Equipa de Trump acusa media de tirarem legitimidade ao Presidente

A tomada de posse de Donald Trump foi a quinta mais vista de sempre na televisão, mas os números de participação na cerimónia ficaram aquém do esperado. A secretária de imprensa do Presidente diz que tem "números alternativos".

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Uma comparação entre as multidões em 2017 e 2009, à esquerda e à direita, respectivamente Reuters/STAFF
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A multidão no dia da tomada de posse SHANNON STAPLETON/Reuters
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A multidão no dia da tomada de posse JAMES LAWLER DUGGAN/Reuters
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A multidão no dia da tomada de posse SHAWN THEW/LUSA
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A multidão nas ruas no dia da tomada de posse CJ GUNTHER/LUSA/
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A multidão no dia da tomada de posse SHAWN THEW/LUSA/

O Presidente dos EUA, Donald Trump, envolveu-se numa guerra que não chega bem a ser de números com os media sobre as reportagens do dia da sua tomada de posse, afirmando que um milhão e meio de pessoas estiveram no Mall de Washington para o aclamar. As imagens dos fotojornalistas e das câmaras de televisão indiciam que não será o caso, mas o seu chefe de gabinete, Reince Preibus, diz que os os media estão a atacá-lo e promete lutar.

"Desde o primeiro dia que os media estão a falar em tirar legimidade à eleição", afirmou Priebus numa entrevista esta amanhã ao programa Fox News Sunday. "Não vamos ficar sentados a ver isto acontecer", prometeu.

Já Kellyanne Conway, secretária de imprensa da Casa Branca, foi ao programa Meet the Press da NBC defender que a equipa da Casa Branca tem "factos alternativos". Chuck Todd, o apresentador, não foi suave na resposta. "Factos alternativos não são factos. São falsidades."

O assunto foi levantado pelo próprio Donald Trump no sábado, numa visita à sede da CIA no sábado. Foram usadas imagens "de um campo vazio", disse o Presidente, para dar a imagem de uma tomada de posse pouco concorrida.

O novo porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, usou a primeira conferência de imprensa oficial para criticar os media sobre a cobertura da tomada de posse. Virulento, Spicer garantiu que tinha sido "a maior audiência de sempre a testemunhar uma tomada de posse" presidencial, "ponto final. Tanto em pessoa quanto à volta do mundo". Fê-lo sem sustentar a afirmação com qualquer dado.

Sean Spicer referiu a tese de manipulação, dizendo que as fotografias publicadas foram enquadradas "para minimizar o enorme apoio que se juntou no National Mall". Referia-se, cita a rádio pública NPR, a "um tweet em particular", que não identificou.

As imagens de satélite, obtidas a partir do mesmo ponto de vista, quer em vídeo quer em fotografia, das posses de Obama em 2009, tida como histórica, e a de Trump em 2017, mostram um Mall cheio contra um Mall a dois terços da sua capacidade.

Mas entretanto emergiu outro número sobre a tomada de posse de sexta-feira – o das audiências televisivas. Não bateu a de Obama em 2009, mas ultrapassou a do segundo mandato de Obama em 2013. Foi na verdade a quinta mais vista desde que são feitas medições. Os números da Nielsen, divulgados no sábado, dão à tomada de posse de Donald Trump 30,6 milhões de espectadores, tornando-a um dos acontecimentos mais populares do ano televisivo.

Os dados permitem aferir que a maior parte dos espectadores que acompanharam o dia em directo esteve com o canal de notícias de inclinação conservadora Fox News e que o grupo mais representado foi o de pessoas com mais de 55 anos. Foram analisados os dados de 12 canais de televisão, em sinal aberto e da televisão por subscrição, não só em inglês mas também os canais latinos Telemundo ou Univision. 

A tomada de posse mais vista nos registos da empresa é a de Ronald Reagan, em 1982, que congregou 41,8 milhões de pessoas, sendo que em 2009, a inauguration de Barack Obama, o primeiro Presidente afro-americano da história do país, juntou uma média de 37,7 milhões de pessoas. Seguiram-se as do democrata Jimmy Carter (34,1 milhões), Richard Nixon (33 milhões) e a de Trump, ficando logo atrás as de Bill Clinton (29,7 milhões), em 1993, e George W. Bush, em 2001 (29 milhões de espectadores). 

Quanto ao número de pessoas que estiveram no Mall de Washington para assistir à sua tomada de posse e ao seu primeiro discurso, os números não abundam. 

O New York Times  falou com Keith Still, professor na Universidade Metropolitana de Manchester (Reino Unido) e consultor de segurança para eventos públicos de grande dimensão (como o casamento real do príncipe William ou das peregrinações a Meca), que estima que no dia 20 esteve um terço da multidão que compareceu para a posse de Barack Obama em 2009. As imagens das agências de notícias que circulam na Internet e a que a imprensa tem acesso, como as da AFP que o diário americano usa, foram captadas à mesma hora em 2009 e 2017, e quando as multidões ainda se juntavam para o evento. 

Sean Spicer falou com os jornalistas mas não abriu espaço para perguntas, avisando que a imprensa "será responsabilizada". Referiu o número de 1,5 milhões de pessoas. No entanto, segundo a BBC algumas estimativas dos media apontaram para 250 mil presentes na manhã de sexta-feira na capital dos EUA; houve algumas comparações entre a afluência das tomadas de posse anteriores e esse terá sido o motivo da indignação da equipa de Trump.

O porta-voz de Trump indica ainda que as medidas de segurança reforçadas e algumas zonas remodeladas da grande avenida, em que se destacariam pedaços de piso de cor branca, contribuíram para a menor afluência e para a aparência de menor densidade da multidão.. Uma jornalista da CNN mostrou imagens captadas em 2013 desse revestimento branco.

A contagem de multidões por estimativa é uma área sensível em termos de precisão e, como recorda a televisão britânica no seu site, sem haver dados concretos sobre quantas pessoas estiveram nas tomadas de posse anteriores, as estimativas apontam para 1,8 milhões de pessoas em 2009 e um milhão em 2013. 

O New York Times faz um apanhado detalhado da forma como se contaram as multidões reunidas em Washington desde Abraham Lincoln.