Soares queria reeditar Portugal Amordaçado

No final da vida, Mário Soares projectou reeditar o seu livro mais emblemático, há muito esgotado, tal como boa parte da sua extensa bibliografia.

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Montra da livraria portuense Académica, de Nuno Canavez, que Soares frequentava

Escrito no exílio e originalmente publicado em França, em 1972, Portugal Amordaçado é uma obra reconhecidamente central na vasta bibliografia política de Mário Soares, que nela deixa testemunho do seu combate ao salazarismo, mas também a visão de um futuro Portugal democrático, sem colónias e integrado na Europa, profecia para cujo cumprimento ele próprio contribuiu provavelmente mais do que qualquer outro cidadão português individualmente considerado.

Que o livro mais icónico da grande figura política da democracia portuguesa esteja esgotado há décadas e já só se encontre em alfarrabistas não deixa de ser surpreendente, mesmo tendo em conta que obras como esta tendem a sobreviver mal fora do contexto político que as justificou e das circunstâncias em que foram lançadas. Editado em traduções francesa, inglesa, alemã e espanhola antes de sair em Portugal, em 1974, com a chancela da Arcádia, Portugal Amordaçado nunca teve qualquer reedição.

Já no final da vida, Soares mostrou vontade de voltar a ver o livro nas bancas, mas achava que não podia dispensar-se de redigir um novo prefácio, que contextualizasse um texto com mais de quarenta anos. E acabou por já não ter tempo nem saúde para o fazer, explicou ao PÚBLICO a editora Guilhermina Gomes, da Temas e Debates, a chancela do grupo Porto Editora que publicou quase todos os livros mais recentes do ex-Presidente da República.

“Logo depois de o dr. Mário Soares ter feito 90 anos, tivemos uma grande conversa em que falámos da possibilidade de reeditar o Portugal Amordaçado, e ele gostava de voltar a publicá-lo, mas queria escrever uma nova introdução”, diz a editora. Um projecto que, após a morte de Maria Barroso, e com a sua saúde a declinar muito rapidamente, já não conseguiu concretizar.

Não se sabe se o livro virá agora a ser reeditado noutros moldes. “Este não é o momento para conversar com a família”, diz Guilhermina Gomes, que se tem concentrado nestes dias em tentar garantir uma presença reforçada nas livrarias dos 14 títulos de Mário Soares que a editora publicou ao longo da última década e meia, todos eles ainda disponíveis no mercado.

Números que mostram que Soares continuou, quase até ao fim, a escrever a um ritmo intensíssimo. Vários dos livros que publicou na Temas e Debates são compilações das crónicas que escreveu em jornais nacionais e estrangeiros, nesses anos em que se tornou uma das vozes portuguesas mais persistentes e contundentes na crítica ao neoliberalismo, às políticas de austeridade e à submissão da política à finança e à tecnocracia. Um Mundo em Mudança (2009), Luta por Um Mundo Melhor (2010), Crónica de um Tempo Difícil (2012), A Esperança é Necessária (2013) ou Em Defesa do Futuro (2014) são alguns dos títulos que reflectem esse combate que o mobilizou no final da vida.

E Soares não foi dos que acordaram com a crise financeira de 2008. Em 2003, em Um Mundo Inquietante, o fundador do PS já adivinhava o que aí vinha se não se fizesse nada para travar o aumento da desigualdade, a desregulação dos mercados, a subalternização da ONU ou os atentados à ecologia.

Em 2011, Mário Soares publicou Um Político Assume-se, também editado em Espanha e no Brasil, e que na sua dimensão autobiográfica e de testemunho político faz de algum modo a ponte com Portugal Amordaçado. E como grande apreciador de conversas e debates, escreveu alguns livros a meias, de O Mundo em Português - Um Diálogo (1998), com Fernando Henrique Cardoso ou Um Diálogo Ibérico no Contexto Europeu e Mundial (2006), com Federico Mayor, a Diálogo de Gerações (2011), com Sérgio Sousa Pinto. Grande leitor, e amigo de escritores e artistas de sucessivas gerações, deixou-nos ainda, em Incursões Literárias (2003), a sua visão de vinte e seis autores, de Almeida Garrett, Eça de Queirós ou Aquilino Ribeiro, a Miguel Torga, José Rodrigues Miguéis, Natália Correia ou José Cardoso Pires.

Descontados os seus Escritos Políticos (1969), que a editora A Bela e o Monstro e o PÚBLICO relançaram em edição fac-similada em 2015, numa colecção de livros censurados durante o salazarismo, quase todas as obras que Soares publicou nos anos 60 e 70 e 80, como Caminho Difícil: do Salazarismo ao Caetanismo (Rio de Janeiro, 1973), O Futuro Será o Socialismo Democrático (1979) ou A Árvore e a Floresta (1985), são hoje impossíveis de encontrar nas livrarias. E só com sorte se tropeça ainda em algum dos volumes mais recentes das suas Intervenções, cujos dez tomos, publicados pela Imprensa Nacional, recolhem os seus discursos presidenciais.

Inaugurada em 1950 com As Ideias Políticas e Sociais de Teófilo Braga, a obra de Soares inclui cerca de 70 títulos, sem contar com as traduções, os muitos volumes de entrevistas ou as dezenas de prefácios que redigiu para livros alheios. E segundo adianta José Manuel dos Santos no artigo que lhe dedica no PÚBLICO de domingo, terá ainda deixado um romance impublicado, escrito na prisão, e um conjunto inédito de “cadernos íntimos”, que não se sabe ainda se virão ou não a ser editados.