Adeus ao homem “que fez História sabendo que a fazia”

Nos claustros dos Jerónimos, em torno da urna de Mário Soares, 500 individualidades nacionais e estrangeiras evocaram a memória humanista de um “grande português”

Rui Gaudêncio
Rui Gaudêncio
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Uma rajada de vento frio sentiu-se nos claustros do Mosteiro dos Jerónimos quando a urna de Mário Soares foi pousada no centro, no estrado por cima do lago. Tocava o hino nacional e o arrepio já não era só de frio. Havia muita emoção no ar.

Perante as 500 individualidades, nacionais e estrangeiras, que assistiam à sessão evocativa das cerimónias fúnebres de Mário Soares, ouviu-se a voz do antigo resistente à ditadura, fundador do PS, primeiro-ministro, Presidente da República e eurodeputado ecoar no lugar onde, em Junho de 1985, assinou o Tratado de Adesão à então Comunidade Económica Europeia.

"Nestes claustros velhos de quatro séculos juntam-se hoje o passado e o futuro de Portugal", disse então. Mas podia ter sido agora. "Quisemos sublinhar que a fidelidade às nossas raízes e tradições constitui condição essencial à construção do futuro". Ontem, como hoje, aqui.

“Inspirador lugar este, em que nos encontramos, gentes de várias raízes e destinos, unidas pelo essencial: evocar e homenagear um Homem que fez História sabendo que a fazia, mesmo quando tantos de nós nos recusávamos a reconhecê-lo”, diria já no fim da cerimónia o actual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

Evocando a História anterior a Soares contada por Alexandre Herculano, Vasco da Gama, Luís de Camões e Fernando Pessoa, Marcelo lembrou que “nestes Jerónimos se convocam a História que [Mário Soares] estudou antes de a fazer, a cultura que criou com talento e deleite, o ecumenismo que foi o corolário inevitável da sua inteligência e da sua liberdade”.

Como Marcelo, também António Costa evocou a visão humanista daquele que foi, “em momentos decisivos, o rosto e a voz da nossa liberdade”. Numa mensagem em vídeo, gravada a partir da Índia, onde se encontra em visita de Estado, o primeiro-ministro lembrou como, inspirado por essa “grande visão humanista”, Soares “configurou o Portugal democrático e o autor das suas opções fundamentais”, “construiu o Estado de direito social e fez reformas que tornaram Portugal um outro e melhor país”.

Um humanismo que Marcelo Rebelo de Sousa definira como aquele “em que o iluminismo racionalista avulta, mas caldeado pelo conhecimento dos tempos que o antecederam, abrasado pelo calor do liberalismo, enriquecido pelos socialismos variados – dos marxistas aos personalistas – e depois vivido com a premência dos existencialismos e dos neo-realismos, fundindo letras e artes plásticas, tudo ao serviço de uma intervenção política e social incessantes e galvanizadora”. Porque era afinal “um humanismo situado, combatente, militante”, “no afã de refazer Portugal”.

António Costa recordou o "grande português de quem tivemos a honra e ser contemporâneos" como alguém que "pode ter-se enganado às vezes no acessório, mas nunca se enganou no fundamental". E o essencial, disse, era " a visão que tinha do país, da Europa e do mundo".

"Lutou sempre por um país livre e democrático, com desenvolvimento e justiça social". Via a Europa como "comunidade de ideais e valores, fundada na igualdade dos seus membros" e " capaz de ser uma grande força de paz e progresso no mundo do século XXI".

Coube a Ferro Rodrigues lembrar que nem sempre Soares foi bem entendido e muito menos consensual. “Mário Soares costumava dizer que não devem ter existido muitos portugueses que num dado momento, entre 1075 e 2005, não tenham votado pelo menos uma vez nele. E também que em certos momentos ou fases não o tivessem combatido”, lembrou o presidente da Assembleia da República. O mesmo aconteceu com ele próprio.

Mas foi de gratidão que falou do homem que faz parte dos “imprescindíveis” de que falava Bertolt Brecht, daqueles que não lutam um dia ou muitos dias ou muitos anos, mas dos que “lutam toda a vida”.

Filhos prometem manter o legado

Dos que o acompanharam toda a vida - os filhos Isabel e João -, vieram logo ao início da cerimónia as palavras mais emocionantes. João falou de Mário: da sua "capacidade de resistência e coragem excepcionais" desde os tempos de resistência ao fascismo, das amizades, em especial nas artes, de Jaime Cortesão a Miguel Torga, de Júlio Pomar a Vieira da Silva, de Sophia de Mello Breyner a Manuel Alegre.

Mário teve um "percurso cívico e político, de homem livre e de liberdade, de intervenção constante que marcou Portugal", defendeu o filho, e "ajudou a abrir um outro caminho para o país", o que o tornou "uma das grandes figuras do Portugal democrático do 25 de Abril" e lhe deu "um lugar entre as grandes figuras da Europa do século passado" como Olof Palme, François Mitterrand, Felipe González ou Willy Brandt.

Isabel lembrou o pai “sempre presente”, da “cumplicidade” de ambos depois da “explosão de liberdade” de 1974, das campanhas que fizeram juntos “de Norte a Sul do país, os dois no nosso velho Renault 16”. Lembrou a mãe – cuja voz acabara de se ouvir, a recitar “Os dois poemas de amor da hora triste”, de Álvaro Feijó -, afirmando que o pai “nunca teria feito o que fez nem chegado onde chegou sem a presença tranquila, serena e doce, mas firme, dessa mulher admirável que foi a sua”. “Tinham a mesma dimensão, é esse o nosso maior orgulho”. E garantiu que a família, filhos e netos, manterão viva “a imagem, o legado e a fundação” Mário Soares.