Voto unânime da AR sobre Soares: a política era a sua vocação, a liberdade a sua causa

Parlamento homenageia Mário Soares com uma sessão evocativa, um voto de pesar e discursos dos partidos e do Governo.

Nuno Ferreira Santos
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Nuno Ferreira Santos

Mário Soares deixa “um legado de coragem política, de patriotismo democrático e de abertura ao mundo” e um “exemplo ímpar de cidadania política”. A sua marca é, por isso, “demasiado grande para ser esquecida”, lê-se no texto do voto de pesar que o Parlamento aprovou esta tarde por unanimidade de todas as bancadas. O documento fala de um sentimento de “perda” e ao mesmo tempo de “gratidão eterna” ao fundador do PS.

Este voto de pesar pelo falecimento de Mário Soares começou por estar no site do Parlamento como sendo proposto pelo PS e o seu texto até terminava assinado "deputadas e deputados do PS", mas acabou por ser corrigido e quando Eduardo Ferro Rodrigues o leu no início da sessão de evocação a assinatura já tinha sido mudada para "o presidente e a Mesa da Assembleia da República".

Antes do almoço, quando o texto proposto pleo PS já estava disponível, fonte do gabinete do presidente do Parlamento afirmara ao PÚBLICO que existiriam vários votos de pesar - o proposto por Ferro Rodrigues e os das bancadas parlamentares - que seriam lidos e votados na sessão evocativa da tarde, precisamente 24 horas depois das cerimónias fúnebres do antigo Presidente da República. Nela interviria o ministro dos Negócios Estrangeiros em representação do Governo, além dos grupos parlamentares e do deputado do PAN.

No texto de quatro páginas, é citado o lema de vida de Mário Soares – “Só é vencido quem desiste de lutar” – para recordar as suas “corajosas actividades de oposição à ditadura” que lhe valeram, por várias vezes, a prisão, e também a deportação e o exílio. O voto lembra que Soares foi de tudo na política representativa – deputado à Constituinte, ministro, primeiro-ministro, Presidente da República, eurodeputado – e há 20 anos “já tinha o seu lugar na História”.

Mas isso não o impediu de continuar a pensar no futuro e lutar “até ao fim”, num exemplo “ímpar de cidadania política”. “Se a política era a vocação de Mário Soares, a liberdade era a sua causa”, vinca o texto, acrescentando-se que o fundador do PS “tinha a intuição dos grandes políticos e a visão dos grandes estadistas”, antecipando as tendências e movimentos. Exemplos? “Foi antifascista durante a ditadura, e anticolonialista quando a ditadura se dizia ‘orgulhosamente só’.”

“O Portugal democrático, tolerante e solidário; o país do mar, europeu e aberto ao mundo, é o país de Mário Soares” - uma ideia que recupera as palavras usadas por Ferro Rodrigues na cerimónia de terça-feira no Claustro dos Jerónimos.

O voto de pesar que é, agora, de todo o Parlamento, enaltece ainda o papel de Soares na fundação do PS e nas funções de chefe do Governo (com referências ao SNS e à adesão à CEE) e do Estado (abrindo o cargo e o país à modernidade). E admite que Soares “cometeu erros, certamente” e que “todos estiveram algumas vez ao lado dele e contra ele”. Mas, argumenta, Mário Soares “sempre entendeu a política democrática como uma actividade apaixonante, feita de vitórias mas também de derrotas, assente em escolhas claras e convicções fortes”.

Laico, republicano, socialista, tolerante – “todos lhe reconhecem a lealdade com os adversários e a tolerância com a diferença” –, Soares, que morreu no sábado, dia 7, no Hospital da Cruz Vermelha e foi ontem a sepultar no Cemitério dos Prazeres no primeiro funeral com honras de Estado desde o 25 de Abril, é a “força e a inspiração” para as novas gerações “ultrapassarem os desafios e darem continuidade ao seu impressionante legado”.

 

Notícia actualizada às 17h, para incluir a votação por unanimidade e a mudança do texto do voto, que deixou de ser assinado pela bancada do PS e passou a ser assinado pelo presidente e pela Mesa da Assembleia da República