Jean-Pierre Léaud: “Este filme é a minha entrada na velhice”

“Nasceu” no filme de Truffaut, começa agora, no filme de Serra, a “morrer”. E para quem achar que carregamos na nota do melodramatismo, ele vai-nos dizer, em breve conversa telefónica, coisas muito parecidas com estas. Eis Jean-Pierre Léaud, A Morte de Luís XIV.

Um homem, habituado às maiores mordomias e a um poder sem limites, a ver o seu espaço encolher, o seu corpo adoecer, o seu poder desvanecer-se
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Um homem, habituado às maiores mordomias e a um poder sem limites, a ver o seu espaço encolher, o seu corpo adoecer, o seu poder desvanecer-se

Os franceses têm uma expressão bastante bonita, “regard-camera” (“olhar-câmara”), para designar aqueles momentos em que um actor fita directamente a câmara. Segundo a gramática clássica, eram momentos a evitar: “acordavam” o espectador, tornavam-no consciente da presença de uma câmara e de todo o artifício cenográfico e mecânico necessário à feitura de um filme, interrompiam o “sonho”. Mas, sobretudo, invertiam os dados da relação com o ecran: o espectador ia para olhar e, de repente, descobria-se a ser olhado,  o olhar do actor feito câmara apontada ao espectador.

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Jean-Pierre Léaud, a criança turbulenta que desencadeou em Cannes 1959 a Nouvelle Vague (Os 400 Golpes), tem hoje 72 anos e morre como um homem no seu último filme

Não espanta que tenha sido um recurso que os alvores da modernidade, de Bergman (a Harriet Andersson da Mónica e o Desejo) a Godard (a Jean Seberg do Acossado), tenham utilizado amiúde, com o exacto propósito de desinquietar o espectador, interpelá-lo, lembrá-lo da impossibilidade da sua inocência. E entre os exemplos citados, entre Bergman e Godard, Truffaut nos 400 Golpes, naquele final que, para tornar tudo mais evidente, congelava num chamado “paralítico” o “olhar-câmara” do adolescente Jean-Pierre Léaud, a fitar o espectador como quem lhe fazia uma pergunta indefinida que só ele, espectador, podia decidir qual era e responder em conformidade.

Não é questão de andar em círculos, ou se calhar até. Mas, quase 60 anos depois de ter entrado no cinema olhos nos olhos com o espectador, nesses 400 Golpes, e de posteriormente muitas vezes – aqueles Godards “declamatórios” e teatrais como La Chinoiss, por exemplo – ter sido filmado em absoluta frontalidade, reencontramos o “olhar-câmara” de Jean-Pierre Léaud em A Morte de Luís XIV, o filme de Albert Serra, em estreia esta semana, que acompanha os últimos da vida do mais célebre monarca absolutista da História de França, quando a noite tombava sobre o Rei-Sol.

Léaud é Luís XIV, profunda e imersivamente. É uma interpretação extraordinária, tanto mais que – como o filme – é feita com muito pouco. Muito pouca “narrativa”, muito poucos recursos. É um homem, habituado às maiores mordomias e a um poder sem limites, a ver o seu espaço encolher, o seu corpo adoecer, o seu poder desvanecer-se. O corpo do rei, e o rosto do rei, são o centro decisivo do filme. O que é o mesmo que dizer: o corpo e o rosto de Jean-Pierre Léaud, numa pudica exibição da sua velhice que não pode – não pode mesmo – deixar de contrastar, no espírito do espectador, com o vigor anárquico da adolescência do actor tal como nos 400 Golpes ficou impresso para a posteridade. Léaud, que tinha 14 ou 15 anos na rodagem desse filme, não é apenas o actor que possivelmente mais vezes nos “viu”, olhos nos olhos; é também um homem que teve a sua vida, agora que chegou aos 72 anos, quase toda registada no cinema e pelo cinema. “Nasceu” no filme de Truffaut, começa agora, no filme de Serra, a “morrer”. E para quem achar que exageramos ou carregamos na nota do melodramatismo, ele vai-nos dizer, em breve conversa telefónica, coisas muito parecidas com estas. E sem melodrama.

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Léaud é Luís XIV, profunda e imersivamente. É uma interpretação extraordinária, tanto mais que - como o filme - é feita com muito pouco. Muito pouca “narrativa”, muito poucos recursos
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A entrega total

E é mesmo por aí, perfazendo o círculo que o liga ao princípio, que ele começa, ao telefone de Paris, a voz a que a idade trouxe uma camada áspera a conservar ainda, por baixo dela, a inconfundível clareza dos tempos em que Godard o punha a discursar na Chinoise (1967) ou no Weekend (1967). A uma pergunta sobre o que o atraiu no projecto de Serra e na sua espécie de “one man show”, ele responde assim: “Percebi apenas que era um papel para o qual tinha que me preparar com a mesma intensidade com que me preparei para as audições em que François Truffaut ia escolher um protagonista para os 400 Golpes”. Isto não é dizer pouco, e além do mais é dizer algo belíssimo. Porque regressa ao início, ao tempo do “nascimento” – e Léaud é um homem que certa vez afirmou estar pouco à vontade na vida porque na vida não há uma câmara a servir de ponto de referência; porque enuncia, uma espécie de agradecimento, de reconhecimento de uma dívida para toda a vida, aos homens que lhe deram esta “vida”, Truffaut primeiro e Godard depois, os seus dois “pais”, como quem viu o recente documentário Os Dois da Vaga, de Emmanuel Laurent, sobre o relacionamento Godard/Truffaut, pôde testemunhar de forma bastante pungente; e finalmente, mas não menos prioritariamente, porque evoca e convoca a energia em bruto da juventude, a entrega total e sem limites ao cinema. E que não haja dúvidas de que é exactamente essa entrega que está no, e faz o, coração de A Morte de Luís XIV.

Estamos habituados – é a sua imagem típica, a imagem que ficou dos anos da juventude – a um Jean-Pierre Léaud hiperactivo e tagarela. O que vemos aqui é exactamente o contrário: um homem constrangido nos movimentos, limitado ao espaço do seu quarto e da sua cama, a voz cada vez mais rara até ao silêncio total. Léaud insiste na ideia da “intensidade”, porque isso era o tudo o que tinha para trabalhar, tanto mais que Serra “me repetia constantemente que eu devia interpretar um homem impassível”, e um homem que ficou ainda mais “impassível” na montagem final, porque, refere o actor, várias cenas de diálogo que foram rodadas acabaram por ser eliminadas na versão definitiva. “Ao fim de uma semana de rodagem”, diz ele, “acho que qualquer actor, profissional ou não-profissional, teria pensado em desistir, porque era muito difícil aguentar esta intensidade no olhar”. Sobretudo numa rodagem que, fiel à ideia de performance (como Albert Serra refere em entrevista nestas páginas), sem processou em contínuo, sem fronteiras definidas entre takes, e sem resguardo possível das várias câmaras (três segundo Serra, quatro segundo Léaud) que trabalham em simultâneo e em permanência. “Era um combate”, resume Léaud. Vê-se isso no filme, e faz sentido, porque o filme é também o relato de um combate, o eterno combate dos homens e da morte.

Cuja chave, para Léaud, era o momento em que deixava de ser um combate. “A minha maior preocupação era o momento” – ele refere-se aos últimos 30/40 minutos do filme – “em que mais do que Louis XIV eu estaria a interpretar a morte ela própria”. Preparou-se longamente para isso, e preparou-se pondo-se a si próprio “interrogações muito íntimas sobre a morte”. Depois encontrou uma resposta a essas interrogações: “A morte é uma coisa que devemos ser capazes de ver chegar, e acolhê-la” (e repete esta ideia pelo menos três vezes, como se a cada vez procurasse a entoação ou a formulação mais justa). Esta ideia, ou esta resposta, foi a sua chave, a chave para o “muito ligeiro sorriso” do rei no momento em que a morte se consuma. É “uma resposta que aprendi na minha vida de homem”, e entendemos “vida de homem” como a vida além do cinema, além das personagens. Percebeu, continua, que “a crise dos 80 anos é tão séria como a crise da adolescência”, para concluir que “este filme marca a minha entrada na velhice”, como se definitivamente se tivesse tornado impossível imaginar-se com aquela eterna juventude dos anos 60 e 70, quando foi um ex-libris da “nouvelle vague” e do pós-“nouvelle vague” (Garrel, Eustache), e depois, nos anos 80 e 90, quando continuou a ser uma recordação viva, mais ou menos distorcida, dessa imagem. Léaud está absolutamente certo: A Morte de Luís XIV inventa-lhe uma outra idade.

E já depois de feitas as despedidas, lembra-se ainda de uma coisa e faz questão de a dizer: “depois da ante-estreia em Paris, alguém veio ter comigo e disse-me ‘neste filme não é Luis XIV que vemos morrer, é a si, Jean-Pierre Léaud, que vemos morrer. Achei isto extraordinário”. Nós também.