Papa Francisco alerta para o perigo dos salvadores que nos defendem com “muros”

Francisco pede para se dar tempo a Trump, mas deixa avisos importantes.

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BRENDAN SMIALOWSKI

O Papa Francisco espera para ver o que vai fazer Donald Trump como Presidente dos EUA, mas numa entrevista ao El País deixa um alerta que encaixa em algumas ideias defendidas pelo novo inquilino da Casa Branca. O líder da Igreja Católica alerta para o perigo de em tempos de crise as pessoas procurarem salvadores que nos “defendem com muros”.

“Em momentos de crise, não há discernimento, o que para mim é uma referência contínua. [Há o risco de] procurarmos um salvador que nos devolva a identidade e nos defenda com muros, vedações ou que for, de outros povos que nos possam tirar a identidade. E isso é muito grave. Por isso, procuro sempre dizer: dialoguem entre vós”, diz o Papa na entrevista ao El País.

“O caso da Alemanha em 1933 é típico: um povo estava em crise, procurou a sua identidade e apareceu um líder carismático que prometeu dar-lhe identidade. Deu-lhe uma identidade distorcida e já sabemos o que se passou”, avisa o Papa.

Francisco comentou ainda o discurso nacionalista sobre o controlo de fronteiras. “As fronteiras podem ser controladas? Sim, cada país tem direito a controlar as suas fronteiras, quem entra e quem sai. E os países que estão em perigo – de terrorismo e coisas desse estilo – ainda têm mais direito, mas nenhum país tem o direito a privar os seus cidadãos do diálogo com os vizinhos”.

Questionado directamente sobre Donald Trump e o seu discurso na tomada de posse, Francisco disse que prefere esperar: “Não gosto de me antecipar aos acontecimentos, nem de julgar as pessoas antes de tempo. Veremos o que faz Trump e aí formarei a minha opinião”.

Francisco mostra-se ainda preocupado com o actual estado do mundo. “Estamos na III Guerra Mundial aos bocadinhos. E ultimamente fala-se de uma possível guerra nuclear como se fosse um jogo”, diz o Papa, mostrando-se igualmente preocupado com a “desproporção económica”: “que um pequeno grupo da humanidade tenha mais de 80% da riqueza, com o que isso significa, e onde no centro do sistema económico está o deus dinheiro e não o homem, a mulher, o humano.”

Numa entrevista em que revela que não vê televisão desde 1990, o Papa mostra-se disponível para visitar a China – “desde que seja convidado”.

Volta a alertar para a crise dos refugiados (“que o Mediterrâneo se tenha convertido num cemitério tem de nos fazer pensar”). E alerta para a necessidade de a Igreja estar próxima das pessoas – o que mais o preocupa, diz, “é a Igreja anestesiada, longe dos problemas das pessoas.”