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Blues para o Desempregado Lusitano

Neste país o Desempregado Lusitano é alternadamente tratado como uma vítima impotente e um aproveitador do estado social

Se não formos nós mesmos, há sempre um desempregado nas nossas vidas, e neste país o Desempregado Lusitano é alternadamente tratado como uma vítima impotente e um aproveitador do estado social. Estado social que na realidade somos todos nós, pelo que, ao contrário do que os sucessivos governos têm dado a entender, o subsídio de desemprego não é uma mera acção de mecenato por parte da Segurança Social, mas sim um direito. Aliás, frequentemente esta instituição parece ter como missão a busca desenfreada por todo e qualquer meio disponível duma forma de negar subsídios aos seus beneficiários, quer através dos misteriosos labirintos da burocracia, quer por novas e mais complexas leis decretadas por quem jamais se aproximou da condição de Desempregado Lusitano. Já o IEFP, nos seus igualmente estranhos meandros, tende, no meio da sua bonomia, a extraviar documentos essenciais e a emitir convocatórias aos seus inscritos sob o falso pretexto de comunicar os tão estafados direitos e deveres do desempregado, sem ressarcir as despesas de deslocação a alguém que para todos os efeitos estará em contenção de custos.

Mas como o tempo e o espaço do Desempregado Lusitano carecem de valor na vida pública precisamente por dela estar alheado, ambos são dispostos pelas instituições que deveriam servi-lo das formas mais arbitrárias, quando não abusivas; sejam elas vigiar museus a troco de uma bolsa de valor insultuoso até limpar florestas, tudo isto sem possibilidade de recusa pois esta é essencialmente uma forma que um estado democrático e social arranjou para obter trabalho a preço de saldo. E se é verdade que as apresentações quinzenais, em tudo semelhantes às medidas de coacção do estatuto de arguido, terminaram, a obrigatoriedade de provar busca activa de emprego não, não vá dar-se o caso de o Desempregado Lusitano ser um terrorista encapotado ou, pior ainda, um mandrião.

Entretanto, a situação do Desempregado Lusitano arrasta-se. E tanto o governo como a oposição aproveitam isso para duelos estatísticos, assim como algumas empresas que utilizam os estágios para ter durante alguns meses um colaborador a baixo custo. Já outras utilizam o desespero e o cansaço do Desempregado Lusitano para lhe oferecer precariedade e às vezes pura exploração a roçar a escravatura, e depois, se o antigo desempregado for dispensado das suas funções, provavelmente já não terá direito ao subsídio e se calhar já nem se inscreve no IEFP, eclipsando-se assim das fileiras estatísticas dos desempregados. Porque ser um Desempregado Lusitano não é apenas ser excluído das relações do quotidiano, maioritariamente mediadas pela produção e consumo, é também perder-se na solidão das várias horas do dia em que os amigos e a família estão fora a trabalhar, na ausência de resposta das empresas a que se candidatou e na crescente dificuldade em descobrir a motivação até para os actos mais simples porque cada vez mais nos fazem crer de que valemos tanto com o que ganhamos e conseguimos comprar.

Para quem trabalha e lhe falta tempo, pode ser difícil de compreender, mas dispor do próprio tempo é uma situação mais feliz quando existe algum constrangimento. Por tudo isto e muito mais, caros ex, futuros e actuais Desempregados Lusitanos, eu vos saúdo.