Nasce um novo festival de música – da Antena 2

A clássica, a música barroca, o jazz mas também o teatro, a dança, os livros e até a busca da cura para o cancro põem a rádio “recôndita” na rua. Já na próxima semana, em Lisboa.

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VASCO NEVES

Pela primeira vez, a Antena 2 vai ser um festival. A ideia é “levar a antena para o exterior”, diz o director do segundo canal da rádio pública, uma antena que se quer dar a conhecer não só na sua música, arredada do mainstream, mas também na sua queda para os livros ou para a ciência. A Antena 2 “é uma rádio um bocadinho recôndita, porque trata de cultura erudita”, descreve João Almeida, e quer ir ao encontro dos ouvintes, potenciais ou fiéis, com concertos, teatro, dança, livros e debates entre 24 e 29 de Janeiro no Teatro da Trindade, em Lisboa.

“Se as pessoas conhecessem um pouco melhor e tomassem contacto directo com os conteúdos que difundimos, gostariam mais do que presumem enquanto permanecemos recônditos”, diz João Almeida, director do canal e ideólogo desta primeira edição do Festival Antena 2. “A ideia é levar a montanha a Maomé, porque Maomé não sabe bem que a montanha existe.” E essa amostra de montanha é de um concerto por dia a que acrescem, na próxima sexta, sábado e domingo, as artes de palco e as conferências sobre livros com Ana Luísa Amaral, Inês Pedrosa, Miguel Real e Francisco José Viegas (dia 29) ou sobre A Cura do Cancro com os investigadores Sobrinho Simões, Joana Paredes, Bruno Silva Santos e Luís Costa (dia 28).

Na música, que apesar de não ser a única área de acção da Antena 2 é o seu principal conteúdo, participam a Orquestra de Câmara Portuguesa (dia 24), dirigida por Pedro Carneiro, o Trio Tarantella (25), a Banda da Armada Portuguesa (26), conduzida por Délio Gonçalves, o conjunto Cardo-Roxo (dia 27), dirigido por Antony Fernandes e Carmina Repas Gonçalves, o Sete Lágrimas (sábado), com direcção de Filipe Faria, e o encerramento com o João Barradas & Ricardo Toscano Quarteto, dia 29 às 19h.

“Todos os momentos do festival irão mostrar cada área naquilo que ela tem de universal”, garante João Almeida sobre a programação, que quer que seja no espírito do trabalho de cada um dos grupos mas também com uma lógica de aproximação ao público menos especializado. A Orquestra de Câmara vai interpretar Azguime, Mozart e Beethoven, com algumas peças mais conhecidas, por exemplo, e o Trio Tarantella encerrará com Techno Parade, de Guillaume Connesson, com uma evocação da música de dança contemporânea. Os compositores portugueses como Jorge Salgueiro ou Hélder Bettencourt terão também o seu espaço, bem como o Riverdance de Bill Whelan ou o orelhudo Derby Day de Robert Farnon – cortesia da Banda da Armada, cujo concerto será de entrada livre. Haverá ainda jazz, de John Coltrane a Gershwin passando por Dexter Gordon ou Thelonious Monk, comJoão Barradas & Ricardo Toscano Quarteto, além da música tradicional portuguesa e a da diáspora com Cardo-Roxo e Sete Lágrimas, respectivamente. As conferências são também gratuitas e os restantes ingressos oscilam entre os 5 e 10 euros.

“Quase todo o festival tem um ponto comum: são projectos que nasceram com a Antena 2”, explica, no sentido em que “o primeiro órgão de comunicação a apoiar muitos deles foi a Antena 2”, à excepção, sorri, da Banda da Armada. São nomes conhecidos no sector, mas a rádio pública, defende o director deste canal, “não tem como missão dar visibilidade a quem já a tem. Adoramos transmitir concertos do António Rosado ou da Maria João Pires, o que fazemos, mas a nossa acção principal é dar visibilidade a quem a merece e ainda não a tem. Ser um promotor”.

O festival é custeado pelo orçamento da Antena 2, que paga aos músicos e negociou na parceria com o Teatro da Trindade que este receba a receita de bilheteira. Em 2018, caso haja orçamento, o Festival Antena 2 quer voltar. Aqui começa “uma caminhada. As pessoas não estão habituadas a ver a Antena 2 no terreno, não tenho esperança de que o público apareça em massa, mas tenho quase uma certeza – de que quem lá for vai gostar imenso”, diz ao PÚBLICO João Almeida. Nas noites de 27 e 28, há dança como Quorum Ballet, que interpretará A Modern Perspective e Excentric/Concentric, criações de Daniel Cardoso e Barbara Griggi, e Os Caetanos, peça encenada por Bruno Cochat que leva o público ao consultório e casa de uma psicanalista. Ambos dialogam directa e indirectamente com a música.