Em dia de aniversário, o Rivoli mostra as entranhas

Tiago Guedes convidou o designer e investigador Nuno Coelho a conceber um projecto centrado no arquivo do agora teatro municipal. O resultado é a exposição 5.º Caderno, que se inaugura este sábado.

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nelson garrido

Quando o investigador e designer gráfico Nuno Coelho, professor na Universidade de Coimbra, foi convidado pelo director do Teatro Municipal do Porto, Tiago Guedes, a trabalhar o arquivo do Rivoli, “não fazia ideia”, segundo ele próprio confessa, “do que ia encontrar”. E foi a partir do que foi descobrindo que começou a desenhar-se o projecto a que chamou 5.º Caderno, e que se inaugura este sábado, às 17h30, no foyer do terceiro piso, assinalando o 85.º aniversário da sala portuense.

Da sua primeira conversa com Tiago Guedes, o investigador, que já desenvolvera projectos originais com outros arquivos, como o da Saboaria e Perfumaria Confiança ou o da mítica fábrica de lápis Viarco, reteve uma palavra que o director do Rivoli usou, não tanto para orientar o projecto, mas para precisar o seu objecto: “entranhas”. E parte do que a exposição 5.º Caderno mostra são mesmo as entranhas do Rivoli, materiais que fizeram parte da vida do teatro, mas que o público não vê, de trocas de correspondência administrativa a imagens das salas onde este arquivo se vai aglomerando desde que o teatro reabriu após a profunda remodelação de 1995-1997.

Mas Nuno Coelho quis também mostrar as entranhas do percurso que desembocou nesta exposição, cujo título evoca o projectado, mas nunca publicado, número 5 da série dos Cadernos do Rivoli, dirigidos por Isabel Alves Costa. 5.º Caderno é ao mesmo tempo uma exposição e uma publicação com o mesmo nome, que o público pode levar para casa. Peça central da própria exposição, reproduz em fac-símile o dossier onde Nuno Coelho encontrou os materiais que chegaram a ser reunidos e preparados para o referido número 5 dos Cadernos do Rivoli, incluindo os textos que nele teriam figurado.

O investigador inclui ainda nesta publicação um texto em que descreve os sucessivos passos da sua investigação, da leitura da bibliografia existente à "deambulação pelos locais exteriores ao teatro onde estão depositados vestígios da sua actividade", do Arquivo Municipal do Porto, na Casa do Infante, que recebeu todo o espólio do Rivoli quando foi preciso desocupar o edifício para a remodelação de 1995-1997, projectada pelo arquitecto Pedro Ramalho, ao antigo Matadouro — onde só encontrou um palco da era de Filipe la Féria —, ou a espaços que receberam mobiliário do Rivoli, como o Teatro do Bolhão ou o Balleteatro.

Procurando condensar num pequeno espaço central materiais que se encontram dispersos por vários locais, Coelho criou uma mesa quadrada em contraplacado — um material cuja crueza contrasta com a sumptuosidade do foyer —, sobre a qual dispôs uma estante metálica recheada de programas, dossiers de imprensa, rolos com cartazes ou cassetes vídeo, objectos que não foram escolhidos por critérios de eficácia estética, que tenderiam a secundarizar aquilo que se quer ver sublinhado: a sua condição de fragmentos de um arquivo. Pousados sobre a mesa, vêem-se aindalivros sobre o Rivoli, o já referido 5.º Caderno, ou um par de computadores antigos exibindo documentários que mostram o teatro antes e durante as obras de 1995.

Se 5.º Caderno recusa uma dimensão historicista, o texto em que o autor evoca os sucessivos passos da sua investigação acaba por traçar uma sucinta história do Rivoli, com referências ao Teatro Nacional que o antecedeu no mesmo local, passando pela sua inauguração já como Rivoli em 1932, e depois por vários outros momentos em que a sala sofreu intervenções por motivos diversos. Um percurso tumultuoso que inclui a sua decadência nos anos 80, quando chegou a ser uma danceteria, a sua aquisição pela Câmara nos anos 90, quando ressurgiu sob a direcção de Isabel Alves Costa, ou a sua entrega, em 2006, a uma empresa privada, quando Rui Rio era presidente da Câmara.

Esta história cheia de interrupções é também simbolizada nesse interrompido número 5 dos Cadernos do Rivoli. Quando começou a investigar, Nuno Coelho cruzou-se com referências ao caderno, mas não sabia se sobrevivera. Dirigido por Isabel Alves Costa e pelo encenador e professor Paulo Eduardo Carvalho, ambos já desaparecidos, seria dedicado às Novas Cenografias e incluiria textos de seis companhias que tinham estreado peças no Pequeno Auditório do Rivoli: Visões Úteis, Ensemble, Assédio, Teatro Bruto, Teatro Plástico e Nuno Cardoso, do Ao cabo Teatro.

"Quando encontrei o caderno, foi para mim um momento muito forte", confessa o investigador. E se esse momento não tivesse existido, o mais certo é que estivéssemos agora a ver uma exposição muito diferente.