No Eurosonic é impossível escapar à música portuguesa

Portugal é o país em destaque na montra da música europeia e isso sente-se na cidade holandesa de Groningen, num evento que começou esta quarta-feira com Best Youth, Batida e The Gift e se prolongará até sexta-feira.

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O concerto dos The Gift no Grand Theatre Bart Heemskerk
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Os Best Youth impuseram a sua pop sonhadora, apesar de alguns problemas técnicos Bart Heemskerk

Por estes dias, em Groningen, na Holanda, a cidade que acolhe o Eurosonic, evento que serve de montra para a música europeia, os cerca de 5 mil profissionais da indústria das mais diversas proveniências que aqui estão presentes não têm como escapar à realidade musical portuguesa. São eles – mais do que os cerca de 40 mil holandeses que costumam aderir ao evento – o alvo da embaixada lusa, constituída por 23 bandas e outros profissionais do sector, entre agentes, managers, produtores, editores, programadores ou promotores de festivais.

No total deverão estar em Groningen cerca de 70 profissionais, naquela que é provavelmente a maior acção concertada no sentido de dar a conhecer a actual realidade musical portuguesa. O objectivo alinhado pela Why Portugal?, que se tem vindo a assumir como plataforma para a internacionalização da música portuguesa, em conjunto com parceiros como o AICEP (Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal), é esse: dar a conhecer ao mundo, e em particular à Europa, um dinamismo musical multifacetado e vibrante, não só do ponto de vista criativo, mas também enquanto fenómeno capaz de gerar riqueza.

Uma dinâmica que nunca conseguiu ultrapassar um obstáculo anímico: a exportação e a procura de novos mercados, apesar das excepções que todos conhecem (Ana Moura, Madredeus, Mariza, Rodrigo Leão, Buraka, Moonspell, Gift, Paus, Legendary Tigerman, Príncipe DJs, entre outros) que apenas confirmam a regra. Talento existe. Envolvimento profissional também. Falta activar essa mais-valia e saber comunicá-la aos agentes certos. Não será apenas porque este ano, no Eurosonic, Portugal é o país em evidência que isso será alcançado. Mas pode bem ser um princípio.

Essa operação começou esta quarta-feira, prolongando-se até sexta. E essa presença portuguesa sente-se, ao pequeno-almoço, por exemplo, no toalhete onde é pousado o prato transformado em jornal improvisado com informações actualizadas sobre concertos, conferências ou recepções da embaixada lusa. Vislumbra-se também nas ruas, no perímetro central da cidade, onde é fácil descobrir rostos conhecidos. E essencialmente nos cerca de 15 espaços que funcionam em simultâneo, entre teatros, auditórios, clubes ou bares, onde é possível ver espectáculos ao vivo.

Foi isso que aconteceu na primeira noite do evento com os Best Youth a terem a sorte de actuar num dos melhores clubes da cidade – o Vera. Nas informações disponibilizadas à imprensa internacional vinham referenciados como um dos projectos a ter debaixo de olho e não desiludiram, impondo a sua pop sonhadora, apesar de alguns problemas técnicos. No mesmo espaço, bem mais tarde, haveria de estar Batida, em versão DJ. Mas não um DJ qualquer. Em palco um boneco, personificando a figura do DJ, e um bailarino, enquanto Pedro Coquenão estava numa das laterais, invisível para o público, fazendo comentários e lançando música, enquanto se dançava ao som de ontem e de hoje, do rap ao kuduro.

Menos sorte tiveram os The Gift. Ou porque actuaram a uma hora tardia, ou por qualquer outra razão, o espaço onde tocaram – uma das principais salas, Grand Theatre – estava longe de estar cheio, o que acabou por afectar o ambiente geral. Não pelo que aconteceu em palco, com os músicos e a cantora Sónia Tavares no seu melhor, mas porque o veio de transmissão com a plateia nunca funcionou verdadeiramente. E foi pena, até porque havia essa novidade de irem tocar os temas (como o primeiro single, Love without violins, que soou muito bem ao vivo) que já se conhecem do álbum que sairá em Abril, com produção de Brian Eno

Mas nem só de portugueses se faz o festival – e, para além dos referidos, actuaram também os Holy Nothing, We Bless This Mess e Sam Alone & The Gravediggers –, com um cardápio de escolhas infindável, por norma feito de nomes emergentes, como os londrinos Shame, um quinteto adolescente que tem tudo para dar que falar. A sua música possui o lado primitivo e selvagem do punk, mas povoada também com doses de melodia, espaço e crescendos de intensidade. E depois têm um vocalista que é uma espécie de Mark E. Smith (The Fall), mas apenas com 20 anos, tão provocador quanto generoso na sua prestação. Prometem.

Um dos concertos mais festejados da noite foi certamente o da inglesa Anna Meredith, que em Outubro actuou no Centro Cultural de Belém em Lisboa, o que não nos surpreendeu. Uma das revelações do ano passado no campo da pop mais livre de espartilhos, com o álbum Varmints, e com um passado recente ligado à composição clássica, é capaz de libertar nos seus espectáculos uma energia retemperadora com uma formação que se divide por entre elementos electrónicos, acústicos e eléctricos, impondo um ambiente que por vezes fica próximo do saudável desvario.

Esta quinta-feira, no que concerne apenas à representação nacional, e para além de uma conferência que abordará o passado e o presente da música feita em território português, haverá espectáculos de Gisela João, Rodrigo Leão, Throes & The Shine, Moonshiners, Neev, Marta Ren ou Octa Push.

O PÚBLICO viajou a convite da Why Portugal

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