“Felizmente, não ficámos órfãos. Há muitos pais da democracia”

Cinco jovens “aprendizes de historiadores”, da geração que nasceu no Portugal da União Europeia, falam do político republicano e europeísta

São de uma geração que nasceu mais de dez anos depois do 25 de Abril, ou seja, quando Portugal já tinha entrado na então Comunidade Económica Europeia. Sempre viveram em democracia. Conhecem o Estado Novo pelos livros ou através das histórias contadas, por exemplo, por familiares. Cinco jovens estudantes de licenciatura, mestrado e doutoramento em História, convocados para um debate, a pedido do PÚBLICO, com a ajuda do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, falam do que representa o legado de Mário Soares.

Os alunos de mestrado Daniela Major, 24 anos, Leonardo Pires, 22, e Sérgio Abrantes, 27; a aluna de licenciatura Patrícia Pimenta, 19; e o estudante de doutoramento Diogo Ferreira, 25, deixam algumas pistas para identificar diferenças geracionais na forma de se olhar para esta figura. Nenhum deles é assumidamente crítico do homem que os marcou sobretudo pelo papel que teve na adesão de Portugal ao projecto europeu. “Não sou soarista, mas também não sou particularmente crítico”, diz Sérgio. “É sem dúvida a figura mais importante da segunda metade do século XX. E das mais importantes do século XX”, defende Daniela. Com a sua morte, “perde-se uma grande referência do que é um republicano, mas não perdemos um pai”, concordam os cinco.

As diferenças geracionais

Quando se fala de Mário Soares a este grupo, a primeira imagem não é a do exílio, como poderia ser para a geração que viveu o 25 de Abril. Aparecem de imediato, a Daniela, os retratos da corrida às presidenciais em 2006, contra Cavaco Silva e Manuel Alegre – Soares ficaria em terceiro lugar. Ela conta um episódio, passado na segunda-feira, no Largo do Rato. Viu uma senhora claramente emocionada, a chorar. Ficou sensibilizada: é preciso ser alguém com muito impacto para, “não conhecendo, nos sentirmos emocionais com a sua morte”, diz. Mas acrescenta: “Acho difícil alguém de 20 anos chorar como aquela senhora.” Porque as gerações mais novas “têm um distanciamento maior”. Basta pensar nos amores e nos ódios: quem gosta muito ou odeia Soares são os mais velhos, acredita.

Na família de Sérgio, entre a avó, o pai e ele “há muitas diferenças”. “A minha avó nasce nos anos 1930 e forma-se enquanto adulta no Estado Novo, não gosta do Soares, de todo. Quando nasci, Mário Soares já estava a finalizar o primeiro mandato presidencial. A ideia que tenho é transmitida pelo meu pai [que tinha muito boa imagem dele], mas não é uma imagem de distanciamento histórico.” Resumindo, “há muitas gerações dentro da mesma família com ideias diferentes de Mário Soares e ele é um homem que chega para isto tudo”, analisa. Pelo menos, na sua família. Mas esta é a imagem "emocional". De forma distanciada, Sérgio veio a conhecer Soares nas aulas de História do 12º ano. “O maior legado é o seu papel na descolonização e depois no redireccionamento de Portugal enquanto país e potência europeia. E é esse o nosso futuro”, defende.

Sobre as diferenças geracionais, elas existem assim para Patrícia: “Quando morreu [no sábado] as televisões alteraram a sua programação [e centraram-se em Mário Soares]. O que mais me espantou foi o facto de haver quem insultasse [os canais] porque preferiam ver a telenovela a aprender história do nosso país. Pessoas de 50 ou 60 anos, que viveram a situação e não querem saber. A indiferença é algo que me choca.”

Quando foi ao velório na segunda-feira, Leonardo viu muitos jovens prestar-lhe homenagem. “Há uma grande admiração, mas também ódio: muitos incarnam, como suas, as dores de algumas pessoas que viveram a revolução, nomeadamente a descolonização, um ponto altamente volátil”, observa. Há o grupo de jovens que subscreve a ideia de que Mário Soares “vendeu as colónias para se despachar do fardo que era o império” e o grupo que o toma como “o pai da democracia, um estadista, a figura patriarcal do regime”. Se há diferenças geracionais também há geográficas, sublinha: “Basta olhar para o mapa das eleições para ver as variações partidárias do país e isso reflecte-se na memória e entendimento que têm do seu legado”.

Quer se ame ou quer se odeie Soares, ele foi um político que marcou a segunda metade do século XX português, analisa Diogo. Por isso, na geração "mais velha" ninguém ficou indiferente à sua morte. Já nos “mais novos” sentiu “uma enorme indiferença”. Concorda com as distinções regionais apontadas por Leonardo. Ele é natural de Setúbal, cidade que guardou “uma herança muito pesada em relação ao Partido Socialista” e a Mário Soares: o bispo D. Manuel Martins ainda esta semana lembrou um episódio em que o governo Soares negou a fome no distrito nos anos 1980.

Soares antes e depois do 25 de Abril

O que representou, que caminhos abriu, quem melhor conhecem: o homem da luta antifascista, preso mais de uma dezena de vezes pela PIDE, e o seu papel na condução do país para a democracia; ou o político que levou Portugal a aderir à União Europeia, o primeiro-ministro, o Presidente da República?

A relação é muito mais próxima com o político do pós-25 de Abril. Daniela diz: “É uma figura completamente basilar na consolidação do processo democrático. O que mais prezo é ter tido uma ideia extraordinária de Europa. Porque o que o Estado Novo dizia era que não precisava da Europa, tinha o império e não éramos europeus. O que Mário Soares percebe é que nós, portugueses, somos europeus, e a haver uma identidade europeia fazemos parte dela." 

Sérgio concorda que o maior legado é o projecto europeu, “é isso que está nas nossas mãos”. “Não vamos lutar por império nenhum porque passou à história, o que vamos lutar é pela nossa democracia pluralista, em condições de liberdade, e por uma Europa mais justa, mais fraterna.” Diogo acha que se perdeu “uma figura de referência sobre o que é ser um democrata e um republicano” e chama a atenção: “Num momento em que a democracia pode estar a correr sérios riscos, porque a liberdade não é algo adquirido, perder figuras políticas como esta, sem nos apercebermos do que representaram efectivamente, pode ser complicado”.

O político, o democrata: um farol?

Quem representa hoje um peso político como Soares? Olhando à volta, na cena política portuguesa não há ninguém que se possa comparar a Mário Soares, respondem todos: é difícil encontrar essa hipotética figura. Porque, diz Sérgio, “o problema de homens como este, quando morrem, é que deixam um espaço vazio à volta – e já lemos isto muitas vezes nos livros de História”. Soares incorpora a resistência à ditadura, a estruturação constitucional e política do regime democrático, e a sua consolidação: “até por uma questão de idade”, é difícil encontrar quem “incarne essa multiplicidade de valores para os aplicar hoje”. Além disso, “foi muito ajudado por uma geração de europeístas extraordinária – por exemplo, Jacques Delors, Willy Brandt, Helmut Khol – que conseguiu entender a sua visão para Portugal e para a Europa”. Hoje isso desapareceu: “Se falarmos com jovens sobre o que é o ideal europeu eles [referem] este período de crise de 2008 em que perdemos soberania. Na década de 1980, os jovens entendiam que aquilo era um valor de esperança, de futuro, de modernização, de desenvolvimento”.

Sérgio fala da sua visão crítica da Europa: era a crítica de um europeísta. “Não é só um político que morre, é um político europeísta”. Daniela chama-lhe, por sua vez, “o último dessa grande geração de europeus”. Concorda que a crítica que fazia à Europa é a “de alguém intelectualmente muito [envolvido] naquela ideia”, mas que “se sente desapontado”. Leonardo: Soares “conseguiu ver para além da espuma”. O corte que fez durante os anos de exílio, entre 1970 e 1974, deu-lhe “um novo entendimento do mundo – muito urbano”. Com isso, “marcou o contraponto com o regime enquanto resistente e enquanto figura basilar da democracia porque o Estado Novo incarnou os valores conservadores, rurais”, completa.

O que é mais consensual e mais polémico

Tem havido grandes debates, à esquerda e à direita, sobre os dossiers mais polémicos que envolveram Mário Soares. Do combate com o Partido Comunista no pós-revolução à descolonização, o consenso está longe de ser a regra. Em geral, “uma revolução nunca é consensual”, daí esse ser o seu período mais controverso, diz Leonardo. Isso e “a paternidade da democracia”, acrescenta. Daniela lembra, a rir, que no seu Facebook “dizia-se que o proletariado é que era o pai da democracia”. Há quem o chame “o pai da contra-revolução”, ou “o pai da democracia”, lembra Sérgio. “Mas a ideia de democracia não se deve coadunar com estes paternalismos, há muitos pais da democracia. Felizmente não ficámos órfãos”. Até porque o próprio rejeitava “essa exclusividade”. Diogo conclui: “Ainda hoje se discute a ferro e fogo as visões sobre como foi a descolonização. Os povos africanos ainda são herdeiros disto tudo. Gosto de estudar história de quem morreu há mais tempo. O historiador sonha com a imparcialidade, estudar o passado mais próximo tem esses problemas. Como aprendizes de historiadores temos que ter consciência disso”.