Três vozes para celebrar o calor das culturas ibero-americanas

Gisela João, Yomira John e Mariela Condo juntam-se no palco do São Luiz para a abertura oficial de Lisboa 2017 – Capital Ibero-Americana de Cultura. Serão dois espectáculos, o de sábado só para convidados, o de domingo aberto ao público.

Fotogaleria
Mariela Condo e Yomira John MIGUEL MANSO
Fotogaleria
A equatoriana Mariela Condo descende da comunidade indígena puruhá MIGUEL MANSO
Fotogaleria
Mariela Condo com a sua banda MIGUEL MANSO
Fotogaleria
A panamiana Yomira John fez carreira internacional em França mas começou no México MIGUEL MANSO
Fotogaleria
Yomira John MIGUEL MANSO

Começa com selos e fecha com danças, este sábado, no Teatro São Luiz, aquele que é o espectáculo oficial de abertura de Lisboa 2017 – Capital Ibero-Americana de Cultura. E tem como convidadas de honra três vozes dignas de aplauso: Gisela João (Portugal), Yomira John (Panamá) e Mariela Condo (Equador), que actuarão por esta ordem, em três concertos consecutivos. Querem saber se cantarão juntas? Talvez haja uma surpresa. Para já, o espectáculo inicial é reservado a convidados, mas no domingo à noite é aberto ao público – e quem não o quiser perder é melhor apressar-se.

Yomira e Mariela trazem a Portugal não apenas a “voz” dos respectivos países mas também um sentimento comum de pertença a um espaço cultural de influências mútuas. Yomira John sente-o assim: “O Panamá é um país com muita influência multicultural. E eu absorvi isso desde criança, está nos meus genes. Venho de uma família (o meu pai, a minha mãe, a minha avó) com muita musicalidade de diversas origens: negros, descendentes de franceses, haitianos, martiniquenhos.” A música cubana também se manifestou muito fortemente no Panamá. “A minha mãe cantava boleros, o meu pai tocava bongós… A música panamiana é muito rica nas combinações entre a música andaluza e as tradições indígenas: primeiro chegou o violino, depois o acordeão e por fim o tambor, que veio com o primeiro negro trazido pelos espanhóis. Eu absorvi, como uma esponja, muito de tudo isto e isso vê-se na minha música. Tenho a parte indígena, pelo lado da minha avó; tenho a parte negróide, forte; e tenho o lado espanhol, as expressões ciganas. Tudo muito natural. E tudo isto converge na minha cultura, como panamiana mas também como ser humano.”

No México, raízes humanas

Yomira fez carreira internacional em França mas começou no México. Este país viria a ser muito importante também para Mariela Condo, que descende da comunidade indígena puruhá: “Estive no México oito meses fundamentais para a minha vida, como ser humano e como cantora. Senti que estava a voltar a um sítio que me era familiar. Devolveu-me raízes, não antropológicas ou sociológicas, mas como ser humano, inclusive com a minha própria voz.” A relação de Mariela com as canções é também profunda. “Faço-as de acordo com o sentimento de cada instante. Pode ser uma flor, um amor, um desamor, histórias que encontro. Mas não gosto de cantar algo só porque me pedem ou porque é popular ou famoso. Gosto de cantar o que me toca e posso fazê-lo noutras línguas. Por exemplo, Vinicius de Moraes. Ou You don’t know what love is, que é um blues lindíssimo.”

Yomira, por sua vez, só tarde se tornou compositora, mas com segurança: “Comecei a compor mais seriamente quando me dei conta de que não era apenas a rima que era importante, mas também a palavra e a expressão. Mas sou mais compositora de ritmos, repentista.” Em Lisboa, tem um objectivo: “Vou focar-me, em particular, num disco que se chama Canciones para la Democracia, que é o primeiro disco deste género que se faz no meu país. E este foi um gesto revolucionário, em que compilámos temas do Canto Nuevo, da Trova, de todos os países na época das revoluções latino-americanas e também do que se viveu na Europa. Escolhemos os temas mais importantes, e esse é o trabalho que venho aqui apresentar.”

Os dois lados do mundo

O olhar de ambas sobre a situação actual na América Latina e no mundo é bastante crítico. Yomira John diz que a situação é “caótica”: “Estamos a andar demasiado rápido com as tecnologias. Temos gente analfabeta, que não vai à escola nem tem sapatos, mas tem telemóvel e se perde em selfies, num vazio imenso. E isso dói-me. Porque estamos consumidos pelo capitalismo. É o mesmo discurso de há 40 anos, só que agora é tudo mais… fashion.” Mariela também não se mostra optimista, mas… “Creio que o mundo, em geral, está doente. Eu não tenho televisão, nem rádio, nem telemóvel (porque não quero) mas é evidente o grau de desumanização que estamos a viver. Ao mesmo tempo, encontramos gente tão bonita, tão humana, que vamos construindo famílias maiores. Há o lado feio do mundo mas há também o do encontro profundo com outros seres humanos, e isso mostra uma pequena luz de esperança que não se deixa apagar.”

No palco do Teatro São Luiz, cada cantora terá o seu próprio grupo de músicos. Com Gisela João (voz) estarão Bernardo Couto (guitarra portuguesa), Nelson Aleixo (viola) e Francisco Gaspar (baixo); com Yomira John (voz) tocam Alain Vernerey (piano), Néstor Alberto Sanz (percussão) e Eduardo José Rodríguez (baixo); e com Mariela Condo (voz) vêm Beto Gómez (guitarra), Milton Castañeda (instrumentos andinos) e Antonio Cillo (percussão).

Sábado, também no São Luiz e antes do concerto (que se repete no domingo), haverá uma emissão filatélica a cargo dos CTT (às 19h), alusiva à Capital Ibero-Americana. Depois do concerto, haverá, pela meia-noite, danças no Jardim de Inverno com o DJ La Flama Blanca (Portugal). A cenografia é de Pedro Valdez Cardoso.