FMI teme efeitos do proteccionismo de Trump

Previsões para os EUA e a zona euro melhoraram ligeiramente, mas tudo está dependente do que for feito por Trump e pelos bancos centrais.

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Entidade liderada por Christine Lagarde defende que bancos centrais mantenham apoio às economias Reuters/MARIANA BAZO

O Fundo Monetário Internacional (FMI) reviu esta segunda-feira em alta a sua previsão de crescimento para a zona euro e os Estados Unidos, mas diz que a economia mundial continua a correr o risco de ser prejudicada pelo ressurgimento de políticas proteccionistas e por um recuo mais rápido do que o previsto das políticas expansionistas dos bancos centrais. Países como Portugal, com um elevado nível de endividamento público e privado, poderão estar entre os mais afectados.

Na actualização trimestral das suas projecções para as maiores potências económicas mundiais (não são feitas novas previsões para Portugal), a entidade sedeada em Washington manteve uma previsão de crescimento do PIB do globo de 3,4% em 2017 e 3,6% em 2018, uma aceleração face aos 3,1% de 2016.

No entanto, se em relação aos países emergentes há uma ligeira deterioração das expectativas, no que diz respeito às denominadas “economias avançadas”, a aceleração registada no final de 2016, fez com que as previsões para o presente ano melhorassem ligeiramente. Para a zona euro, o Fundo prevê agora que a economia cresça 1,6% em 2017, quando há três meses, apontava para 1,5%. Nos Estados Unidos, a previsão passou de 2,2% para 2,3%.

Os responsáveis do FMI fazem questão, no entanto, de não traçar um cenário demasiado optimista no relatório publicado esta segunda-feira. E repetem por diversas vezes o aviso: o caminho a percorrer pela economia mundial nos próximos anos está repleto de dúvidas e incertezas.

A principal incerteza chama-se Donald Trump. O Fundo assume que não sabe neste momento o que é que o futuro presidente dos Estados Unidos irá ao certo fazer, afirmando que “existe uma grande dispersão de resultados possíveis em torno das projecções, tendo em conta a incerteza que rodeia as opções políticas da futura administração norte-americana e as suas ramificações globais”.

Os riscos existem, tanto pela negativa pela positiva. Por um lado, o Fundo diz que a economia mundial (e principalmente a norte-americana) até pode crescer mais se o plano de estímulo orçamental anunciado por Trump se concretizar de uma forma mais intensa do que aquela que é neste momento assumida.

Mas, por outro lado, é revelada uma grande preocupação com aquilo que é identificado como “crescentes pressões proteccionistas”. Donald Trump tem assumido de forma clara nas suas intervenções públicas que irá colocar entraves à entrada de produtos vindos de países como o México, o Japão e principalmente a China. O FMI diz que “maiores restrições ao comércio mundial e às migrações podem prejudicar a produtividade e os rendimentos, afectando de forma imediata a confiança nos mercados”.

Depois, outro risco importante identificado pelo FMI está naquilo que irá ser feito pelos bancos centrais. Os responsáveis do Fundo continuam a defender neste relatório que as autoridades monetárias devem continuar a apoiar as economias que ainda estejam abaixo do seu potencial e onde não existam pressões excessivas sobre os salários, assinalando mesmo que deve ser dado pelos Estados com espaço de manobra para isso um reforço do contributo orçamental.

É por isso que o Fundo teme um cenário em que se assiste a “um aperto mais forte do que o esperado das condições financeiras globais, que pode interagir com as fragilidades do balanço em algumas partes da zona euro e em algumas economias emergentes”.

Na zona euro, Portugal, embora não seja referido pelo FMI neste relatório, é geralmente um dos países identificados como estando numa posição mais frágil face a uma mudança de rumo na política monetária devido aos elevados níveis de endividamento que se registam no Estado, nas empresas e nas famílias. “Nas economias avançadas onde os balanços ainda se encontram debilitados, um prolongamento da fraqueza da procura interna e progressos inadequados nas reformas (incluindo uma reparação dos balanços dos bancos) pode conduzir a um crescimento e inflação mais baixos de forma permanente, com implicações negativas para a dinâmica da dívida”, assinala o Fundo.