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Nuno Lopes: “O teatro e o cinema são dos poucos guardiões da compaixão”

Um reverendo caído em desgraça, em A Noite da Iguana, está a dar cabo de Nuno Lopes. Assim arranca, no São Luiz, um ano que nos trará o actor como boxeur cobrador de dívidas - São Jorge, filme de Marco Martins. Só existem demónios enquanto não os humanizamos.

Lawrence Shannon está a dar cabo de Nuno Lopes. No final de cada ensaio de A Noite da Iguana, o clássico de Tennessee Williams com que estará em cena a partir de dia 18, o actor confessa-se esgotado por se entregar durante duas horas e vinte minutos à carne de um ex-reverendo caído em desgraça, movido aos tombos, refugiado num lugarejo mexicano em que está a salvo do mundo, mas sem conseguir negociar a sua própria salvação. Shannon é um homem vergado pela culpa, com uma cabeça a latejar tanto da ressaca alcoólica quanto de uma consciência que o ajuda a escavar cada vez mais fundo o seu próprio buraco.  Foi corrido da Igreja depois de uma acusação de violação e uma prédica em que se dizia “farto de sermões de adoração a um delinquente senil”, seduz raparigas menores com a sua oratória em viagens guiadas aos lugares interditos de excursões à América Latina e está sempre à procura de mais um trago de álcool. Não é por acaso que o encontramos numa pensão em que abundam as raparigas e os rum-coco. É um homem cercado por tentações, em luta com a sua moral.

Quando Nuno Lopes sumariou a um amigo a sua personagem, este espantou-se como é que poderia emprestar a voz e o corpo a “um padre expulso da Igreja, alcoólico e que se mete com miúdas de 16 anos” e imaginar que não se transformaria, aos olhos do público, numa figura detestável. “É um dos desafios da peça”, acredita Nuno Lopes. “Como é que se cria compaixão. como é que se faz com que as pessoas percebam o ponto de vista dele e não se coloquem contra este personagem?”

Essa é uma das preocupações recorrentes e que tomam conta de Nuno Lopes ao entregar-se a uma personagem que “entra no espectáculo completamente desesperada e vai ficando ainda mais”. Ao longo de mais de duas horas, o actor é o corpo em queda contínua de Shannon, “um desamparado que não pode encontrar amparo noutros desamparados” (conforme escreve Tennessee Williams), numa ausência de acentuadas alterações de registo que não passem pelas mudanças de humor típicas em alcoólicos. Isso contribui para que eleja este como o papel mais difícil que alguma vez fez em teatro. “Esse é um dos aspectos mais difíceis, esse lado de final de vida, de situação extrema, de quase pânico que percorre todo o espectáculo. Tentei fugir a isso muitas vezes mas não funcionava.” A este estado de permanente angústia, de um desespero acompanhado por uma solidão cruel e em que se vai enrolando, junta-se uma paleta de variações físicas que o fazem atravessar estados de moderada embriaguez, cansaço extremo, delirium tremens e um corpo sempre sacudido pelo álcool – pelo seu excesso e pela sua falta. A vida não é fácil para Lawrence Shannon. Nem o está para Nuno Lopes.

Nesta peça de encerramento de um ciclo dedicado a Tennessee Williams que roubou muitas energias aos Artistas Unidos nos últimos quatro anos, o encenador Jorge Silva Melo “queria muito esse lado eléctrico” ditado pelas mudanças de humor alcoolizadas que fazem de Shannon um ser volátil, “bruto num momento, logo a seguir quase parece um menino” – que Nuno Lopes vai gerindo “como se usasse uma mesa de mistura” numa das suas noites de DJ –, mas cercado sempre pelas suas fraquezas e pela forma martirizada com que lida com elas. Silva Melo diz ao Ípsilon encantar-se com esta fragilidade a que o actor dá uma forma tão acertadamente vulnerável que não vinga a ideia de um ser detestável, causador de desdém ou desprezo, surgindo antes como um triste ateador do rastilho de culpa no interior da qual se deixa arder em morte lenta.

Como é habitual em Silva Melo, os actores são deixados numa quase total liberdade de encontro com as personagens, algo que Nuno Lopes desconfia relacionar-se com gostar de estarem “constantemente à procura do que seria aquele personagem”. É nesse movimento de procura incessante que diz encontrar-se a duas semanas da estreia, não tendo demorado a perceber que tendo disponível um cardápio de truques desenvolvidos com a experiência que ajudam a domar personagens mais esquivos, “com este não dá para usar truques, porque se usar truques ele desaparece”. “É como se o álcool dominasse tudo, dominasse a própria personalidade.”

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Nuno Lopes enfiou a cabeça nos filmes e nos livros para chegar até à personagem de Shannon — e não no álcool, que não bebe (A Noite da Iguana,em baixo). Quase três anos antes de rodar São Jorge, começou a frequentar ginásios

Assim que terminou de reler uma das suas peças preferidas do autor norte-americano, já depois do convite de Silva Melo, Nuno percebeu que não sabia como abordar a personagem. “Andei a bater nas paredes muito tempo”, reconhece. É nestas situações, em que as incertezas estão sempre à espreita e em que o caminho não se apresenta como uma linha recta, sem indicações claras nem um destino traçado com absoluta exactidão, que garante cumprir-se mais como actor. “Quando estou num ponto em que me posso espalhar ao comprido, estou a meio caminho de fazer qualquer coisa bem – mesmo que me espalhe ao comprido”, acredita. E menciona Nicolas Cage, actor que nunca foi apresentado à subtileza, como exemplo de alguém que joga sempre “com o baralho todo na mesa”. “Já o vi muito mal, mas quando está bem, como acontece no Leaving Las Vegas, é genial.”

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Leaving Las Vegas faz parte de um extenso leque de obras em que Nuno Lopes imergiu para se rodear tanto quanto possível de referências alcoólicas. Viu Debaixo do Vulcão, leu a poesia de Bukowski, carrega na mala as Memórias de Um Alcoólico de Jack London, viu documentários sobre alcoolismo, filmes com protagonistas embriagados, entrevistas de Tennessee Williams bêbado, a série The Young Pope (interessado pela “descrença no mundo do próprio Papa), pôs-se a ler a Bíblia para aprofundar a ideia de bondade que lhe parece Shannon querer, tropegamente, alcançar. “O álcool teve muita importância na preparação”, diz, “mas o problema do Shannon é a relação com a moral e entre o que quer ser e aquilo que é. É um tipo que se odeia, que não se aceita a si próprio, e está em confronto com a sua verdadeira natureza e com o ideal da Igreja. Está em constante conflito, mas dentro de um lado negro que escava cada vez mais. É como um tipo deitado em cima de vidros, mas que se põe ainda a rebolar – usando uma metáfora estúpida”, ri-se.

No alto deste monte em que uma pensão mexicana com vista para o mar parece atrair todos os desesperados e para onde se vai morrer, enquanto se ouve em fundo o rumor dos nazis (a peça foi escrita em 1940) a tomar conta do mundo, Shannon é o tipo que quer fugir de tudo o que acontece lá fora. “O mundo exterior é um inferno”, descreve Nuno Lopes, e para inferno já bastam ao ex-padre os seus demónios, combatendo consigo mesmo um combate arbitrado pela moral. Shannon é uma raridade, enquanto alguém que se funda na culpa quando, neste mundo de vícios de toda a espécie, nada parece mais ser verdadeiramente censurável. “Nesse sentido”, diz o actor, “acho um espectáculo muito actual, porque estamos num momento da História em que não temos o nazismo a ganhar, mas temos o Trump a ganhar nos Estados Unidos, o Brexit em Inglaterra, a ameaça da Le Pen. De repente, o mundo está a virar para um lado horrível. A vitória do Trump é a vitória dos trolls da internet. Os valores da bondade e da compaixão estão claramente fora de moda.”

Os processos

Nuno Lopes enfiou a cabeça nos filmes e nos livros para chegar até Shannon – e não no álcool, que não bebe, tendo-se embriagado apenas por duas vezes, ambas em trabalho; aos 22 anos, ainda lhe perguntavam o porquê de não beber quando ele sempre suspeitou que o seu temperamento o tornava um alcoólico potencial; aos 38, diverte-se por a sua abstinência ser muitas vezes interpretada como sinal de um pesado histórico de dependência. Para criar Jorge, protagonista de São Jorge, o filme de Marco Martins premiado em Veneza e que se estreia em Portugal em Março, foi consideravelmente diferente. Quase três anos antes de iniciarem a rodagem do filme fundado no meio do boxe que Nuno Lopes sempre sonhara fazer – Belarmino, obra maior da gesta de Fernando Lopes, é o seu “filme português favorito –, o actor começou a frequentar ginásios. “Não com o objectivo de treinar – estava lá a fingir que treinava –, mas sobretudo para ouvir aquilo de que as pessoas falavam e o que pensavam”, esclarece. Só já próximo da filmagem, mais tarde, é que passou cinco meses de trabalho exaustivo, seis horas por dia a treinar.

Antes que o corpo alcançasse Jorge, Nuno Lopes já tinha começado a tomar-lhe o gosto nestas conversas em torno de um mundo que “verdadeiramente luta pela vida”. “Se nos Estados Unidos se é campeão e fica-se multimilionário, em Portugal é-se campeão e ganha-se 500 euros”, compara. “Gente pobre que vai lutar para ganhar dinheiro e mesmo quando ganha, não ganha.” Fascinados por este mundo dos boxeurs, Marco e Nuno perceberam que tinham o guião de uma história para contar num país no pico da crise quando a sua pesquisa os encaminhou até à revelação de que muitos boxeurs faziam cobranças difíceis e ao caso concreto de um homem que “tendo dívidas, arranja um emprego como cobrador de dívidas”.

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Nuno Lopes acredita que “as personagens são sempre máscaras para nos mostrarmos a nós próprios” Rui Gaudêncio

Ao decidirem filmar em bairros dos subúrbios da Grande Lisboa, realizador e actor fotografaram vários até escolherem dois que correspondiam à imagem que pretendiam para São Jorge. Depois, com a ajuda de assistentes sociais que os ajudaram a identificar figuras chave nas comunidades locais – “há sempre duas sou três figuras paternais que comandam”, diz –, foram-se embrenhando naquelas vidas e nos conflitos próprios dos lugares e recolhendo elementos para o filme que viriam a fazer. São Jorge construiu-se a partir dessas temporadas a conhecer outras vidas e outras gentes, a habitar outros espaços e a mimetizar outras rotinas. Antes sequer de qualquer decisão definitiva do guião, era importante conquistar a confiança daqueles homens e daquelas mulheres. Esse, na verdade, é um dos grandes atractivos que Nuno Lopes encontra na sua relação com Marco Martins, um realizador que, ao contrário do que é costume apontar-se como qualidade, não sabe exactamente o que quer. “O Marco tem essa grande vantagem de não saber exactamente. Isso é óptimo porque quando estamos a trabalhar – e é nisso que me revejo – todos os processos são pontos de partida, até à montagem final. Mesmo a montagem é como se não houvesse guião e fôssemos construir o filme outra vez.”

Tanto assim que São Jorge não foi pensado inicialmente como equilibrando-se entre o documentário e a realidade. Tanto assim que São Jorge não carregava nas suas intenções a ideia de fazer um close up sobre um Portugal em crise, sobre uma ferida aberta de um país a sangrar e sem mãos para estancar a situação. Influenciado por estas pessoas, São Jorge convoca-as também para o ecrã, recusa a mera vampirização e a partir de coordenadas temáticas amplas chama os seus não actores a dizerem no filme coisas impossíveis de serem escritas num guião. Por mais que escavassem, Marco e Nuno nunca chegariam ali, nunca se aproximariam a ponto de poder substituir-se àquelas vozes. Esse processo poroso entre realidade e ficção que descobriram m 2012 ao trabalhar numa peça com os trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, é afinado agora em São Jorge e pretende ser replicado, em seguida, em Great Yarmouth, cidade inglesa com uma extensa comunidade portuguesa, parcialmente empregada em linhas de desossar perus, e uma das mais esmagadoras na sua votação favorável ao Brexit. Daí resultará uma peça, talvez também um filme.

“Acima de tudo, interessam-me projectos em que estou envolvido no processo todo”, diz Nuno Lopes. “Cada vez me interessa menos ser actor convidado.” Na verdade, foi já assim quando Marco Martins o escolheu para o seu primeiro filme, Alice, e lhe propôs em seguida pensarem todo o projecto e o personagem em conjunto.

Olhares contaminados

Antes de começar os ensaios para A Noite da Iguana, a postura assumidamente obsessiva de Nuno Lopes, no vermelho sempre que se encontra a habitar um personagem, havia de levá-lo a marcar visitas a hospitais com unidade de internamento para doentes alcoólicos e encontros de Alcoólicos Anónimos. Mas, no caso da peça, acabou por desistir desse contacto mais próximo por sentir que estaria “a quebrar a confiança, por sentir que seria uma perturbação no ritual deles e que podia dar maus resultados”. Afinal, é essa mesma confiança que constitui o compromisso básico com os seus, chamemos-lhes, objectos de estudo. E que não se limitam a um papel funcional. Mantém o contacto com a mãe de Rui Pedro, o mais mediático dos casos de crianças desaparecidas em Portugal, que o ajudou a compor o pai atormentado de Alice; os trabalhadores dos Estaleiros de Viana entram em São Jorge, não perdendo o passado de vista; ainda se vai encontrando com o miúdo com quem partilha o ecrã no filme que lhe garantiu o Prémio Orizzonti para Melhor Actor em Veneza. “Tento não perder totalmente contacto, mas é difícil, porque tenho de seguir a minha vida, passar para outro projecto e tenho outras pessoas para conhecer. É complicado voltar atrás constantemente, mas às vezes quase me obrigo a isso.”

Funciona quase como um beliscão que se inflige a si próprio, lembrando-se de que é por crer no papel humanizador do teatro e do cinema que se dedica a esta profissão. Sobretudo o cinema, acredita, é encarado como “uma coisa meio de sonho, uma fantasia bonita” que abre portas com facilidade. E cita a entrevista de El Chapo a Sean Penn como exemplo dessa magia capaz de mover barreiras aparentemente intransponível. Talvez porque as pessoas acreditam que as suas vidas podem ser contadas numa relação mais próxima entre as duas medidas de que Nuno Lopes fala em relação a Shannon: o que se é e o que se gostaria de ser. Ou que bairros como os da Jamaica e da Bela Vista sejam mostrados não pelo seu potencial de violência, mas pelo quotidiano, por muito desencantado que possa ser, que os dali sentem como seu.

“O cinema humaniza sempre”, diz. “Mesmo que se faça o tipo mais horrível que existe, como o Scarface, descobre-se ali um lado humano, percebe-se o ponto de vista do personagem, compreende-se.” E é isso que acaba por unir Shannon e Jorge, os seus dois grandes papéis para 2017, e aquilo que vê como comum nos palcos e nos ecrãs por que vai passando. “O teatro e o cinema são dos poucos guardiões da compaixão e da auto-compreensão. Só há demónios no mundo porque nós não os humanizamos. Porque demónios somos todos ou nenhum de nós é.”

Acontece muito deixar-se tomar de tal forma pelos personagens que o seu olhar passa a estar contaminado pela construção mental e emocional a que está entregue. Nuno Lopes acredita que “os personagens são sempre máscaras para nos mostrarmos a nós próprios” e em Shannon revê-se não apenas na batalha entre o ser e o querer ser outra coisa, mas também num “lado melancólico e de tendência autodestrutiva” que percebeu em si muito cedo e para o qual tentou canalizar para as duas obsessões a que se permite ceder: ser actor e ser DJ. “Percebi logo aos 13 ou 14 anos que qualquer escape que existisse na minha vida poderia ser problemático”, admite.

Esse olhar já filtrado por uma perspectiva de sugar de uma forma especial o que de mais útil a realidade possa ter para colocar em palco ou em frente à câmara leva-o, por vezes, a momentos de estranheza, em que se surpreende, como aconteceu em São Jorge, a tirar notas e a responder “isso é bom” a um cobrador que lhe relatou como teve de enfiar um dos devedores no porta-bagagens do carro e bater-lhe com um martelo na cabeça. Daí que estas viagens nunca se façam impunemente e obriguem sempre a uma profunda reflexão ética e moral. Daí que fale em tentar assumir o olhar de outro e procurar visões do mundo que contradigam a sua e não se limitem a validar todos os seus pontos de vista. Ser actor é também a disponibilidade para ser o contrário, abanado, posto em causa e, antes de o fazer com o público, descobrir a compaixão em si. Por vezes, quando as personagens de cinema o obrigam a um estado de alerta permanente durante meses a fio por não terem um espaço combinado para a sua existência – a sala de ensaios ou o palco de um teatro –, dá por isso, e hesita em confessá-lo, a imaginar por onde andarão Mário (Alice) ou Jorge (São Jorge). Não ajuda que ambos os filmes terminem com os personagens de Nuno Lopes a andar sem rumo. É como se abandonasse de súbito e eles tivessem continuado a sua marcha.