Opinião

Os botões de punho de Marcelo Rebelo de Sousa

Estendeu-se ao próprio discurso e à maior parte das palavras que foram ditas pelo Presidente da República, pois da mesma forma que os botões fizeram “toc, toc” na mesa, a sua mensagem fez “toc, toc” na nossa cabeça.

Na sua mensagem de Ano Novo, o Presidente da República apareceu sentado a uma mesa de madeira, com uns bonitos botões de punho prateados. Problema: Marcelo Rebelo de Sousa gesticula muito, e passámos os sete minutos do seu discurso a ouvir os botões a bater na mesa, num “toc, toc, toc” metálico que começou suave e piano para acabar próximo de uma batida de discoteca, à medida que o tom da prédica subia, sempre em crescendo patriótico. “Com esperança”, toc. “Com confiança”, toc. “Com paz”, toc. “Acreditando sempre em nós próprios”, toc. “Acreditando sempre em Portugal!”, toc, toc. “Um bom”, toc, “2017”, toc.

Eu estava a ouvir aquilo e a pensar: mas será que o pessoal do vídeo que trabalha no Palácio de Belém não usa auscultadores? Será que o operador de câmara carregou no “rec” (plano fixo de sete minutos e quarenta segundos) e foi beber um cafezinho? Será que ninguém reparou no “toc, toc, toc” antes de a mensagem ir para o ar? Dir-me-ão que começo 2017 com vontade de embirrar. Pode ser que sim. Mas não vejam isto como uma crítica ao sonoplasta. O “toc, toc, toc” está aqui apenas como sinédoque de uma falta de exigência generalizada, que não é exclusiva dos botões de punho de Marcelo Rebelo de Sousa. Pelo contrário: ela estendeu-se ao próprio discurso e à maior parte das palavras que foram ditas pelo Presidente da República, pois da mesma forma que os botões fizeram “toc, toc” na mesa, a sua mensagem fez “toc, toc” na nossa cabeça. E isso chateia-me.

Chateia-me, desde logo, porque não suporto a conversa ridícula – decalcada do discurso de tomada de posse – de que os portugueses são melhores do que os outros, e de que precisariam apenas de um pouco mais de esforço para se tornarem a Suíça da Península Ibérica. “Quando queremos, nos unimos no fundamental, e trabalhamos com competência, com método e com metas claras – somos os melhores dos melhores”, garante Marcelo, armado em guru da auto-ajuda política. Reparem: não somos apenas “dos melhores entre os melhores”. Não: somos mesmo “os melhores dos melhores”. Ainda bem que o nosso Presidente não é alemão, louro e de olhos azuis, porque senão esta conversa dos “melhores dos melhores” teria um nome, e bastante feio. Em Portugal, felizmente, é só mesmo mais um “toc, toc, toc” irritante e pouco exigente, mera jactância presidencial para entreter os distraídos.

Mas o mais grave da mensagem não foi isso. O mais grave foi o momento em que Marcelo resolveu ser crítico de António Costa a propósito da falta de crescimento. Após os elogios pela forma como conseguiu criar um “clima menos tenso” e “menos negativo”, o Presidente da República sublinhou que em 2017 há que “corrigir o que falhou no ano passado” e “crescer muito mais”. Ora, há que perguntar ao Presidente da República quem foi o senhor que promulgou o Orçamento de Estado em menos de 24 horas. Porque esse senhor, extremamente parecido com Marcelo, colocou o seu visto num documento onde está escrito que o crescimento previsto para 2017 é de 1,5%. Isso não é “crescer muito mais”. Isso é crescer bastante abaixo do que precisamos. Só que – e Marcelo sabe-o bem – é o crescimento possível, visto ter sido necessário pagar ao PCP e ao Bloco o “clima menos tenso” e “menos negativo” que o Presidente tanto aprecia. Estão a ouvir o “toc, toc, toc”, não estão? Tudo isto soa muito mal. É pouco exigente e totalmente contraditório. Mas se o pessoal engole assim, para quê gravar uma nova versão?