Um fantasma brincalhão que se apaixona ao som de inéditos dos Clã

O musical infanto-juvenil é a nova encenação de Nuno Carinhas e estreia-se esta quinta-feira no Teatro Carlos Alberto, no Porto.

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Manuela Azevedo, a vocalista dos Clã, tem um dos papéis principais: “Fui descobrindo que decorar um texto é como decorar canções” Paulo Pimenta

Sabina é uma jovem cantora que prepara a sua estreia em palco quando se depara com um conjunto de misteriosas peripécias nos bastidores do teatro onde ensaia. Ora caem chapéus do tecto, ora acontecem apagões de luz, ora descem línguas de pano vermelho sobre o palco. São sinais do além – ou partidas de Luca, um fantasma brincalhão que só quer amar e ser amado. Está lançado o repto para , espectáculo que conta com música ao vivo dos Clã e abre a nova temporada do Teatro Nacional São João (TNSJ), estando em cena a partir desta quinta-feira no Teatro Carlos Alberto, no Porto.

Maria Quintelas dá a vida a Sabina, que é insegura e medricas quanto baste e canta para espantar os seus males com o apoio da irmã, Sara, papel interpretado por Manuela Azevedo. Depois do sucesso de Disco Voador, álbum editado em 2011, os Clã pisam novos territórios para regressar aum público infanto-juvenil. “Fui descobrindo aos poucos que decorar um texto é como decorar as canções”, anuncia a vocalista da banda, acrescentando que “à força de tanto repetir, [o guião] acaba por ficar na cabeça como a música”. Manuela Azevedo não é novata na representação, mas a música tem sido a sua constante rede de segurança em espectáculos como A Lua de Maria Sem, Baile e Coppia. “Eu canto mais do que falo, e ainda bem”, brinca.

A vontade de Nuno Carinhas em colaborar com os Clã já era antiga, mas os astros alinharam-se quando quis pensar um espectáculo dedicado à infância. “A Manuela é uma actriz, tem uma capacidade imensa de encarnar personagens e é muito expressiva”, diz o encenador, descrevendo o espectáculo como uma espécie de “concerto encenado”, uma vez que “a música tem aqui um espaço muito grande”. A banda está, aliás, presente em cena no decorrer de toda a peça, cujo movimento foi desenhado por Victor Hugo Pontes. O coreógrafo já é colaborador habitual nos vídeoclipes dos Clã, o que faz dele, segundo Manuela Azevedo, “a melhor pessoa para estar na equipa, porque sabe os limites da banda e o que pode pedir”.

À semelhança de todo o libreto de , as canções foram escritas pela poeta e letrista Regina Guimarães, que já tinha trabalhado com a banda em Disco Voador. “Ela tem uma escrita veloz, meteórica, muito eloquente”, refere Nuno Carinhas. Apesar de pensada para os mais pequenos, a banda-sonora deste musical não pretende ser uma continuação do disco. “Neste caso, as canções são muito mais servas à história”, diz Manuela Azevedo. E, pelo menos para já, a banda não considera vir a editá-las futuramente. “Neste momento, estamos mais preocupados com as deixas”, diz a cantora.

Teatro dentro do teatro

Além de uma história de amor, é o teatro dentro do teatro. Afinal, passa-se nos bastidores do espectáculo de uma cantora debutante, conta com o fantasma residente Luca (João Monteiro) e com o director de cena Calu (Pedro Frias). Há, inclusive, um momento em que descem sobre o palco palavras do universo lexical teatral. “Os miúdos podem ficar a saber mais sobre o teatro, porque há esse desdobramento de linguagens”, explica Nuno Carinhas.

A figura do fantasma é, também, tema recorrente na máquina que é o teatro. De Fantasma da Ópera – cujo protagonista também se apaixona por uma cantora e serviu de inspiração a – a lendas como o Holandês Voador, que deu origem à ópera Navio Fantasma, de Richard Wagner, uma sala de teatro é tanto mais mágica quanto mais fantasmagórica for. Mas ao contrário dos seus pares, Luca é um fantasma verde e luminoso que quer afecto e gosta de fazer rap. “Queríamos torná-lo um fantasma mais moderno”, diz Nuno Carinhas. O encenador clarifica, entre risos, que as obras recentes feitas no Teatro Carlos Alberto (incluindo a nova fachada grafitada) propiciam a concepção de “um fantasma mais jovem e oriundo da cidade”.

O musical destina-se aos “espectadores muito exigentes” que são as crianças maiores de seis anos, mas pretende chamar miúdos e graúdos ao teatro. “Espero que saiam daqui muitos fãs do teatro de todas as idades”, diz Manuela Azevedo. Se forem fãs dos Clã, podem juntar o útil ao agradável e ouvir inéditos da banda durante cerca de uma hora de espectáculo. está em cena até 29 de Janeiro e, para o último dia, está agendada uma sessão em língua gestual portuguesa e com audio-descrição.