteves, reconhece que faria sentido actualizar o documento, mas que desacertos como o referido “não comprometem a actuação no terreno. A APA garante que só em 2016 foram organizados cinco exercícios nacionais envolvendo todas as entidades que concorrem para a resposta a emergências radiológicas e nucleares.

Que tipos de emergência radiológicas podem ocorrer?
Uma emergência relacionada com instalações nucleares como a de Almaraz pode abranger uma vasta área quando há libertação de grandes quantidades de substâncias gasosas e de partículas radioactivas para a atmosfera. Estas poderão ser transportadas como uma nuvem e podem depositar-se no solo ao longo da sua trajectória. As condições meteorológicas são o grande determinante de onde e quando são necessárias medidas de protecção. Se a velocidade do vento é de nove metros por segundo, a nuvem levará 3 horas a percorrer 100 quilómetros – a distância à fronteira portuguesa da central nuclear de Almaraz. É também o vento, pela sua direcção, que determina qual a área que será contaminada. A chuva é outro factor determinante de maior ou menor contaminação, pois ela provoca a “lavagem” da nuvem e consequente maior e mais rápida deposição das substâncias radioactivas. Depois da passagem da nuvem, as substâncias radioactivas ficam depositadas no terreno, edifícios, culturas, etecetera, sendo que o onde e o quanto dependem igualmente da ocorrência ou não de chuva.

No tocante à contaminação pelas águas, a radioactividade pode chegar ao consumo humano por via dos depósitos em cultivos de rega, dos peixes, da acumulação de iodo em areias e argilas ou pela irradiação externa durante actividades recreativas como natação ou pesca desportiva.

Como actua a radioactividade?
As matérias radioactivas estão em permanente transformação, emitindo radiações portadoras de energia que podem modificar e destruir as células do corpo humano. No local de um acidente, um indivíduo pode receber uma dose tão elevada que sofra danos graves e imediatos: destruição de inúmeras células, vómitos e até a morte. Vários anos após um acidente grave, pode verificar-se um aumento do número de casos de cancro e de distúrbios hereditários.

Qual é o risco para Portugal?
A ANPC considera que a probabilidade de ocorrência de um acidente na central nuclear de Almaraz, a mais próxima de Portugal, com consequências para o território nacional “é baixa”. Os cenários de base utilizados pela protecção civil espanhol apenas consideram a necessidade de implementação de medidas de protecção num raio até 30 km da central, considerando “a experiência colhida em emergências recentes, designadamente o acidente nuclear de Fukushima, no Japão, em 2011”, onde “a evacuação efectuou-se genericamente num raio de 30 km, não excedendo os 50 km na direcção de maior contaminação, e não tendo a zona de segurança ultrapassado os 100 km”, escreve a ANPC. Já a APA lembra que “acidentes em instalações estrangeiras do ciclo nuclear representam um perigo real com efeitos que se podem fazer sentir a grandes distâncias” e lembra que em Espanha estão em funcionamento 7 centrais nucleares, num total de 9 unidades, e outras instalações do ciclo de combustível nuclear, o que exige uma atenção cuidada para um potencial acidente nessas instalações. Até à data, e tanto quanto se sabe, os incidentes ocorridos em Almaraz não foram além do grau de perigosidade 1, numa escala de 0 a 7.

Como é feita a monitorização?
Portugal tem uma rede de monitorização de emergência (RADNET) de alerta de radioactividade no ar ambiente, medindo em contínuo a radiação gama no ar. Além das 13 estações instaladas no território nacional, na base aérea de Talavera La Real, em Badajoz, encontra-se também instalada uma estação fixa. Além disso, a RADNET inclui uma estação imersa na Barragem do Fratel para monitorização em contínuo da radioactividade nas águas do Rio Tejo, garante a APA, para acrescentar que os dados da RADNET encontram-se disponíveis em permanência através do Sistema Nacional de Informação de Ambiente no sítio: http://radnet.apambiente.pt/ , sendo actualizados a cada duas horas.

Que medidas de protecção estão ao alcance das pessoas?
A APA sublinha que “é totalmente errada” a opinião de que uma emergência nuclear muito grave será de tal modo devastadora que se torna inútil qualquer medida de protecção. Mesmo após um acidente muito grave numa instalação nuclear, a exposição a radiações de substâncias presentes na atmosfera, no solo ou alimentos poderão ter um efeito retardado na saúde. Assim, e porque o grau de risco está relacionado com o grau de exposição que sofre, a APA aconselha as pessoas a permanecerem dentro de casa (ou no local de residência, escola, local de trabalho) durante um determinado período. E desaconselha a distribuição e o consumo de alimentos que possam ter ficado contaminados por via da deposição de substâncias radioactivas no solo. Quanto ao gado (bovino, ovino e caprino) deve ser proibido o pasto, substituindo-o pelo recurso a forragens. A ANPC especifica ainda que, em caso de aviso, as pessoas não devem sair para ir buscar as crianças às escolas. E que devem colocar camadas de papel de jornal ou panos húmidos nas frestas das janelas e portas para reduzir a entrada de ar e evitem consumir legumes e fruta colhidos recentemente.

Justificar-se-ia a pré-distribuição de pastilhas de iodo pela população potencialmente mais directamente afectada?
O iodo radioactivo tende a concentrar-se preferencialmente na tiróide e a sua incorporação na tiróide aumenta o risco de desenvolvimento de cancro nas pessoas expostas. A ingestão de iodo estável (sob a forma de comprimidos de iodeto de potássio - KI) é uma contramedida protectora, dado que, se as pessoas saturarem a tiróide com iodo estável, evitam ou minimizam a absorção do iodo radioactivo. Para uma protecção mais eficaz contra o iodo radioactivo inalado, o KI deve ser administrado seis horas ou menos antes da inalação ou pouco após a exposição. Mas a APA sustenta que apenas se recomenda a distribuição prévia de KI para a população localizada nas imediações de uma central nuclear, num raio de 5 a 30 km. Como complemento, tendo em conta a elevada sensibilidade das crianças em relação ao iodo, há estudos que recomendam, “numa perspectiva muito conservadora”, segundo a APA, a existência de reservas de iodo estável em todos os hospitais com maternidades, jardins-de-infância e escolas numa área até aos 100 km de centrais nucleares. No entanto, estudos realizados na sequência de acidentes nucleares apontaram também factores que condicionam a eficácia da distribuição preventiva de iodo, nomeadamente: a distribuição apenas a parte da população afectada, a mobilidade da população, a perda de comprimidos, a dificuldade na armazenagem, garantir o prazo de validade dos comprimidos e a sua ingestão inadvertida. Actualmente, o iodo estável é pré-distribuído apenas em torno de centrais nucleares em 14 países da União Europeia, variando a área de pré-distribuição entre 5 e 50 km de raio em torno de uma central. Até porque a administração de iodo estável também poderá ter efeitos secundários para a saúde de quem é submetido à profilaxia (hipertiroidismo ou hipotiroidismo, vómitos, erupções cutâneas, dores de estômago e cefaleias).

Fontes: Agência Portuguesa do Ambiente e Autoridade Nacional de Protecção Civil