Análise

A democracia não é um bem adquirido para sempre

Obama sai bem da Casa Branca. Continua a manter um enorme apelo por esse mundo fora, apesar das inevitáveis desilusões. Donald Trump e a sua total imprevisibilidade deram um notável contributo para que isso acontecesse.

1. Entre a emoção e a História, o Presidente americano do qual muita gente por esse mundo fora não queria despedir-se tão cedo exortou os americanos a fazerem mais pela democracia, um bem que nunca está adquirido e que exige o compromisso de todos e de cada um. Foi este o grande tema do seu discurso, lembrando aquilo que a corrói, da desigualdade ao racismo, e aquilo que a faz mais forte.

Estavam cerca de 20 mil pessoas no gigantesco pavilhão onde decorreu a sua despedida, na cidade onde nasceu para a política. Há oito anos, na noite da sua primeira eleição, eram 250 mil. As suas palavras, a sua arma mais eficaz, foram um misto de frustração pelo que não fez e de lembrança do muito que acabou por fazer. O “Yes We Can” substituído pelo “Yes We Did”. Era preciso colocar um ponto final no seu mandato, a dez dias da tomada de posse do seu sucessor, que é, talvez, o símbolo do seu maior fracasso: transformar a cultura política norte-americana, que prometeu no seu discurso de Boston, em 2004. Falhou. Mas a culpa está bem repartida e a parte que lhe cabe não é certamente a maior. O Presidente acreditou que a preservação do seu legado estava garantida pela eleição de Hillary. Vê-se hoje obrigado a defendê-lo, perante um sucessor que todos os dias promete acabar com ele. O seu discurso foi literalmente atropelado pelo último escândalo que envolve Donald Trump, mais uma vez sobre a sua relação com Vladimir Putin.

2. Obama sai bem da Casa Branca. Continua a manter um enorme apelo por esse mundo fora, apesar das inevitáveis desilusões. Donald Trump e a sua total imprevisibilidade deram um notável contributo para que isso acontecesse. Nos Estados Unidos, a sua popularidade mantém-se alta — aliás, bastante mais alta do que aquela com que o seu sucessor chega à Sala Oval. Na última sondagem de que há conhecimento, Obama supera os 54%. Trump, depois de uma subida pós-eleições, iniciou uma descida que o coloca hoje como o Presidente-eleito menos popular de sempre (37% de apreciações favoráveis). Porquê? Não há certamente uma única explicação, nem ela reside apenas nos quase três milhões de votos a mais que Hillary arrecadou ou nas “anormalidades” que têm marcado os últimos passos de Trump. Algumas são surpreendentes, pelo menos à primeira vista. Ouvir votantes de Trump dizerem que continuam a gostar de Obama porque vêem nele o “exemplo” que querem transmitir aos seus filhos não é coisa frequente em política. Mas, pensando bem, percebe-se.

Durante oito anos, Obama e a sua família estiveram sob escrutínio cerrado, com muita gente desejosa de encontrar um pequeno segredo escondido, uma falha, um lado menos transparente das suas vidas. Em vão. Obama não tinha nem tem telhados de vidro. É ele próprio. Michelle consegue ser hoje tão popular que, em plena campanha de Hillary, os jornais escreveram sobre uma eventual candidatura à Casa Branca, que ela rejeitou liminarmente. Na noite de terça-feira, citando a repórter do Guardian em Chicago, bastou a Obama pronunciar a palavra Michelle para que os aplausos explodissem e as lágrimas caíssem pelas faces do Presidente, da primeira-dama, da filha Malia, de muita gente, “incluindo eu própria”. Obama continua a inspirar. Michelle também. As suas palavras foram um apelo derradeiro a que aqueles que o apoiam lutem por preservar o seu legado. Chame-se ele reforma da saúde ou alterações climáticas, uma economia menos desigual ou um acordo que pôs fim pacificamente ao programa nuclear iraniano.

Há hoje, como lembrou, mais 20 milhões de americanos que passaram a ter um seguro de saúde condigno. Destruir o Obamacare não será fácil. Numa reportagem publicada recentemente, os habitantes de uma região deprimida de antigas minas de carvão que Trump prometeu reabrir estavam divididos entre a expectativa de ter outra vez emprego e o receio de perderem o seu novíssimo seguro de saúde. O emprego cresce há 75 meses consecutivos, reduzindo a taxa de desemprego para um valor residual e permitindo o aumento dos salários. “No ano passado, os rendimentos subiram em todas as raças, todas as idades, para homens e mulheres.” Não são as empresas que exportam postos de trabalho que ameaçam o emprego dos americanos, mas “a caminhada imparável da automação que torna obsoletos muitos bons empregos da classe média”. 

3. Mas a mensagem mais forte da despedida de Obama foi exortar os americanos a não darem a democracia como garantida. “A nossa democracia ficará ameaçada de cada vez que a dermos por garantida.” Como já tinha dito, “é mais exigente ser cidadão do que Presidente”. O seu discurso reflecte também a mágoa, sem ilusões, de que “as questões raciais continuam a dividir-nos”. Não é só a violência. “Se cada questão económica é apresentada como uma luta entre uma classe média branca trabalhadora e uma minoria que não se esforça o suficiente, então os trabalhadores de todas as proveniências vão ficar a lutar entre si por migalhas, enquanto a riqueza se fecha cada vez mais nos seus enclaves privados.”

Nunca colocou em causa a legitimidade da eleição de Trump, nem sequer mencionou o tema escaldante dos ataques informáticos orquestrados por Moscovo para interferir na escolha dos americanos. “Dentro de dez dias, o mundo testemunhará mais uma marca indelével da nossa democracia: a transferência pacífica de poder de um Presidente eleito livremente para o seguinte.” Segue-se a frustração: “A política é uma batalha entre ideias […], mas, sem a compreensão comum dos factos, sem uma vontade de admitir mais informação e aceitar que o nosso opositor pode ter razão, impediremos qualquer compromisso.”

O legado de Obama é suficientemente forte para sobreviver a Donald Trump? As pessoas que o escutaram em Chicago acreditam que sim.