Primeiro medicamento oncológico português passou nos ensaios iniciais em doentes

Ensaio clínico da molécula que nasceu na Universidade de Coimbra revelou que, para já, é segura e bem tolerada no tratamento de cancro avançado da cabeça e do pescoço. Um grupo de 14 doentes testou-a e um deles ficou sem sinais do tumor. Resultados, no entanto, ainda no início.

Modelo da molécula redaporfina
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Modelo da molécula redaporfina

Um grupo de 14 doentes com cancro avançado da cabeça e do pescoço testou durante dois anos uma terapia fotodinâmica com uma nova molécula chamada redaporfina, desenvolvida por investigadores da Universidade de Coimbra. Depois de encontrada a dose exacta eficaz, um doente que se encontrava já em cuidados paliativos foi submetido a esta terapia e ficou sem sinal do tumor. O projecto de investigação do primeiro medicamento oncológico português vai agora ser alargado a mais doentes com este cancro, esperando-se que possa ser uma opção terapêutica acessível em 2022.

A molécula desenvolvida na Universidade de Coimbra é um fotossensitizador o que, em termos simples, significa que entra em acção e destrói um tumor quando, através da terapia fotodinâmica, é iluminada por uma determinada “cor”. Neste caso, é o infravermelho que “acorda” esta molécula e a faz entrar em acção num local preciso e definido previamente, sem que afecte células saudáveis, explica ao PÚBLICO Luís Arnaut, investigador e professor catedrático do Departamento de Química da Universidade de Coimbra e que foi um dos inventores desta molécula completamente sintética. Mariette Pereira, Carlos Monteiro e Sebastião Formosinho Simões (que morreu a 19 de Dezembro de 2016), todos da Universidade de Coimbra, são os restantes inventores.

“Os fotossensitizadores, usados em terapia fotodinâmica, são moléculas que se não forem iluminadas com uma luz de cor apropriada não têm qualquer efeito. Esta especificamente é activada pelo infravermelho porque, quando activamos a molécula, queremos activá-la profundamente dentro dos tecidos e a luz visível é absorvida pela pele e penetra pouco. A luz infravermelha atravessa mais os nossos tecidos”, nota o investigador.

Quando a molécula é activada na presença de oxigénio, ela forma outras moléculas reactivas que destroem os tecidos na região onde foram geradas (iluminadas) sem se espalhar para o resto do corpo. “Apontando a luz para o tumor, conseguimos matar as células más e apenas essas, sem ter efeitos no resto do corpo”, diz Luís Arnaut.

O facto de esta molécula absorver o infravermelho separa-a de outras moléculas usadas em terapia fotodinâmica. “Podemos activá-la com maior facilidade em tumores sólidos com maiores dimensões ou tumores internos”, diz o investigador, destacando também que esta molécula pode ser produzida com facilidade.

No ensaio clínico que decorreu durante os últimos dois anos num hospital privado (CUF Porto) e no Instituto Português de Oncologia (IPO) também do Porto esta molécula foi administrada a doentes com cancro avançado de cabeça e do pescoço por via intravenosa. Após uma única sessão de tratamento, o tecido tumoral atingido pela acção da redaporfina reduziu-se substancialmente.

Mas, sublinhe-se, estes primeiros resultados dos ensaios em pessoas ainda não foram publicados em qualquer revista científica, o que significa que não passaram o crivo de uma avaliação prévia pelos pares (outros investigadores) nem por uma discussão entre a comunidade científica.

Lúcio Lara Santos, o médico que coordenou os ensaios clínicos no Hospital CUF Porto e IPO, explica ao PÚBLICO que a molécula foi testada em 14 doentes voluntários para encontrar a dose eficaz. Depois, um doente que se encontrava já a receber cuidados paliativos foi submetido ao tratamento. “O efeito antitumoral observado foi muito rápido, destruindo a totalidade do tumor tratado [na cabeça] e observámos que este efeito parece ser sustentado ao longo do tempo”, nota o médico, adiantando que este doente com cancro avançado da cabeça já retomou o tratamento de quimioterapia para uma lesão maligna na base da língua.

“Verificámos que o tratamento com este medicamento de tumores malignos da cabeça e do pescoço (espinocelulares) revelou elevada segurança, uma vez que os efeitos colaterais e adversos foram raros e facilmente controláveis”, refere ainda o especialista.

Esta fase inicial ensaios clínicos é um passo decisivo na vida da molécula redaporfina, que nasceu em 2004 com o registo da primeira patente que a protegeu. Mas não será o único. Concluídos os testes com este grupo de doentes, a terapia fotodinâmica com redaporfina terá de ser testada num grupo mais alargado de doentes, incluindo centros de outros países.

Por outro lado, a eficácia deste tratamento terá de ser comprovada quando associada (ou não) a outras abordagens terapêuticas, como a quimioterapia ou a imunoterapia, por exemplo, e ainda nos tumores resistentes a terapêuticas comuns. Se tudo correr bem, espera-se que a molécula seja aprovada para comercialização em 2022, refere ao PÚBLICO Sérgio Simões, presidente da Luzitin, a empresa portuguesa que detém desde 2010 a licença da redaporfina é à qual os seus inventores continuam ligados.

Lúcio Lara Santos adianta que em estudos adicionais em animais, que estão em curso, foi demonstrado que “a associação deste medicamento a terapêuticas inovadoras de imuno-oncologia potencia os efeitos antitumorais”. “O potencial de aplicação desta modalidade terapêutica no tratamento de outros tumores é enorme”, considera o médico, que acredita que está aberta a porta para a possibilidade de tratamento de outros tumores sólidos com esta terapia.  

Antes dos testes com doentes, este fotossensitizador já tinha sido experimentado em ratinhos e noutros modelos animais. Num artigo publicado na revista European Journal of Cancer, em Dezembro de 2015, os investigadores da Universidade de Coimbra mostraram em ensaios com ratinhos que 86% dos animais “com tumores diversos que foram tratados com esta tecnologia, seguindo exigentes protocolos de segurança, ficaram curados”. Estes animais foram seguidos durante mais um ano e não foi registado nenhum caso de reincidência.

Os próximos passos do desenvolvimento da redaporfina envolvem a realização de um ensaio clínico num tipo raro de cancro (o colangiocarcinoma), geralmente diagnosticado numa fase muito tardia da doença, com um prognóstico muito reservado.

Se tudo correr bem, esta molécula desenvolvida em Portugal poderá então vir a ser o primeiro medicamento oncológico português.