Crónica

O pensamento generoso de Zygmunt Bauman

Decano da sociologia e um dos pensadores mais influentes do nosso tempo, o polaco Zygmunt Bauman, que morreu nesta segunda-feira, nunca desistiu de comunicar densidade com inteligibilidade.

As grandes narrativas como o marxismo, o existencialismo ou estruturalismo, que tinham como função tentar explicar o mundo, para o poderem transformar, praticamente desapareceram. O mesmo aconteceu com a figura singular do intelectual clássico, o mestre rodeado dos seus discípulos, que foi sendo substituída pelos milhares de potenciais intelectuais formados na academia que, como diz com ironia o historiador Christophe Prochasson, tendem a cultivar as delícias da comunicação apenas entre si.

Na actualidade não falta quem se dedique ao pensamento. A questão é que muitos estão fechados na especialização, num círculo de competências únicas, enquanto no extremo oposto vislumbramos  quem esteja apenas interessado na mediatização, legitimando ideias feitas. Nos interstícios estava Zygmunt Bauman, consciente de que hoje não existe um eixo nítido de emissão e recepção, mas sim centros principais e efeitos transversais, debates fundamentais e inconsequentes, numa sobreposição de discursos que muitas vezes não chegam a formar um todo coerente. No entanto, ele tinha noção de que essas eventuais limitações não o deviam furtar à exposição pública, fazendo-o num estilo em que a sociologia se cruzava com a filosofia, num diálogo com a literatura ou com as ciências da comunicação.

E fê-lo até ao fim, em inúmeros textos e entrevistas, preocupando-se em ser compreendido, dando conta da realidade a partir de um conjunto de concepções inteligíveis que o próprio criou. Nas suas obras mais abertas ao público aplicou o conhecido conceito de “líquido” – que se disseminou, sendo apropriado das mais diversas formas, como fez Paulo Cunha e Silva, que cunhou o Porto como “cidade líquida” – ou de “ambivalência”, para reflectir os conflitos contemporâneos: as desigualdades sociais, os paradoxos da globalização, os efeitos das ondas de informação, a diluição dos afectos, as relações virtuais, as crispações identitárias, o medo do outro ou as rupturas sociais que põem em causa a democracia.

Como acontece sempre nestes casos, houve quem o acusasse de ser prolífico de mais ou de falta de densidade. O que houve da sua parte foi a consciência de que, a partir do momento em que se vem para o espaço público equacionar problemas gerais com uma actualidade evidente, há sempre factores que não se controlam por inteiro. Mas ainda bem que existem figuras como Bauman que o fazem, nunca desistindo de criar pontes entre pensamento e quotidiano e esforçando-se por comunicar complexidade com clareza, virtudes tão importantes quanto a profundidade conceptual, que nunca faltou nas suas obras de maior fôlego.

Foi um desses pensadores que marcaram uma época, ajudando-nos a decifrar o mundo em que vivemos desde o final do século XX, reflectindo uma “modernidade líquida” em que tudo nos surge fragmentado e desordenado e em que a tentação de criar uma ilusão de vida total à parte espreita a todo o momento. Nas cidades, ou na Internet, podemos procurar refúgios de semelhança, dizia ele, mas ao fazê-lo privamo-nos de entender, negociar e de experimentar com desconhecidos de diferentes condições económicas, costumes, credos ou cores de pele, com os quais na verdade estamos predestinados a viver nestes tempos.

Tinha fama de ser pessimista, ideia que recusava. Afirmava que, pelo contrário, o futuro não está escrito de antemão. Há sempre escolhas políticas, sociais e culturais que podem ser feitas, mesmo quando tudo parece perdido. Ele sabia-o bem. Com 92 anos, testemunhou a ascensão e queda do fascismo e do comunismo e, nos últimos tempos, questionava o capitalismo nas suas formas mais perversas – o que nunca o impediu de interpretar o mundo, para melhor o tentar mudar.