Trump admite levantar sanções, Rússia pode incluir EUA nas negociações sobre a Síria

Presidente eleito e Moscovo testam uma reaproximação e já põem em cima da mesa quais os primeiros passos a dar. Embaixador Kisliak tem estado em contacto com futura Administração.

Reuters/SHANNON STAPLETON
Foto
Reuters/SHANNON STAPLETON

O plano de Donald Trump de reaproximar os EUA da Rússia pode ter efeitos já este mês. Moscovo deu indicações de que poderá convidar a próxima Administração norte-americana para integrar o processo de paz na Síria. Do seu lado, o futuro Presidente dos EUA deixou em aberto a possibilidade de acabar com as sanções recentemente aplicadas à Rússia.

Washington e Moscovo estão a testar as novas possibilidades que se abrem com a chegada oficial ao poder de Trump, na sexta-feira. Em entrevista ao Wall Street Journal, o republicano não deu uma resposta inequívoca quanto à manutenção das sanções contra a Rússia. As medidas foram aplicadas pelo presidente Barack Obama, no final de Dezembro, como resposta às alegações dos serviços secretos de que o Kremlin orquestrou uma campanha para interferir nas eleições presidenciais, de forma a favorecer Trump.

O futuro líder dos EUA foi muito crítico da decisão de Obama aplicar sanções à Rússia – que incluíram a expulsão de 35 agentes dos serviços de informação, o fecho de infra-estruturas de lazer nos EUA utilizadas por diplomatas russos e medidas económicas contra os serviços secretos.

“Pelo menos, por um período de tempo [as sanções devem manter-se]”, disse o Presidente eleito, sem, contudo, indicar qualquer horizonte temporal. “Se nos damos bem e se a Rússia realmente nos  ajudar, então porque haveria alguém de manter sanções, se eles estão mesmo a fazer grandes coisas?”, acrescentou Trump. O Presidente eleito tem feito várias referências ao papel que Moscovo pode ter na "luta contra o terrorismo" ao lado dos EUA, ecoando posições do Presidente russo, Vladimir Putin, que enquadrou da mesma forma a intervenção russa na Síria.

O fim do regime de sanções é um dos grandes objectivos da política externa de Moscovo. A Rússia está sujeita a medidas punitivas por parte dos EUA e da União Europeia desde que anexou a Crimeia, em Março de 2014, mas Trump não se pronunciou sobre este pacote de sanções.

Convite para Astana

A contrapartida a um apaziguamento nas relações diplomáticas pode surgir em breve. Moscovo está a ponderar convidar os EUA para participar nas negociações em Astana (capital do Cazaquistão) sobre a Síria, avança o Washington Post, que cita uma fonte anónima da equipa de transição presidencial. O assunto terá surgido durante uma conversa telefónica entre Michael Flynn, futuro conselheiro para a segurança nacional, e o embaixador russo em Washington, Serguei Kisliak.

A Casa Branca sabe que Flynn e Kisliak têm estado em contacto, diz a Associated Press, incluindo vários telefonemas a 28 de Dezembro, pouco antes de Barack Obama anunciar a expulsão dos agentes russos. A equipa de transição de Trump confirmou os contactos, mas diz que tiveram por objectivo questões “logísticas” – o agendamento de um telefonema entre Trump e Putin, após a tomada de posse.

Moscovo optou por não comentar as notícias dos contactos entre Kisliak e Flynn, mas o ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Mevlut Cavusoglu, deu a participação dos EUA nas negociações em Astana como facto assente. “Os EUA devem ser convidados e foi isso que combinámos com a Rússia”, disse o ministro durante uma conferência de imprensa em Genebra.

As negociações de paz foram marcadas pela Rússia e pela Turquia, depois da conquista de Alepo pelo Exército sírio – apoiado por Moscovo – e arrancam na capital cazaque a 23 de Janeiro. À mesa vão estar dirigentes do Governo sírio e membros da oposição, mas é incerto quais os grupos armados com intenção de participar. O Alto Comité de Negociações – um organismo que agrupa vários grupos rebeldes – disse este sábado apoiar as conversações de Astana, encarando-as como um “passo preliminar” para as negociações de Genebra.

Os EUA de Obama, que ficaram de fora desse esforço diplomático, mantêm o seu apoio às negociações organizadas pela ONU que decorrem em Genebra, mas que nos últimos dois anos tiveram poucos avanços e muitos recuos. Estas conversações vão ser retomadas a 8 de Fevereiro.