Opinião

A culpa do “dá-lhe mais, dá-lhe mais” é dos pais?

A aldeia que está ocupada em sobreviver está a deixar para trás estes miúdos que não são só os filhos dos outros, são também os nossos filhos.

Esta semana foi particularmente rica em casos de violência. Um aconteceu em Novembro mas só agora foi conhecido. Outro foi acontecendo ao longo da semana, começou com o rapto de uma mulher, o seu desaparecimento durante dias e terminou com o seu estrangulamento. Não morreu, mas está em coma. Pelo meio, soubemos que ainda não foi levantada a imunidade aos filhos do embaixador iraquiano pela agressão a um jovem em Ponte de Sor, em Agosto passado.

Quando vejo as imagens da agressão do jovem em Almada, lembro-me de outras que também já testemunhámos como as da jovem de 13 anos agredida junto ao Colombo, em Lisboa, ou do rapaz da Figueira da Foz esbofeteado por duas garotas. Perante as imagens, pergunto-me sempre: E os pais? Não sou capaz de dizer que a culpa é dos pais, mas pergunto-me: onde estão? O que conhecem dos filhos? O que lhes transmitiram? Com que modos falam com eles? Também é tudo ao pontapé? “Deixa-me dar-lhe um bico”, ouve-se no vídeo de Almada e o autor da frase dá um pontapé na cabeça do rapaz imobilizado e no chão.

De seguida, pergunto-me: E a escola? Já sabemos que alguns professores se escusam a dar educação porque a sua função é ensinar. Mas o que ensinam realmente? Como falam com aqueles miúdos quando estão a ensinar e quando eles não querem aprender? Alguns, senão a maioria, destes rapazes e raparigas têm em comum percursos de insucesso escolar, sabemos depois. Quando é que a escola desistiu deles e os mandou para os cursos profissionais?

De seguida pergunto: E o Estado? Que condições dá aos pais para que tenham tempo para os seus filhos? Que leis laborais existem que protejam os pais de não ter sempre sob a cabeça a ameaça do desemprego? Que ofertas tem para estes jovens na escola – onde está a educação cívica ou para a cidadania? –; que apoios dá à comunidade para que esta tenha respostas para estes jovens, por exemplo nas juntas de freguesia, nas bibliotecas municipais, nas sociedades recreativas, nas academias de música, etc. Porque os miúdos andam bastante ocupados nos seus primeiros anos de vida escolar, mas nos seguintes andam de chave ao pescoço porque estamos convencidos que já estão crescidinhos e se orientam.

E como é que eles se orientam? Em bando, uns atrás dos outros, de preferência atrás do maior, do mais estúpido, do mais violento, daquele que parece não ter medo. Porque eles estão todos cheios de medo, é natural, estão a crescer e isso é assustador.

Andam por aí, a jogar uns vídeojogos onde podem matar em poucos segundos mil tipos que aparecem detrás de portas e janelas; a ver séries onde a morte é banal. Há mais de 20 anos, o Papa João Paulo II alertava que a televisão era a ama de muitas crianças, hoje são os portáteis, os tablets e os smartphones onde eles vêem coisas que não imaginamos que existem. E onde a violência gratuita, da agressão à violação, é normal.

Aliás, até os meios tradicionais de comunicação banalizam a violência quando mostram repetidamente as imagens dos rapazes a agredirem outro, numa rua de Almada: “Dá-lhe mais, dá-lhe mais, dá-lhe mais”, ouvimos até à exaustão, palavras acompanhadas por imagens de murros desferidos repetidamente na cabeça, deixando o rapaz atordoado. Quantas vezes nos últimos três dias vimos estas imagens para já as saber de cor? Não se cansam as televisões de as mostrar? Não sabem que estão a fazer mal?

E voltamos aos miúdos. A aldeia inteira que é precisa para educar uma criança não existe. Não está lá. Não estão os pais, não está a escola, não está a comunidade, não está ninguém. E eles estão sozinhos. São vítimas? São. São vítimas do que não viveram, da ausência dos pais, da falta de amor ou de tempo dos pais, da falta dos ‘nãos’ quando se portam mal, da falta dos castigos, da falta de valores – não falo sequer da Igreja porque essa já deixou de existir para muitas famílias pela falta de exemplo que dá –, da falta de perspectivas de vida.

E a aldeia ocupada que está em sobreviver está a deixar para trás estes miúdos que não são só os filhos dos outros, são também os nossos filhos.