A marcha contra Trump transformou-se num festival pela democracia

Uma imensa mancha cor de rosa inundou a baixa de Washington. Centenas de milhares de homens e mulheres dançaram, cantaram, gritaram palavras em defesa dos direitos civis no mesmo sítio onde um dia antes Donald Trump se tornou presidente da América. É a democracia a acontecer, disse quem lá foi.

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John Kerry, em Washington Reuters/BRIAN SNYDER
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Marcha em Estocolmo, Suécia EPA/PONTUS LUNDAHL
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Bengaluru, Índia Reuters/ABHISHEK CHINNAPPA
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Florença, Itália EPA/MAURIZIO DEGL' INNOCENTI
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Suíça EPA/SALVATORE DI NOLFI
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Praga, República Checa EPA/MARTIN DIVISEK
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Berlim, Alemanha Reuters/HANNIBAL HANSCHKE
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Paris, França Reuters/JACKY NAEGELEN
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Londres, Reino Unido Reuters/NEIL HALL
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Noruega LUSA/STIAN LYSBERG SOLUM
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Madonna, em Washington Reuters/SHANNON STAPLETON
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Começaram a chegar na tarde de quinta-feira, pontuando as ruas de Washington DC de vários tons de rosa, a cor dos gorros de tricot, pussy hats, com duas pontas a simular orelhas de gato. Era a resposta ao desafio lançado pelas organizadoras da Marcha das Mulheres na semana de Acção de Graças, no final de Novembro. Que as manifestantes no protesto contra o discurso sobre as mulheres que marcou parte da campanha de Donald Trump tricotassem os seus gorros.

Jeff tira o seu gorro da cabeça. “Fui eu que o tricotei; a minha mulher fez o dela e eu tentei fazer o meu. Não ficou mal, pois não?” Mary sorri, explica como começou a sua viagem desde Nova Iorque: “Achei graça ao apelo de fazermos alguma coisa com as nossas mãos para combater uma campanha que foi ofensiva e que venceu mas não ganhou o voto popular. É assim que o nosso sistema funciona. Não é quem tem mais votos que ganha, mas quem elege mais representantes para o Congresso. Eles ganharam aí, mas a maioria somos nós, os americanos, estamos aqui, a tomar a luta nas nossas mãos.”

Era véspera da tomada de posse em DC, e Jeff era um dos pontos rosa a caminhar por um passeio no centro da cidade. Simboliza aquilo em que a marcha se tornou nete sábado, com proporções que ultrapassaram as expectativas das suas organizadoras: uma gigantesca manifestação de homens e mulheres em defesa dos direitos civis e contra a política de Donald Trump.

Estima-se que se reuniram em Washington mais de 500 mil pessoas - estimativas da polícia ao início da manhã. Foram, certamente mais do que as presentes no mesmo local no dia anterior para celebrar a tomada de posse de Donald Trump. Os organizadores chamaram-lhe “o espectáculo da democracia”, uma marcha tão compacta que se tornou difícil marchar. Dois dias depois, sábado, Jeff e Mary perdem-se na imensa mancha rosa em que se tornou a baixa de Washington numa manhã cinzenta em que a cidade parece envolta numa nuvem que molha tudo.

Lutar pelo futuro

Homens, mulheres, crianças, novos e velhos, exibem cartazes que reflectem a diversidade de causas em que se tornou aquela que começou por ser a marcha das mulheres. É pelos direitos das mulheres, mas também dos imigrantes, dos ilegais, dos homossexuais, dos negros, um combate contra as alterações climáticas e defesa do ambiente, contra a expulsão de muçulmanos, pela inclusão.

Uma rapariga vestida de cartão com a frase Girl’s Fight pula enquanto Alicia Keys canta o refrão de This Girl is on Fire no palco montado junto ao National Museum of Indian Art, num dos extremos do Mall. Por lá já passaram Michael Moore, Scarlett Johanson. Um homem irrompe na cada vez mais compacta massa de pessoas. Say No to a Muslim Registry, lê-se no cartaz que leva bem alto. Todos aplaudem. Vêem-se nomes de políticos, Bernie sanders, Hillary Clinton, Barack Obama, mas há quem sublinhe “esta não é uma marcha partidária ou anti-partidária”.

Há muito ruído, as palavras de ordem sucedem-se. Outro homem grita, menos audível, mas desafiador da multidão que vai enchendo o espaço onde no dia anterior passou a parada presidencial. Ao megafone grita aos “pecadores mortais”, aqueles que – ouve-se – “desafiam a lei de Deus” e “estão condenados ao Inferno”: bêbados, homossexuais, mulheres que abortam, adúlteros, ladrões, fornicadores, bruxas idólatras... 

Ali mesmo, uma mulher baixa-se enquanto segura as mãos das três crianças que estão com ela: “Acho que este vai ser um dia muito feliz. Estamos aqui para fazer uma festa, a festa onde todas as pessoas são iguais, têm os mesmos direitos. Um dia vocês vão lembrar.se disto. Estamos aqui pelo futuro do nosso país, entenderam?” Eles acenam e todos seguem. E com eles seguem muitos outros em muitos sentidos, mas a maioria em direcção ao palco onde desfilam mais discursos de personalidades da política, das artes.

Ninguém sabe quem se seguirá e esse secretismo atrai. Ouvem-se gritos como nos concertos, o ambiente é de um grande festival. Amanda, 35 anos, não era para estar ali. “Decidi vir ontem depois de ouvir o discurso de Trump. É o meu protesto, a minha indignação.”

Han mostra o crachá que leva pregado ao gorro: Stand United. É chinesa, conta que esteve em Tiananmen, “vim trabalhar para os Estados Unidos e estudei e fiquei. Sei o que é viver uma ditadura e não quero mais isso”. Veio com amigos, americanos. Vivem nos subúrbios de Washington, onde nessa manhã havia filas de espera de mais de uma hora para comprar bilhetes de Metro. Ninguém desesperava. Comparavam-se cartazes, celebrava-se a criatividade dos outros com abraços e fotografias de grupos formados mesmo ali.

Patriotismo de Twain

Helen estava a ser muito solicitada. Tinha uma tela branca com uma citação de Mark Twain: “Patriotismo é apoiar sempre o teu país, e apoiar o teu Governo quando ele merece”, reacção ao patriotismo virado para dentro de Trump, "que exclui", explica Helen.

Chegaram a tempo, todos perceberam que havia tempo e essa foi outra surpresa. Todas as ruas que levavam ao Mall enchiam-se, os cafés e restaurantes tinham filas, quem vinha estava para ficar. Alguém grita “Trump, Trump” da varanda de um prédio. Quem marcha responde “No, No,” e começa uma espécie de cantiga ao despique onde já se ouvem pandeiretas.

“Esta marcha é por nós, não é contra ninguém”, diz um rapaz enquanto apanha os óculos que caíram no chão. Tem nas mãos um cartaz com as palavras “Civil Rights”. Dizem-se muitas coisas, cabem todos os discursos no Mall no dia seguinte à tomada de posse. Esse dia foi escolhido simbolicamente, “o primeiro de uma política para combater”, refere Paul, 50 anos, de Washington, “a cidade que Lincoln escolheu para capital”, continua.

Repetem-se palavras. Revolução, mudança, democracia, diversidade, união, solidariedade numa marcha que teve muitas réplicas: 600 em 600 cidades do mundo.