Zangado, Trump garante que Rússia não tem nada que o comprometa

Na primeira conferência de imprensa desde que foi eleito, Presidente eleito dos EUA diz que se o Kremlin tivesse informação sensível sobre si a tinha divulgado. "Se Putin gosta de Trump, óptimo, é uma vantagem", disse.

Trump, na sua primeira conferência de imprensa após a eleição, disse alimentar a expectativa de “entender-se bem” com o seu homólogo russo, Putin
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Trump, na sua primeira conferência de imprensa após a eleição, disse alimentar a expectativa de “entender-se bem” com o seu homólogo russo, Putin

O futuro Presidente dos Estados Unidos reagiu com fúria às sugestões de que poderá vir a ser manipulado ou chantageado pelo líder russo Vladimir Putin. E desmente as informações dos serviços de informação norte-americanos sobre acções de espionagem, encomendadas por Moscovo, para influenciar o processo eleitoral e facilitar a sua eleição para a Casa Branca. “Se Vladimir Putin gosta de Donald Trump, eu acho óptimo, é uma vantagem”, considerou, salientando a importância de melhorar o relacionamento entre os dois países.

A expectativa de Donald Trump é que venha a “entender-se bem” com o Presidente russo. “Mas também é possível que isso não aconteça”, consentiu. Uma coisa é certa: “A Rússia vai passar a ter muito mais respeito pelos Estados Unidos comigo na presidência. Aquilo que eles faziam de errado vão deixar de fazer”, frisou, reconhecendo pela primeira vez as conclusões dos serviços norte-americanos que responsabilizaram o regime de Moscovo pelos ataques informáticos aos servidores da campanha da democrata Hillary Clinton. “Nesse caso, foi a Rússia”, concluiu, admitindo pouco depois que poderia ter sido outro país, “muito provavelmente a China”.

“A pirataria está errada. É coisa de que eu não gosto. Mas pensem no que descobrimos sobre Hillary Clinton por causa dessa fuga de informação”, assinalou. E, prosseguindo com a sua lógica, seria natural que a Rússia também divulgasse informação comprometedora sobre si: “Quer dizer, se eles tivessem alguma coisa, certamente que a teriam divulgado”. “Porque existe alguém que acredite honestamente que Hillary Clinton seria mais dura com Putin do que eu?”, questionou.

Segundo a CNN e outros media que deram conta das investigações das autoridades americanas às suspeitas de que Moscovo também dispunha de informação que prejudicaria as aspirações eleitorais do magnata, o objectivo de Vladimir Putin seria prejudicar a campanha de Clinton para abrir caminho à vitória de Trump, que ficaria em condições de controlar. O relatório aponta para a “colaboração” do regime russo com a equipa do republicano, e refere a existência de material potencialmente embaraçoso que poderia ser utilizado para fazer chantagem.

Sobre o documento em causa, que foi publicado na íntegra pelo site Buzzfeed, o Presidente eleito disse que “nada daquilo aconteceu”, presumivelmente uma referência a descrições de actividades de cariz sexual num hotel de Moscovo aquando de uma viagem sua à Rússia para promover o concurso Miss Universo. “Sou o primeiro a avisar os meus guarda-costas e toda a gente que viaja comigo para terem cuidado com os gravadores e câmaras nos quartos”, informou, desviando-se do assunto.

“Esse papel nunca devia sequer ter sido escrito. Essa informação é falsa, é lixo”, disparou Donald Trump. “Foi um grupo de opositores, gente doente, que inventou essa porcaria e fabricou esse relatório”, acusou, responsabilizando os serviços de informação pela sua divulgação, que considerou “vergonhosa” (numa sucessão de invectivas no Twitter, chegou mesmo a considerar-se vítima de perseguição, comparando os serviços à Alemanha nazi). Questionado sobre se a matéria tinha sido abordada na sua reunião com os dirigentes dos serviços secretos sobre as investigações às acções russas – e especificamente se o teor do relatório tinha sido discutido –, o Presidente eleito recusou responder dizendo que esses encontros são confidenciais. A Casa Branca, questionada esta quinta-feira sobre a polémica, deu a mesma resposta.

O negócio? Aos filhos

Trump recusou também responder quando foi pressionado para negar – on the record – a existência de contactos, encontros ou reuniões entre membros da sua equipa e indivíduos ligados ao regime russo. Também recusou divulgar a sua declaração de rendimentos, lista de património e outra documentação relativa aos seus interesses financeiros para provar que as acusações de troca de favores ou influência são falsas. “Não tenho nenhum negócio com a Rússia nem tenho empréstimos na Rússia”, garantiu.

Numa conferência de imprensa desconcertante – que confirma que a actuação de Donald Trump no futuro nada terá a ver com a tradição presidencial ou as convenções políticas de Washington –, a sua advogada subiu ao palanque para dar explicações sobre a fórmula encontrada pelo Presidente eleito para isolar-se dos conflitos de interesses na Casa Branca e provar que não beneficiará do desempenho do cargo: colocar os filhos à frente do seu império empresarial e submeter os seus negócios, que não serão discutidos com ele, ao escrutínio de entidades externas. “Eu podia continuar a gerir a Organização Trump, que é uma excelente organização, por um lado, e a liderar o país e o governo, por outro. Mas preferi não o fazer”, justificou.

Além disso, elencou uma série de decisões que vai converter em acção imediatamente depois de tomar posse: a aplicação de um novo imposto às empresas que deslocalizem a sua produção, a construção de um muro na fronteira com o México, ou a implementação de um plano para “revogar e substituir” o programa de saúde Obamacare que os congressistas republicanos desconhecem. Também anunciou a sua escolha para dirigir o Departamento dos Assuntos de Veteranos de Guerra, David Shulkin.

O Presidente eleito, que já não aceitava responder a questões da imprensa desde 27 de Julho, começou por confessar a sua satisfação por enfrentar os jornalistas porque durante a campanha eleitoral se tinha habituado a dar conferências de imprensa diárias. “Mas deixei-me disso porque as notícias que saíam eram todas erradas”. Por causa disso, escusou-se a ouvir questões colocadas pelo repórter da CNN e de jornalistas de outros meios que descreveu como “falsos”, “terríveis” e “desonestos”. “Vocês vão sofrer as consequências”, prometeu.