"Não sei e nunca vou saber o que é a música portuguesa"

Como não sabe, Tiago Pereira, do portal "A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria", regista-a continuamente. O portal torna-se agora um site e será apresentado este sábado, às 17h, com o livro O Povo que Ainda Canta, no Teatro da Trindade. Espera-se uma festa popular, espontânea.

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Tiago Pereira em Caçarelhos filmando Adélia Garcia, a grande cantadeira, que Giacometti já registara, desaparecida no início deste mês DR

“Não sei e nunca vou saber o que é a música portuguesa”, diz Tiago Pereira. À primeira vista, a afirmação pode soar inesperada. Falamos, afinal, do co-fundador e dinamizador do portal “A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria” (MPAGDP), imenso trabalho de recolha musical alargado a todas as expressões musicais de todo o país cujo arquivo, obra colectiva de vários realizadores, agora organizado num site disponível a todos, alojado em http://amusicaportuguesaagostardelapropria.org/, que terá apresentação oficial este sábado, às 17h, no Teatro da Trindade, em Lisboa (a entrada é livre).

Falamos de um videasta responsável pela realização de O Povo Que Ainda Canta, série emanada da MPAGDP e do programa na Antena 1 com o mesmo título, emitida pela RTP2 entre Janeiro e Julho de 2015, e que nos levou a viajar pelos quatro cantos do país e pelas regiões autónomas ao encontro de uma diversidade de músicas e gentes, de paisagens e mitos inspiradores – a série surge editada pela Tradisom num livro homónimo que reúne oito DVD com todos os episódios, bem como o registo fotográfico das gravações e textos de contextualização das mesmas.

Tiago Pereira, que registou o primeiro vídeo para a MPAGDP em 2011, anda há seis anos à volta desse Povo que Ainda Canta (o título aponta para os históricos programas que o etnomusicólogo Michel Giacometti dirigiu para a RTP nos anos 1970, O Povo Que Canta). De Tiago Pereira, que há muito se dedica à investigação da tradição musical portuguesa, assinando enquanto realizador filmes como Tradição Oral Contemporânea ou Sinfonia Imaterial, e actuando, ao lado de Sílvio Rosado, num projecto de recontextualização electrónica de recolhas chamado Sampladélicos; deste homem nascido em Lisboa em 1972, dizíamos, não esperaríamos a confissão de que não sabe o que é a música portuguesa. Ora, é precisamente essa consciência que o faz correr, é esse permanente questionar que o leva ao Algarve para registar as onomatopeicas trava-línguas de fazer corar rappers feitos, que o leva à praia da Tocha para ouvir o som aberto de uma concertina, aos Açores para registar “o rock’n’roll da música tradicional”, o baile de roda baptizado Chamarritas, ou, repetidamente, à aldeia de Caçarelhos, no Vimioso, para ouvir Adélia Garcia, a grande cantadeira que Giacometti já registara, falecida no início deste mês.

“O meu trabalho não tem que dar as respostas, tem que fazer perguntas", diz. "Interessa-me saber porque é que a música muda tanto, como é que as canções tomam várias formas, como viajam e como se adaptam”. Conta-nos então da senhora que gravou em Esposende a cantar Eu chorei muito Domingo à tarde, só para ser contactado por galegos que conheciam perfeitamente aquela canção de bruxas e lobisomens, cantada também por Uxia - e pouco demorou até chegar a Carreteiro, versão do mesmo tema assinado por Manu Chao. O site MPAGDP permite-nos fazer essas viagens em território português, seguindo região a região, instrumento a instrumento, intérprete a intérprete, sem hierarquia e sem distinção de género musical, ou seja, bombos lado a lado com laptops, rabecas ao lado de cítaras chinesas.

“A tradição sempre foi contemporânea” é outra frase essencial para compreendermos o trabalho de Tiago Pereira. “Algumas canções [das cantadeiras] têm 500 anos e passavam pela tradição oral? É verdade, mas essas realidades podiam surgir mascaradas com melodias dos Abba ou com influências do fado”. Essa evolução constante é, para Tiago Pereira, o mais interessante do trabalho. “Por um lado, pode-se dizer que tenho o complexo de Noé, o tipo que quer salvar tudo e pôr na arca antes que venha a hecatombe, porque cada vez que morre um velho, morre a biblioteca que carrega consigo. Por outro lado, há outras coisas a nascer, novas formas de cantar. Deixemos as canções transformarem-se e vejamos no que dá. Porque o povo volta a cantar. Vejamos o que vai acontecer com esse povo”.

O seu trabalho futuro e o da equipa da MPAGDP continuará, como até agora, a fazer-se em volta da música destes “portugueses que sempre tiveram uma vontade e capacidade de produzir som com qualquer objecto: o homem que toca pedrinhas de Arronches, o outro que toca com tijolos, o que constrói uma sarronca [com uma bilha e uma pele de cabra]”. Mas, a partir deste “fim de ciclo” que representa o lançamento do site e a edição do livro, concentrar-se-á no que está agora a despontar, como os dois miúdos alentejanos, de seis e oito anos, que descobriu a entoar o Cante em Viana do Alentejo, como o Telmo, outro alentejano, 26 anos, que continua a tradição de poesia popular das Décimas, mas “fá-las sobre o IRS ou sobre o ordenado que lhe tiram, não sobre o trabalho ou o fome como faziam os antigos” – a sua nova série de programas na rádio intitular-se-á, de resto, O Povo que Volta a Cantar.

Na tarde deste sábado, no Salão Nobre do Teatro da Trindade, sabemos que irá ser apresentado o novo site, que o novo livro estará disponível e que Josefina Bouças, das minhotas Cantadeiras do Vale do Neiva, lá estará para falar sobre as polifonias do grupo e para cantar um pouco. É provável que os Sampladélicos façam também qualquer coisinha. Palco, não existe, e a ordem em que tudo acontecerá, e como tudo acontecerá, é uma incógnita. “Não tem alinhamento. Estaremos lá perspectiva da Adélia. A Adélia morreu e temos que cantar”. Quando perguntavam à cantadeira porque cantava, a resposta era simples. “Porque sim”. Então, é isso que se fará. De forma espontânea e comunal. No mesmo espírito que anima os episódios de O Povo que Ainda Canta e os 2300 vídeos que, neste momento, fazem o acervo da MPAGDP.