CCB vai lançar concurso para construir hotel de cinco estrelas

Elísio Summavielle, homem do património e presidente do Centro Cultural de Belém, traçou como objectivo melhorar a oferta cultural da casa e a construção do hotel e dos espaços comerciais há muito adiados. Um CCB com mais receita é um CCB mais autónomo e, por isso, melhor.

Já foi secretário de Estado da Cultura, director-geral do Património Cultural e trabalhou na Lisboa 94, Capital Europeia da Cultura, a convite de João Soares, um amigo de longa data. Foi também por nomeação do então ministro da Cultura que chegou há pouco menos de um ano à presidência da Fundação Centro Cultural de Belém (CCB), uma novidade para quem sempre fez carreira no património e na administração pública.

Elísio Summavielle, 60 anos, militante do PS e “republicano por educação e convicção”, costuma dizer, foi muito criticado por aceitar o cargo que pertencia a António Lamas, um independente cujo mandato só terminaria em Outubro deste ano e que foi afastado por João Soares, no meio de uma intensa polémica que envolveu também a Câmara de Lisboa. Em causa estava, defendia o Governo, um plano para a gestão do eixo Belém-Ajuda que fora encomendado a Lamas pelo anterior primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, e que o executivo de António Costa considerava, disse-o João Soares, “um disparate total”. Um plano que, argumentava, esvaziava o CCB da sua missão primordial, ameaçava a autonomia dos outros equipamentos culturais da zona e minava a autoridade da autarquia (acusações que, naturalmente, Lamas refutou).

Se é verdade que o projecto do anterior presidente do CCB para Belém não era consensual, também é verdade que o anúncio do nome de Summavielle para o substituir foi recebido com acusações de favorecimento graças à proximidade de João Soares, à militância no PS e à filiação maçónica que nenhum dos dois esconde.

Nesta entrevista ao PÚBLICO e à Rádio Renascença, Elísio Summavielle explica que cenário encontrou quando chegou a Belém e fala dos planos que tem para aquela casa que, admite, perdeu nos últimos anos muita da relevância que já teve no passado. E garante que tudo fará para que sejam construídos os módulos 4 e 5 do CCB, a ocupar por um “hotel de prestígio” com 160 quartos, outras áreas comerciais e, quem sabe, até mais espaços culturais. O concurso para a obra deverá ser lançado este ano e a primeira pedra em 2018. Só com este investimento, que dependerá em boa parte de privados, haverá condições para assegurar a sustentabilidade do CCB e para o libertar de toda a burocracia que hoje o limita.

Chegou ao Centro Cultural de Belém há quase uma ano e já terá tido tempo para fazer o diagnóstico da casa. Já conseguiu equilibrar as contas do CCB?
Está decorrido o ciclo dos nove meses da minha chegada ao Centro Cultural de Belém – é um parto. É óbvio que, logo nos primeiros tempos, foi feito com muita intensidade um diagnóstico do estado de saúde da Fundação [Centro Cultural de Belém] e posso dizer que estamos a caminho de um equilíbrio. As contas finais de 2016 são bastante melhores do que as do ano passado [2015]. Existia um passivo razoável de dívidas a fornecedores que estão totalmente liquidadas e a receita da casa aumentou, o que é bom, porque tudo aquilo que possa ser feito a mais na programação é em função da receita obtida com os alugueres e etc. Felizmente estes últimos meses foram bastante preenchidos com iniciativas de privados. Vamos aguardar pelas contas durante Janeiro, mas estou em crer que são simpáticas e que nos permitem garantir alguma sustentabilidade durante este próximo ano de 2017.

De quanto é o passivo do CCB?
Neste momento não há passivo. Todas as dívidas a fornecedores estão liquidadas, mas em Maio-Junho andava à volta dos 800 mil euros.

Reposta a estabilidade financeira, qual é agora a sua prioridade?
A sustentabilidade da casa só pode ser assegurada, do meu ponto de vista, por uma iniciativa que me parece fundamental e que eu vou perseguir durante este ano e que é o lançamento do concurso para a construção dos módulos 4 e 5 do CCB. Há muitos anos que se fala disso, mas até hoje, por razões diversas, nunca avançou. É essa a minha prioridade do ponto de vista da economia da Fundação Centro Cultural de Belém, independentemente de uma melhoria progressiva da diversidade e da qualidade da oferta cultural.

Os módulos 4 e 5 vão permitir a construção de um hotel e de uma zona comercial. Haverá espaços culturais também?
Pode haver. No entanto, a conjuntura está, parece-me, francamente favorável à construção de um hotel de prestígio, de cinco estrelas, com cerca de 160 quartos. Existem vários estudos prévios. Isso será depois afinado com o atelier autor do projecto, Gregotti-Salgado [a dupla Vittorio Gregotti e Manuel Salgado, que fez todo o CCB].

Em termos de financiamento, o que é que podemos esperar? Como é que vai arranjar dinheiro, nesta conjuntura difícil, para conseguir construí-los? Isso implica uma fatia significativa de [investimento] de privados?
Isso será definido nos próprios termos do concurso. Estou já a negociar com a Câmara Municipal de Lisboa e a envolver também a Associação de Turismo de Lisboa neste processo. Muito em breve terei reuniões com o Ministério das Finanças no sentido de saber qual é a fórmula adequada para a execução do concurso, mas tudo me leva a crer que o próprio investidor investirá na construção. Será, portanto, um contrato de concessão, construção e exploração. 

Já foi certamente feita uma auscultação àquelas entidades que poderão vir a ser promotoras. Já há interessados?
Não directamente. O que posso dizer é que já houve pelo menos um ou dois privados que sondaram e se manifestaram interessados num eventual concurso.

E quanto à expropriação daqueles terrenos…
Os terrenos estão totalmente resolvidos, finalmente. Aquela coisa muito prosaica que são as cadernetas prediais já estão na nossa posse e, de facto, os terrenos pertencem à Fundação Centro Cultural de Belém. Há essa condição sine qua non para lançar agora o concurso e fazer o caderno de encargos. É um trabalho complexo, exigente. Não gosto muito de prometer – nunca prometi nada –, mas gostava que em 2018 fosse lançada a primeira pedra.

A construção destes módulos virá a gerar mais receita para o Centro Cultural de Belém…
Obviamente que sim. Essa concessão terá uma renda. Eu penso que a partir daí há condições para uma sustentabilidade grande da fundação e para voltar à navegação inicial, para sair da actual lei-quadro das fundações e dos constrangimentos que ela nos impõe. 

O que está a dizer é que o CCB precisa de mais autonomia?
Penso que sim e nessa matéria sou insuspeito, porque toda a vida trabalhei na administração pública, com os constrangimentos que existem com as consultas, os concursos e toda a burocracia que está inerente. Este constrangimento não é nada que me assuste, mas numa casa com as características da Fundação Centro Cultural de Belém é óbvio que a autonomia financeira é necessária a uma boa performance nas suas diversas missões. É desejável que isso aconteça e quanto mais rápido melhor.

Pode dar-nos alguns exemplos da forma como essa autonomia pode tornar mais fácil a vida do CCB?
Quando cheguei ao CCB, em finais de Março do ano passado, deparei-me com a situação da “auto-restauração”, ou seja, com o facto de o concessionário privado [do restaurante] ter saído e de o CCB ter absorvido os seus chefes e toda a parafernália da cozinha e da restauração. A partir daí houve que disciplinar todos esses procedimentos – estão a ver o que é fazer concursos para os robalos e para as hortaliças num ritmo que é diabólico? É óbvio que são constrangimentos administrativos que depois prejudicam a própria rentabilidade do negócio.

Deixemos então de falar de robalos e hortaliças e passemos à missão do CCB como agente de divulgação e produção artística. É mais ou menos consensual que nos últimos anos – e falamos em largos anos – o CCB tem vindo a perder relevância na cidade e no país. Por um lado, porque a concorrência aumentou e, por outro, porque houve uma redução contínua dos orçamentos de programação. É possível ter relevância com uma programação de dois milhões de euros ou precisa definitivamente de um apoio maior do Estado para programar melhor?
É evidente que sim, que o reforço do apoio do Estado será sempre bem-vindo, mas temos de ser realistas em relação a isso. O facto é que, desde o início da sua existência até hoje, muita coisa mudou no país em termos de oferta cultural e, por isso, a relevância que teve nos anos 90 e no início deste milénio não é a mesma [que tem hoje]. Não tanto pela falta de dinheiro, mas também por alguma diversificação da oferta. É óbvio que houve tempos em que o Estado dava ao CCB dez milhões de euros por ano – neste momento dá 6,7 – e portanto o que é aplicado em programação depende muito do sucesso da vertente comercial. Com 170 trabalhadores e quase cinco milhões de euros de salários por ano e 3,5 milhões de despesas de manutenção, electricidade, segurança...

Sobra muito pouco para programação…
É óbvio que isso ultrapassa a prestação do Estado e é portanto a partir da receita que nós podemos arriscar na programação. É por isso que ela é prudente, mas também é realista – o excesso de oferta não gera público. O que é objectivo maior é caminhar no sentido de uma internacionalização e de um aumento de prestígio da oferta cultural no próprio CCB. É evidente que não há condições financeiras – e teria de ser a três anos – para trazer a Lisboa a Filarmónica de Berlim…

Também para programar a três anos seria importante ter autonomia financeira…
Exactamente. E para que isso seja possível também é importante encontrar parceiros para trabalhar em conjunto.  

As parcerias são a fórmula mágica? Estamos a falar de co-produções, com partilha de custos, ou de co-apresentações?
De partilha de custos, apresentações, etc. Temos já este ano, em Março, uma iniciativa importante, de prestígio, Tristão e Isolda, a ópera, que é uma co-produção com o [Teatro Nacional de] São Carlos e que nos vai permitir ter acesso, em duas récitas, a um grande produção que um monumento fantástico como o São Carlos não tem condições para acolher. Estamos a falar de dividir o mal pelas aldeias e de quebrar um bocadinho a lógica do quintal de todas estas instituições, do “eu quero ser melhor do que o vizinho”…

Está a falar de que instituições?
Estou a falar do país inteiro – do Porto, com a casa da Música e o Teatro [Nacional de] São João; do [Teatro Nacional de] D. Maria [em Lisboa]; de Coimbra, com o Convento de São Francisco…

E encontrou disponibilidade por parte de todas essas instituições?
É um trabalho que se vai fazendo e eu creio que a necessidade aguça o engenho. A partir do momento que todas têm constrangimentos fortes tendem a ter de se entender. Em primeiro lugar está o público e o mais importante é que ele tenha acesso a qualidade, independentemente do logótipo de quem faz, de quem produz. A qualidade é absolutamente necessária e o CCB tem condições logísticas únicas. Felizmente também há grandes salas no resto do país. Esse aumento da qualidade da oferta depende de todos nós.

Disse há pouco tempo, na apresentação da programação do CCB para este ano, que ela deve ter um cunho pessoal do seu presidente. Onde é que ele está no que se vai ver em 2017?
Sempre trabalhei em equipa e nunca prescindi do poder que tenho, mas sempre acreditei que é das discussões que nasce a luz. Não vejo isso como um cunho pessoal, mas [se existe], talvez [esteja] numa ou duas iniciativas na área da literatura e pensamento. E depois há o cinema — temos máquinas de projecção de filmes fantásticas com 4K, que eu não conhecia. Por exemplo, o último filme do Tarantino [Os Oito Odiados] tinha uma versão em [película de] 70 mm que não veio a Portugal porque supostamente não havia máquinas e ali havia. Mas depois há os clássicos...

Refere-se à programação com a Midas Fimes… Para além de Lawrence da Arábia, que já foi anunciado, o que é que podemos ver no grande auditório ao longo do ano?
O Leopardo [de Luchino Visconti], depois vamos ter na Páscoa Os Dez Mandamentos, grande clássico de Cecil B. DeMille... São aqueles filmes do cinema-espectáculo que podem levar o avô, o filho e o neto ao cinema. O Grande Auditório tem as condições ideais para que isto se torne um hábito.

As administrações do CCB sempre tiveram relações tensas com a Fundação Berardo. Foi recentemente renovado o acordo para a permanência do museu no CCB. Em que é que este novo acordo é mais benéfico para o CCB do que o primeiro, de 2006?
Há um passo importante, que é a possibilidade de a Fundação Berardo passar a ter receita através da bilhética, do acesso ao módulo de exposições.

Isso vai aliviar as contas do CCB?
Indirectamente, talvez. Ainda que não estivesse a Fundação Berardo no módulo de exposições o CCB teria de o manter, os encargos existiriam sempre.

Mas o CCB não teria uma colecção permanente à sua guarda, com os custos que isso tem.
Exacto. Mas esses custos, se forem comparados com os de há dez anos… Os custos não variam muito. Eu entendo que a Colecção Berardo é um serviço público. Qualquer jovem estudante de Belas-Artes que queira saber o que foi o século XX tem de ver aquela colecção, não tem acesso a outra. E no nosso país, que é bastante limitado, aquela colecção é importante.

Quanto é que o CCB vai poupar em 2017 com o facto de esta adenda [ao acordo do Estado com Joe Berardo] existir?
Como diz alguém no futebol, prognósticos só faço no fim do jogo. O que há é condições de um diálogo franco e aberto, nomeadamente com o comendador Berardo. Abre-se a possibilidade de haver uma colaboração frutuosa e virtuosa para o próprio CCB. Um exemplo: este ano vamos ter as comemorações dos 100 anos da Revolução Russa e aquilo que se passa na área da literatura e pensamento, com conferências e debates, pode ser complementado com alguma acção da Fundação Berardo. É conjugar esforços, procurar sinergias. 

Já sabe quanto custará a entrada no Museu Berardo?
Não. Tudo isso terá de ser equacionado quando se reunir o novo conselho de administração da Fundação Berardo, que tanto quanto sei estará a ser constituído.

Quem vai representar o CCB nesse conselho?
Sou eu, por inerência. Quanto aos outros, quem de direito anunciará.