Os concertos acabaram. Começa o negócio no Eurosonic

Na Holanda, o contingente português fez-se ouvir pela última vez através de concertos de Noiserv, First Breath After Coma ou Glockenwise.Mas o balanço final da investida lusa no Eurosonic só agora se começará a fazer.

Fotogaleria
Os Memória de Peixe actuaram num pequeno clube holandês do género da ZDB em Lisboa Jorn Baars
Fotogaleria
Jorn Baars
Fotogaleria
Weval Siese Veenstra

Para a generalidade dos 23 projectos musicais portugueses presentes no Eurosonic, em estágios de evolução diferentes, a missão foi cumprida. Houve bons desempenhos, quase sempre com salas repletas e a curiosidade foi estimulada em relação ao que acontece em Portugal.

Na noite chuvosa de sexta-feira destacaram-se, entre o contingente português, as prestações de Noiserv, Memória de Peixe, Glockenwise ou First Breath After Coma. Mas as consequências desta acção colectiva em terras holandesas só agora começarão a ser nítidas. Este sábado, no centro de conferências Oosterport, um edifício multiusos que para além de seis salas de espectáculos é onde os profissionais da música se encontram entre reuniões, conferências e painéis, decorre um encontro da rede europeia European Talent Exchange Programme (ETEP), que pode trazer boas notícias para alguns dos projectos portugueses.

Trata-se de uma rede constituída essencialmente por festivais, que procuram parcerias e novos talentos, da qual fazia até agora parte apenas o festival português Westway Lab, mas ao qual se vão juntar agora o Milhões de Festa, o Super Bock Super Rock e o Primavera Sound. Existiu uma reunião prévia em que foram dados a conhecer grupos de diferentes países que actuaram por estes dias no Eurosonic e, este sábado, os agentes dos festivais pertencentes à rede, depois de terem assistido aos concertos, vão assinalar as bandas que lhes interessam.

E, se acontece assim em relação aos festivais, também sucede o mesmo em relação às redes de salas, como a LiveEurope, à qual pertence o MusicBox de Lisboa. Independentemente do que vier a acontecer, Hugo Ferreira, da Why Portugal, a plataforma que tomou a iniciativa de propor Portugal como o país em destaque no Eurosonic, não tem dúvida de que as expectativas foram superadas: “Portugal nunca tinha tido esta exposição num acontecimento semelhante com esta envergadura e credibilidade. O que tinha havido até agora era trazer duas ou três bandas, no máximo. Desta vez estiveram 23, para além dos 100 delegados, mais os elementos das bandas. Além disso, as salas estiveram quase sempre repletas e conseguimos estimular a curiosidade dos profissionais europeus para uma nova geração da música portuguesa.”

Nem todos sairão de Groningen com o mesmo grau de satisfação. É natural. Mas Hugo Ferreira diz que, tendo em conta que vieram para um território desconhecido, o balanço só pode ser muito positivo: “Se me perguntassem antes do festival quantas bandas sairiam daqui com contactos e novas perspectivas de actividade, diria cinco ou seis. Agora arrisco-me a afirmar que isso aconteceu com a generalidade delas.”

Não é novidade. Existe curiosidade e interesse à volta de Portugal. Em conversas com nórdicos, alemães ou holandeses, fazem-nos perguntas sobre Lisboa e Porto, interrogam-nos sobre eventos como a Web Summit e celebram a vitória portuguesa no Campeonato da Europa de Futebol. E o interesse pela música desperta-se no meio desse caldo.

Isso é visível no espaço lounge criado pelo AICEP, situado num sítio privilegiado do edifício multiusos, com vinhos e comida portuguesa em destaque. Esse foi, aliá, um dos temas que suscitaram curiosidade entre jornalistas e agentes europeus presentes no painel moderado por John Gonçalves (The Gift), em que se falou sobre festivais em Portugal, com José Eduardo Martins (da Ritmos) a referenciar que no Primavera Sound ou no Paredes de Coura a comida local, a sustentabilidade ambiental e o design global dos espaços sem publicidade agressiva são aspectos que são valorizados.

Mas nem só de profissionais vive o Eurosonic. Há também as cerca de 40 mil pessoas, a larga maioria de Groningen, que durante estes dias acorrem às centenas de concertos que decorrem nos mais diversos espaços. Em festivais destas características com muitos espectáculos em simultâneo, por norma as primeiras canções são essenciais. Se agradam, fica-se. Se tal não acontece, parte-se à procura de outras alternativas, porque elas existem às dezenas. E mesmo com temporal, a circulação acontece.

É o que faz a holandesa Antje Wittenagels, 34 anos, natural de Groningen, que prepara o seu circuito previamente, ouvindo no Spotify as diferentes bandas. Quando falamos com ela, está à espera de ver os First Breath After Coma e na véspera tinha também visto os portugueses We Bless This Mess. Diz não conhecer quase nada de música portuguesa, mas está com muitas expectativas em relação ao grupo de Leiria pelo que ouviu.

No final, voltamos a encontrá-la e diz-se rendida. E na verdade a noite correu bem aos First Breath After Coma, mostrando grande desenvoltura em palco, sintoma óbvio de que têm tocado bastante nos últimos tempos – em Portugal e na Europa – com uma sonoridade que vai do rock às electrónicas, mas onde o que conta verdadeiramente é a dimensão emocional e os crescendos de intensidade que colocam na sua função.

Em palco com o grupo esteve Noiserv, que, umas horas antes, na sala do andar de cima do Grand Theatre, havia proporcionado um excelente concerto. Sozinho, qual homem-orquestra, rodeado de uma parafernália de instrumentos, foi desfiando as suas canções com grande desenvoltura, gerando evidente empatia com a sala que não se poupou nos aplausos.

Num ambiente diferente, um pequeno clube tipo ZDB em Lisboa, actuaram os Memória de Peixe, com a guitarra e a bateria em jogo de atracção constante, indo do rock ao jazz, mas tudo feito com imprevisibilidade, numa música física e tecnicamente exigente. Não foram muitos os que os viram, porque a sala era pequena, mas aqui o que interessa para lá do prazer óbvio dos músicos é se há poucas desistências e se foram as pessoas certas que estiveram a assistir.  

Às vezes tocar num clube com história ajuda. É o caso do Vera. Percebe-se que parte do público que ali vai não é tão flutuante como noutros espaços, porque acredita na programação, independentemente de quem toca. Quem beneficiou com isso foram os Glockenwise, que arrancaram um belo concerto com a energia descontrolada do rock & roll a encontrar espaços melódicos para a voz e guitarra de Nuno Rodrigues sobressair. Lá para o final o vocalista ironizava, lançando ao público: “Venham conhecer Portugal, nós não somos Espanha!” Não sabemos se seduziram mais turistas para Portugal, mas ouvintes para a sua música parece que sim.

Menos afortunados com os locais onde actuaram foram os Happy Mess e :Papercutz, que ainda assim fizeram tudo para aquecer os espaços frios que lhes calharam em sorte. Em particular os :Papercutz de Bruno Miguel podem-se queixar de lhes ter saído na rifa um local sem envolvimento para se fazer ouvir a sua pop electrónica. Às vezes por mais talento que exista e por mais estruturada que a realidade possa ser, existe um elemento aleatório que também se joga nestes certames: a sorte. 

O PÚBLICO viajou a convite do Why Portugal